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Minissérie da HBO ‘Undoing’, com Nicole Kidman, discute o fascínio humano pela violência e maldade

Série assinada por David E. Kelley é baseada num livro, 'You Should Have Known', de Jean Hanff Korelitz

Mariane Morisawa, Especial para o Estado

30 de outubro de 2020 | 05h00

Como Big Little Lies, série vencedora de oito Emmys, The Undoing é assinada por David E. Kelley e estrelada e produzida por Nicole Kidman. Também é baseada num livro, You Should Have Known, de Jean Hanff Korelitz. E trata de um assassinato que envolve a alta sociedade – só que em vez de Costa Oeste, se passa na Costa Leste dos Estados Unidos. Mas as semelhanças param aí. “Nos dois casos, realmente, somos inclinados a acreditar nos personagens em princípio e nas construções de seu mundo perfeito”, disse Kelley durante evento em janeiro da Associação de Críticos de Televisão, em Pasadena, nos EUA. “Mas esse é apenas um ponto de partida. Fora isso, as duas têm muito pouco em comum.”

Em The Undoing, que entrou no ar na HBO e tem novos episódios todo domingo, às 23h, Kidman é a psicoterapeuta Grace Fraser, filha do rico e poderoso Franklin Reinhardt (Donald Sutherland). Ela vive um casamento amoroso com o admirado oncologista infantil Jonathan Fraser (Hugh Grant) e mora com ele e o filho adolescente, Henry (Noah Jupe), num apartamento elegante em Manhattan. Um dia, aparece na reunião de mães da escola a jovem Elena Alves (Matilda De Angelis), que não se encaixa naquele mundo. Na noite do leilão beneficente da escola, Elena é morta violentamente. E a vida de Grace vira de cabeça para baixo. 

Para Nicole Kidman, a minissérie trata de como escolhemos não saber de certas coisas. “Esse é um aspecto fascinante da natureza humana. Ao mesmo tempo, todo o mundo tem segredos. É normal”, disse a atriz. Cada um dos seis episódios termina em um “cliffhanger”. “Eu amo isso, porque foi tudo construído para as pessoas quererem devorar o próximo”, afirmou Kidman. “E o melhor é que a HBO não deixa assistir o próximo imediatamente. Espero que as pessoas se divirtam.”

A aposta mais no mistério do quem matou e dos segredos dos personagens em vez do drama foi sugestão de Susanne Bier, que dirigiu todos os episódios. “Eu pensei na série como um filme longo”, disse ela em entrevista ao Estadão, via Zoom. “Eu me interessei muito nessa ideia de a vida de uma pessoa virar do avesso, de você achar que conhece alguém e não conhecer de verdade”, contou ela. O mundo milionário de Nova York também foi um atrativo. “Você anda pelo Central Park, vê aqueles apartamentos e pensa: Quem mora ali? Como é morar ali?”

Para Grant, era muito difícil recusar o projeto, dado o pedigree: ele admirava os filmes dinamarqueses de Bier, sabia que Kelley é o rei da televisão americana, e tinha Kidman, que além de tudo é sua amiga há muito tempo. “Antes mesmo de abrir o roteiro, já era interessante. E aí a noção de que a série falava de pessoas não sendo o que elas parecem é muito fascinante”, disse ele. O mistério do “quem matou?”, segundo ele, é intrigante porque mexe com os instintos mais primitivos do ser humano. “Nós somos fascinados pela violência e pela maldade. Adoraríamos expressá-las, mas somos impedidos pela civilização. Precisamos ter a experiência por meio de outros, de histórias. Shakespeare amava isso, os gregos também. Amamos Pulp Fiction, Scorsese. É compulsivo.” Se forem crimes envolvendo pessoas ricas e/ou famosas, melhor ainda. “Adoramos ver a ruína de gente privilegiada. O espetáculo é melhor.”

O ator venezuelano Édgar Ramirez, que faz o detetive investigando o caso, ouviu de policiais nova-iorquinos que a suspeita de envolvimento de ricos e poderosos sempre complica o caso. “A mídia se envolve, e começa um julgamento público antes mesmo de a investigação se completar”, disse Ramirez. 

Susanne Bier pôde comprovar tudo isso no momento em que filmava The Undoing em Nova York, quando o financista bilionário Jeffrey Epstein, acusado de abuso sexual de menores e tráfico de pessoas, foi preso. “Ele circulava neste universo e naquela mesma área. Então bateu aquela sensação de que, nessa classe social, os homens podem fazer o que quiserem, sem que ninguém preste atenção. É perturbador e dá muita raiva. Não vou dizer se nossa série aborda exatamente isso por causa de spoilers, mas sem dúvida esse mundo cheio de privilégios é dominado por homens.”

Hugh Grant acha curioso lançar uma minissérie sobre segredos e mentiras num momento em que discernir o que é verdade ou não está mais complicado. “As fundações da civilização ocidental liberal e democrática parecem estar bambas no momento”, disse. “E estamos vindo com um programa em que as fundações de um casamento feliz bambeiam. Talvez os espectadores odeiem. Ou talvez seja o exato oposto, porque as pessoas não se cansam de pensar nisso.”

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