Mil e setecentas semanas depois

Bill Gates deixa a Microsoft, que tirou da garagem para transformar num império da informática mundial

Silvio Lemos Meira*, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2008 | 21h18

Você passou as últimas três décadas na mesma empresa, no mesmo posto, fazendo a mesma coisa. Sua empresa é global, seu trabalho é divertido, você lidera um dos melhores times de colaboradores do planeta. Nestes 30 anos, você tirou seu negócio de uma garagem e criou um império que domina boa parte da informática mundial, nas empresas e nas casas. E isso numa economia em que as instituições se tornam velhas em uma década. E às vezes desaparecem bem antes disso. No processo, você se tornou ultrabilionário e descobriu que há problemas bem maiores e mais complexos, no mundo, do que fazer e vender software e serviços. Seu nome é Bill Gates, sua fama e fortuna podem ajudar a mudar a vida de muita gente. E você resolveu fazer justamente isso. Sexta passada foi seu último dia de dedicação integral à Microsoft; nesta segunda, a empresa e você vão começar a mudar. Quanto?...Bill Gates é a cara da Microsoft. Muito mais do que qualquer um dos criadores do Google é a alma por trás do negócio, Gates desenhou, criou, fez crescer e manteve, nas últimas três décadas, uma empresa que é quase monopolista em vários tipos e mercados de software. Sua imaginação, planejamento, projeto, estratégias, táticas e implementação estão representados nos produtos, serviços e no comportamento da maior empresa de software do planeta. Gates não é, no entanto, nenhum super-homem infalível, que sempre teve idéias melhores que seus competidores e criou os melhores produtos antes deles todos. Muito pelo contrário. A principal característica que talvez possa ser atribuída a Gates e sua liderança na Microsoft, na vida da empresa, é a capacidade de entender o mercado e seus possíveis futuros analisando sinais fracos, desenhar uma estratégia emergente para a empresa e realizá-la a contento antes que as janelas de oportunidade desapareçam.Exemplo? É só olhar para a Microsoft no começo da internet. Fiel a seus princípios, a empresa acreditava que o público iria preferir uma rede fechada e segura, feita e provida por ela, ao ambiente aberto e quase caótico da internet. A Microsoft tentou criar essa rede própria na qual habilitaria todo um mercado, onde tudo estaria sob seu controle e, em boa parte, funcionaria em seu benefício. Se vencesse a internet, no entanto, a empresa seria apenas mais um ator, numa peça escrita e encenada por todos, de forma colaborativa. Como se sabe, venceu a internet. E ainda bem. Na hora em que o resultado começou a ficar claro, Gates moveu toda a empresa para tentar dominar tantos nichos da rede quanto possível, investindo bilhões de dólares e milhões de horas de seus engenheiros para tornar a Microsoft, que havia chegado no segundo ato (ou no meio da novela) um dos atores principais. E a empresa de Redmond, ao contrário de outros gigantes (como a DEC), não só sobreviveu, mas decuplicou seu faturamento do começo da era da internet para nossos dias. Um feito nada trivial, mas não o mais importante. O desenvolvimento do PC, na metade da década de 80, quando a empresa foi escolhida pela IBM para prover o sistema operacional, ofereceu a Gates a maior oportunidade que qualquer empresa de software teve em todos os tempos. E ele soube aproveitar, criando não só um software fechado - que ninguém podia copiar ou modificar - para o hardware aberto e comoditizável da IBM, mas as bases sobre as quais toda uma indústria se desenvolveu. A Microsoft criou a plataforma de compatibilidade que tornou possível, para quase qualquer um, escrever um programa uma única vez e rodar em quase todos os computadores do mundo. Para se ter uma idéia do que isso significa, quem quiser fazer uma aplicação mais ou menos universal para celulares tem que fazê-la rodar em - literalmente - centenas de plataformas diferentes. Ainda não apareceu uma Microsoft para padronizar a plataforma celular; a própria Microsoft, por sinal, é apenas mais um ator quando se fala de mobilidade e não há um Gates à vista para unificar o setor. Gates, o próprio, nem tentou.No caso dos PCs, ao se estabelecer como provedor único da plataforma sobre a qual quase todo o software do planeta rodava (e roda), Gates carreou para a Microsoft resultados financeiros difíceis de encontrar em qualquer setor ou empresa, em qualquer época da história das corporações. Considerando o impacto da empresa, um banqueiro chegou a dizer que a remuneração auferida pela Microsoft era menor que a devida, face ao benefício global de criar o mercado de software para computadores pessoais. Nem todo mundo pensa assim, especialmente a comunidade de software livre, que sempre reclamou de pelo menos duas coisas: primeiro, do software fechado, ao qual não se tem acesso, para entender e modificar; segundo, dos preços das licenças, especialmente em países periféricos, altos o suficiente para levarem a taxas de pirataria quase sempre acima dos 50%. Desse ponto de vista, Gates sempre foi o demônio a ser enfrentado, mesmo depois de dar sinais e apostar recursos numa Microsoft mais aberta, capaz de contratar importantes figuras da cena de software aberto para sua própria engenharia.A partir de amanhã a Microsoft vai ter que aprender a viver sem seu principal criador. Há outros, que ainda estão lá, como o atual CEO, Steve Ballmer. Mas há quem pergunte se Gates, no comando da empresa, teria feito a desastrada oferta hostil para comprar o Yahoo... e a resposta é quase sempre não. E empresas de informática têm a cara de seus "donos": existe uma Apple brilhante e criativa com Steve Jobs à frente e outra, nem tanto, sem ele. Michael Dell teve que retornar ao comando da empresa que tem seu nome porque as coisas, depois da passagem do leme, não estavam indo bem. E por aí vai. A Microsoft, apesar de estar perdendo de muito a batalha da busca aberta na internet para o Google, não é uma empresa em crise, onde a saída do principal líder vai causar uma fuga de acionistas e colaboradores. Mas nada será como antes, principalmente daqui a uns anos. Gates, ao contrário de Jobs, dificilmente voltará à Microsoft. Sua bilionária fundação, que passa a ser dirigida por um executivo saído da Microsoft, é sua nova casa, onde os focos são desenvolvimento e saúde globais, áreas em que não faltarão problemas do tamanho do fundador e principal provedor. Se todo bilionário fizesse o mesmo, talvez tivéssemos um mundo muito melhor em algumas décadas. Boa sorte, Bill . *Silvio Lemos Meira é professor titular de Engenharia de Software da UFPE, Recife e cientista-chefe do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife, C.E.S.A.R

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