Minaretes da intolerância

Partidos europeus se tornaram covardes e distantes de ações efetivas pelo pluralismo religioso e cultural

Tariq Ramadan*, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2009 | 03h39

.

Não deveria ser assim. Por meses ouvimos que os esforços para proibir a construção de minaretes na Suíça estavam fadados a fracassar. As pesquisas de opinião mais recentes sugeriam que aproximadamente 34% da população suíça seria favorável a essa iniciativa chocante. No dia 26, em reunião organizada em Lausanne, mais de 800 estudantes, professores e cidadãos se mostraram certos de que a medida seria rejeitada quando submetida a referendo, e concentraram seus esforços em como transformar uma iniciativa tão tola num futuro mais positivo.  

 

Essa convicção foi esmagada, com 57% da população suíça fazendo aquilo que a União Democrática do Centro, UDC (de direita), insistira para que fizesse - um preocupante sinal de que esse partido populista pode estar mais próximo dos temores e das expectativas das pessoas. Pela primeira vez desde 1983 foi aprovada na Suíça uma iniciativa que destaca uma comunidade específica, com uma essência discriminatória clara. Podemos torcer para que a proibição seja rejeitada no nível europeu, mas isso não faz o resultado menos preocupante. O que está acontecendo com a Suíça, minha terra natal?

Há apenas quatro minaretes na Suíça. Assim, por que foi lançada uma iniciativa desse tipo? Meu país, como tantos outros na Europa, enfrenta uma reação nacional à nova visibilidade conquistada pelos muçulmanos europeus. Os minaretes são apenas um pretexto. A UDC pretendia inicialmente promover uma campanha contra os métodos islâmicos tradicionais para abater animais, mas temeu esbarrar na sensibilidade dos judeus suíços, e se voltou então contra os minaretes, eleitos como alvo mais adequado.

Todos os países europeus escolhem símbolos ou temas específicos por meio dos quais os muçulmanos locais são perseguidos. Na França, é o lenço ou a burca; na Alemanha são as mesquitas; na Grã-Bretanha, a violência; na Dinamarca, os quadrinhos; na Holanda, o homossexualismo - e assim por diante. É importante enxergar além desses símbolos e compreender o que está de fato acontecendo na Europa como um todo e na Suíça em particular: enquanto países europeus e seus cidadãos passam por uma crise de identidade real e profunda, a nova visibilidade dos muçulmanos europeus se mostra problemática - e assustadora.

No exato momento em que os europeus perguntam a si mesmos, num mundo globalizado e migratório, "quais são nossas raízes?", "quem somos nós?", "como será nosso futuro?'', eles veem a seu redor novos cidadãos, novas tonalidades de pele, novos símbolos aos quais não estão acostumados.

Ao longo das duas últimas décadas o Islã foi associado a tantos debates controvertidos - violência, extremismo, liberdade de expressão, discriminação de gêneros, casamento forçado, para citar apenas alguns - que se tornou difícil para os cidadãos comuns encarar essa nova presença muçulmana como algo positivo. Há muito medo, e a desconfiança é palpável. Quem são eles? O que querem? As perguntas recebem dose extra de suspeita quando é enunciada a ideia de um Islã como religião expansionista. Será que essas pessoas querem islamizar nosso país?

A campanha contra os minaretes foi abastecida justamente por essas ansiedades e alegações. Eleitores foram atraídos para essa causa por uma manipulação apelativa dos temores e das emoções populares. Cartazes mostravam uma mulher de burca com os minaretes desenhados como armas sobre uma bandeira colonial suíça. Foi dito que o Islã é fundamentalmente incompatível com os valores suíços (no passado, a UDC exigiu a revogação de minha cidadania porque eu defendia os valores islâmicos de maneira excessivamente aberta). Sua estratégia de mídia foi simples, mas eficaz. Provocar a controvérsia onde quer que ela possa ser inflamada. Espalhar entre o povo suíço um sentimento de vitimização: estamos sob cerco, os muçulmanos estão nos colonizando em silêncio e estamos perdendo nossas raízes e nossa cultura. A estratégia funcionou. A maioria dos suíços está enviando uma mensagem clara a seus concidadãos muçulmanos: não confiamos em vocês, e para nós o melhor muçulmano é aquele que não vemos.

Quem deve levar a culpa? Há anos repito aos muçulmanos que eles devem se fazer positivamente visíveis, ativos e proativos dentro de suas respectivas sociedades ocidentais. Na Suíça, no decorrer dos últimos meses, os muçulmanos tentaram se esconder com o objetivo de evitar conflitos. Teria sido mais útil buscar a criação de novas alianças com todas as organizações e partidos políticos do país que se mostraram claramente contrários à iniciativa. Os muçulmanos suíços têm sua parcela de responsabilidade, mas deve-se acrescentar que os partidos políticos na Suíça e na Europa se tornaram covardes e tentam se distanciar de quaisquer medidas corajosas no sentido do pluralismo religioso e cultural. É como se os populistas definissem o tom e os demais simplesmente os seguissem. Eles se recusam a reconhecer que o Islã é hoje uma religião suíça e europeia. Que os cidadãos muçulmanos se mostram amplamente "integrados". Que encaramos desafios em comum, como o desemprego, a pobreza e a violência - desafios que precisamos enfrentar juntos. Não podemos culpar apenas aos populistas - trata-se de um fracasso mais amplo, uma falta de coragem, uma terrível e estreita falta de confiança nos seus novos cidadãos muçulmanos.

*Professor de estudos islâmicos contemporâneos na Universidade Oxford. Seu livro mais recente é What I Believe (Oxford USA Trade)

Tudo o que sabemos sobre:
AliásintolerânciaEuropa

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.