Minha verdadeira pátria

Escritor e intelectual paulista, mas mineiro nascido no Rio, Antonio Candido revisita lembranças com Walther Moreira Salles em Poços de Caldas na década de 1930

Antonio Candido, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2012 | 03h08

Passei grande parte da vida sem ver o Walther, creio que mais ou menos de 1940 a 1980. Mas, quando nos vimos de novo, foi como se nos tivéssemos visto na véspera. Nosso vínculo principal é Poços de Caldas, onde minha família foi morar em 1930, depois que meu pai, Aristides de Mello e Souza, médico, foi contratado pelo governo mineiro para dirigir os novos serviços termais completamente renovados. Meu avô materno, médico no Rio, foi entre 1883 e 1896 sócio e mais de uma vez diretor da empresa que explorava as águas, de modo que minha mãe nasceu lá em 1893, e para lá voltou por puro acaso quando o marido foi exercer na esfera pública as funções que o pai dela exercera na esfera privada. Tivemos a casa de família em Poços até 1989, e eu a considero minha verdadeira pátria, pois, como digo brincando, sou meio apátrida: um intelectual paulista que é mineiro nascido no Rio...

Meu pai foi hostilizado por alguns médicos locais e pela política municipal, sendo que esta quase conseguiu fazer chegar ao governo mineiro uma dura representação contra ele. Isso não aconteceu porque o pai de Walther, que era do diretório político, se opôs. Ele se chamava João Moreira Salles e fez fortuna nos negócios de café e lojas, em seguida, bancários. Era um homem de valor e muito cortês, além de ter uma bela presença.

Eu fui colega uns tempos de um irmão mais moço de Walther e fui amigo de sua irmã, que era uma moça encantadora e inteligente. Walther me tratou desde menino com muita atenção, sendo seis anos mais velho, porque eu era ratinho de livros e ele grande leitor. Lembro de sua pequena, mas boa biblioteca daquele tempo. Conversávamos sobre os autores que eram então seus prediletos: Anatole France, Oscar Wilde, Eça de Queirós. Falava muito bem francês, que era o inglês daquela época, e de certo o aprendera no Liceu Franco-Brasileiro, onde terminou o ginásio em 1931. Era um dos melhores colégios de São Paulo, formado no começo dos anos de 1920 por uma missão de professores franceses, entre os quais um cunhado de André Gide.

Pela mediação de Antonio Fernando De Franceschi fiz parte do conselho da Casa de Cultura de Poços, depois incorporada ao Instituto Moreira Salles quando este foi fundado, e eu pertenci ao seu conselho, por convite direto de Walther. Mais tarde voltei a ficar apenas no conselho da Casa de Cultura, com João Moreira Salles e um dos meus maiores amigos, o engenheiro poços-caldense Resk Frayha. Foram anos agradáveis e fecundos, e Walther era uma presença discreta, firme e inspiradora.

 

ANTONIO CANDIDO É CRÍTICO LITERÁRIO, SOCIÓLOGO, PROFESSOR EMÉRITO DA USP

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