Minha luta perdida

Comentada e desmistificada, 'Mein Kampf', a bíblia do nazismo, volta às livrarias da Alemanha 7 décadas após a última publicação

SÉRGIO AUGUSTO, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2012 | 03h06

Ainda que Nicolas Sarkozy perca o segundo turno para François Hollande, o placar político na Europa continuará amplamente a favor do conservadorismo: 11 x 5, uma goleada. Dos 15 governos que caíram, nos últimos três anos, 11 (Espanha, Reino Unido, Portugal, Bulgária, Finlândia, Hungria, Irlanda, Letônia, Lituânia, Eslovênia e Holanda) ou eram de esquerda ou de centro-esquerda. A direita só sentiu o tranco da crise econômica na Grécia, Dinamarca, Eslováquia e Itália. Com a surpreendente performance eleitoral de Marine Le Pen no primeiro turno das eleições na França e o sarampão nacionalista-populista que contaminou até os políticos europeus mais arejados ideologicamente, a direitização da Europa deixou de ser uma ameaça hipotética.

Nessa moldura, que mais torta há de ficar se Mitt Romney, outro baluarte da austeridade recessiva, vencer Obama nas eleições de novembro, o anúncio de que Mein Kampf (Minha Luta) voltará às livrarias e escolas alemãs 67 anos depois de sua última publicação pareceu a muitos uma reconfortante coincidência, um sinal de que o fantasma de Adolf Hitler e suas ideias, nem sempre recicladas apenas pelos neonazistas, deverão ser doravante combatidos sem escamoteação.

A maturidade afinal prevaleceu. Censurar e banir a bíblia do nacional-socialismo sempre soou como uma incoerência, contra a qual até judeus diretamente atingidos pelo Holocausto se batiam. Além do mais, inútil. Para que proibir (e aguçar o interesse por) um texto que há tempos pode ser lido na internet, de graça e em várias línguas?

A solução encontrada foi a mesma há tempos sugerida por estudiosos e historiadores do nazismo: uma edição comentada, analisando a fundo a extensão do mal teorizado e propagado por Hitler, que só chegará às livrarias daqui a três anos, tão logo expirem os direitos autorais em poder do Estado da Baviera desde 1945. "Queremos desmascarar todo o conteúdo absurdo do livro", explicou em nota um de seus guardiões bávaros, "e tornar as futuras reedições comercialmente pouco atraentes."

Seu anúncio, na terça-feira, pode ter sido coincidência, mas abril, não custa lembrar, foi sempre um mês hitleriano. No dia 20 ele nasceu, no dia 30 morreu, e em 1º de abril de 1924 foi trancafiado na fortaleza de Landsberg, na Baviera, após o fracassado putsch na cervejaria de Munique. E foi ali que tudo começou.

Hitler concebeu sua magnum opus como um relato e um balanço de seus 35 anos de vida e seus 4 anos e meio de agitação política. As teclas de sua máquina de escrever ressoavam até altas horas, batidas pelo colega de prisão (e golpismo) Rudolf Hess. Nas tardes de sábado, Adolf lia os capítulos já concluídos para os companheiros de cativeiro, que, sentados a sua volta, como discípulos obedientes, ouviam embevecidos seu work in progress: um misto de biografia, tratado ideológico antissemita e manual prático de ação para tomada do poder e purificação da raça.

O editor do livro, Max Amann, que esperava um relato vivo e descrições espetaculares, decepcionou-se com o palavreado entediante e o tom bombástico do manuscrito. De cara, implicou com o título enxundioso cogitado pelo autor (Uma Luta de Quatro Anos e Meio Contra Mentiras, a Estupidez e a Covardia) e impôs o enxuto Mein Kampf. Hitler, receoso de que duvidassem de sua competência intelectual, empolou o texto com substantivos, verbos e adjetivos que fariam corar a Madame Natasha de Elio Gaspari.

Apesar do socorro de vários discípulos, muitas bobagens escaparam à vigilância do reverente copidesque. Joachim Fest, biógrafo do Führer, selecionou algumas; e uma das melhores é esta reflexão sobre a miséria: "Quem ainda não se viu preso entre as garras dessa víbora que o enlaça jamais saberá o que são seus dentes envenenados". Víboras com garras?

O primeiro volume foi editado em 1925, o segundo, escrito já fora das grades, saiu dois anos depois, também pela editora nazista Franz Eher Verlag, comandada por Amann. Para sacudir as vendas, muito abaixo do esperado, Amann sugeriu a Hitler que cometesse um novo livro, o que ele fez, em poucos dias, no verão de 1928. Conhecido como O Segundo Livro de Hitler, remoía a ladainha do anterior e só seria publicado em 1961, em Munique, e traduzido para o inglês em 2003.

Mein Kampf demorou oito anos para atrair a atenção de editores estrangeiros. Ou seja, precisou que o autor ascendesse a chanceler para entrar no mercado editorial internacional. Pouco menos de um ano após a inauguração do 3º Reich, a Itália fascista pôs à venda uma tradução com o selo da Bompiani, que pagou 20 vezes o valor em seguida oferecido pela britânica Hurst & Blackett, como uma forma de ajudar a cobrir os custos da campanha eleitoral do partido nazista.

Pressionada por Mussolini, que achava o livro ilegível e seu autor um ser patológico, mas prometera a Hess publicá-lo, a Bompiani contratou o melhor tradutor de alemão do país, Angelo Treves. Por ser judeu, Treves teve seu nome retirado da primeira edição de La Mia Battaglia.

Todos os lares do Reich possuíam o seu exemplar obrigatório, ainda mais obrigatório nas salas de aula do ensino básico. Era o presente de riguer em casamentos e formaturas. Ao contrário do Livro Vermelho de Mao, não era distribuído gratuitamente pelo Estado. O maior best seller de autoria individual do século passado não encheu só a burra do Führer, cujo exemplar pessoal, aliás, foi confiscado pelo general Patton e doado à Biblioteca Huntington, na Califórnia. Pois nem proibido, depois da guerra, em quase toda a Europa e também no Brasil durante a ditadura militar, deixou de ser vendido a mancheias.

A americana Houghton Mifflin vendia, até alguns atrás, cerca de 15 mil exemplares por ano. Questionada sobre a lisura de tal negócio, decidiu doar todo o lucro para instituições de caridade. Na Inglaterra, onde a Hutchinson detinha os direitos de tradução desde 1939, Mein Kampf teve, por uns tempos, a palavra "vile" (desprezível) e seu anagrama "evil" (mal) timbrados na capa. O resultado das vendas ia direto para uma instituição que até hoje, creio, cuida de refugiados judeus nascidos na Alemanha.

O livro que ajudou a matar 55 milhões de pessoas transformou-se, ironicamente, numa fonte de renda até para a Cruz Vermelha Internacional. Dos raros parentes de Hitler espalhados pelo mundo, somente o sobrinho-neto Alois e a mulher, Brigid, residentes em Long Island, ameaçaram reivindicar seu copyright. "É dinheiro sujo, não quero", rejeitou uma sobrinha-neta, sintetizando o desejo da maioria. Todos os citados já morreram. A partir de 2015, Mein Kampf não será mais de nenhum Hitler. O testamento do homem que quis dominar o mundo cairá, sem trocadilho, em domínio público.

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