Daniel Berehulak/Getty Images
Daniel Berehulak/Getty Images

Minha rentável lavanderia

Boris Berezovsky foi a figura dramática mais marcante, para não dizer fascinante, da transição para a Rússia de Putin

SÉRGIO AUGUSTO, de O Estado de S. Paulo,

30 de março de 2013 | 17h40

Chipre e Coreia do Norte dominaram o noticiário internacional, mas a Rússia, como se diz no turfe, pagou placê. A campanha invicta de sua seleção nas eliminatórias para a Copa do Mundo (sem falar no sufoco que ela deu nos canarinhos do Felipão, na segunda-feira), a inesperada morte de Boris Berezovsky, a incerta da polícia e do fisco nas organizações de defesa dos direitos humanos em Moscou e São Petersburgo, a greve de fome na colônia penal de Elizovo, os desdobramentos daquela agressão ao diretor artístico do Balé Bolshoi-foi farta e variada a pauta de assuntos oferecida à mídia pela Rússia, nas duas últimas semanas. Até na crise do Chipre ela andou metida. Muitos bilionários russos fizeram do Chipre uma lavanderia de dinheiro cercada de água (e dívidas) por todos os lados.

Fora dos gramados, só vexames a Rússia vem acumulando. Ponham tudo na conta de Vladimir Putin. Há 13 anos no poder, ele já foi presidente, primeiro-ministro, presidente de novo; na prática, é um czar. E, como os czares de antanho, um autocrata. Com a agravante de ter se formado na mais nefasta escola de líderes do país, a KGB, a polícia secreta stalinista, cuja sigla mudou (para SVR), mas não seus métodos de vigiar e punir. Putin reinventou a república imperial e a democradura, é o avatar contemporâneo de Stalin.

Com 20 residências a seu dispor, incluindo um palácio perto de São Petersburgo cuja restauração custou uma fortuna, 43 aviões e frotas de carros e iates, e uma coleção de relógios no valor de 700 mil dólares , mais parece, é verdade, um monarca do Golfo Pérsico. O Parlamento come em sua mão e aprova todas as leis que possam ajudá-lo a perpetuar-se no Kremlin, com o apoio do eleitorado mais bronco e mal informado do país.

Ano passado, Putin tornou legal castigar com pesadas multas e prisão quem criticar as autoridades ou fizer algo que o governo considere subversivo. As garotas do grupo punk Pussy Riot estão presas até hoje, assim como outros dissidentes do regime, igualmente timbrados de “inimigos do povo” (vaga pecha de inspiração soviética) e “elitistas a serviço de valores e interesses ocidentais”. Elitistas porque não se informam apenas pela televisão (sob controle estatal), lêem jornais, acessam a internet, e não consideram a defesa dos direitos humanos uma perniciosa afetação ocidental ou, como Putin também alardeia, um ardil para implantar no país uma revolução colorida nos moldes da que sacudiu a Geórgia e a Ucrânia.

Foi em represália às pressões dos Estados Unidos contra abusos aos direitos humanos na Rússia que o obsessivo e paranoico Putin proibiu, em dezembro, a adoção de órfãos russos por famílias americanas. Mil haviam sido adotados em 2011, ainda restariam cerca de 120 mil à espera de um lar. As passeatas contra a medida não surtiram o menor efeito. Na mesma ocasião, uma lei obrigando as ONGs com algum tipo de financiamento estrangeiro a se registrarem como “agentes estrangeiros” (como se espionagem fosse sua especialidade) e se submeterem a fiscalizações do ministério público, sem aviso prévio, aprimorou o cerco.

Ainda que as instalações de entidades meramente culturais como a Aliança Francesa também tenham sido visitadas e devassadas por agentes do governo russo no início da semana, a blitz visou sobretudo as organizações que zelam pela defesa dos direitos humanos, como a Anistia Internacional, o grupo Memorial, o Human Rights Watch. A intenção era clara: intimidar e dificultar as atividades das ONGs, e, por tabela, amedrontar e inibir a oposição.

A repercussão fora de casa foi a pior possível. Arrufos diplomáticos com os governos da França, da Alemanha, e a União Europeia arranharam um pouco mais a reputação do presidente russo. Dentro de casa, a malaise de sempre. Só os intelectuais chapas brancas não execram o atual governo, “corrupto e criminoso”, segundo Mikhail Shishkin, um dos mais badalados escritores contemporâneos do país.

No início do mês, Shishkin se recusou a representar a Rússia na maior feira de livros dos Estados Unidos, a Book Expo America, “exclusivamente por razões éticas”. Receava ser tomado por um garoto-propaganda do regime, que abomina, da presidência ao judiciário (“não serve à lei, mas às autoridades”). Não reconhece a sua Rússia naquela em que vive, anestesiada por uma televisão “prostituta” e à mercê de “uma súcia de impostores que nos impõe leis insanas, medievalescas” (leia-se o Parlamento).

Há dias, o autor de best sellers policiais Boris Akunin, do alto de sua verdadeira identidade (Grigory Chkhartishvili), anunciou haver abandonado a ficção para escrever uma grande história da Rússia, em vários volumes, como um contraponto aos livros didáticos, ideologicamente preconceituosos, encomendados pelo presidente Putin. Começará pelo século 13 . Ou seja, virá de Alexandre Nevsky até os dias correntes. Vale dizer, até Putin, as máfias pós-perestroika, os nababos russo-cipriotas...e Boris Berezovsky, o magnata exilado que se enforcou em Londres, no final da semana passada.

Berezovsky talvez tenha sido a figura dramática mais marcante, para não dizer fascinante, da transição para a nova Rússia, nos anos 1990. Aproveitando o vácuo deixado pelo ancien régime, avançou sobre diversas riquezas do país (petróleo, minério, bancos, fábricas), enriqueceu e tornou-se o homem mais influente da política nacional. Tinha nas mãos todas as autoridades e todos os líderes empresariais. Fez Putin suceder na marra a Boris Yeltsin. Traído e perseguido, asilou-se em Londres, onde diversificou seus negócios (até no Corinthians lavou dinheiro) e perdeu uma fábula em brigas judiciais com seu antigo sócio, Roman Abramovich, dono do Chelsea.

Nunca parou de conspirar contra seu maior afilhado político. Almejava o poder sem as suas obrigações. Queria ser um Richelieu, não um Luís XIII. Por pouco não acabou como o Trótski de Putin. Preferiu o suicídio a uma picaretada na moleira. Sua história, não porque tenha vivido os últimos anos na Inglaterra, é mais Shakespeare que Dostoiévski.

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