'Michelle Obama' do Irã sacode o palanque

Zahra Rahnavard: desafiando o bloqueio da Sharia às mulheres, rouba a cena nos comícios do marido candidato

Robert Tait, The Guardian*, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2009 | 00h59

Ela preserva a modéstia sob um chador preto que a cobre por completo e é autora de ensaios que pedem às muçulmanas para não renunciarem ao véu. Mas agora, Zahra Rahnavard está se tornando arauto de uma revolução sexual na política iraniana - dominada pelos homens - ao roubar a cena na campanha presidencial do marido.

Numa ruptura radical para a república islâmica, Zahra acompanhou o marido, Mir Hosein Mousavi, em uma série de comícios da campanha para derrotar o presidente Mahmoud Ahmadinejad nas eleições presidenciais de 12 de junho.

Mousavi, de 67 anos, que concorre como reformista, dividiu os palanques com a mulher em várias de suas aparições recentes. Numa delas, na Província de Mazandaran, seus eleitores gritavam: "Morte ao Taleban, em Cabul ou Teerã".

A mídia iraniana já chama Zahra, de 61 anos, de "próxima primeira-dama" do país e a compara à mulher de Barack Obama, Michelle. "Nenhum dos candidatos à presidência tinha aparecido antes ao lado da mulher durante a campanha, exatamente o contrário do que se observa nos Estados Unidos", disse o jornal reformista Etemaad num artigo com o título "De Michelle Obama a Zahra Rahnavard".

A participação das mulheres de candidatos nas campanhas é algo inédito num país cuja interpretação da Sharia, a lei islâmica, foi criticada por negar às mulheres a igualdade de direitos e não vê uma mulher num ministério desde a Revolução Islâmica de 1979. Apesar de não constar da Constituição uma proibição expressa de as mulheres concorrerem à presidência, nenhuma candidata jamais foi aprovada nas sabatinas do poderoso Conselho Guardião.

Zahra usou seu prestígio de escultora e intelectual respeitada para fugir à regra. Além de acompanhar o marido, ela escreveu artigos pedindo apoio para sua campanha. Um deles pedia que a eleição se concentrasse no fim da discriminação contra as mulheres. A visibilidade dela contrasta com a discrição da mulher de Ahmadinejad, Azam al-Sadat Faraahi, que nas suas raras aparições públicas, é vista sempre usando o chador para ocultar o rosto.

Zahra, doutora em ciências políticas que passou o reinado do xá exilada nos EUA, é uma defensora dos direitos da mulher em padrões bastante incomuns para o Ocidente. Ela é autora de ensaios intitulados Motivos Coloniais para a Remoção do Véu Feminino, A Formosura do Véu e O Véu da Beleza. A vida pública não é novidade para ela. Zahra foi assessora do ex-presidente reformista Mohammad Khatami e chanceler da Universidade Al-Zahra, em Teerã, a primeira mulher a ocupar tal posição.

*Correspondente do Guardian no Irã desde 2005. Trabalhou para o Times de Londres em Jerusalém. É casado com uma iraniana

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