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Miragem americana

A desigualdade econômica está nos palanques de democratas e republicanos, mas nunca foi tão difícil escalar a pirâmide social nos EUA

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

25 Abril 2015 | 16h00

O que têm em comum a candidata democrata Hillary Clinton e seus ferrenhos adversários no campo republicano? Uma preocupação com a desigualdade econômica. Ou melhor, uma preocupação em demonstrar preocupação com a desigualdade econômica. É difícil imaginar que defensores de cortes de impostos para os ricos e cortes drásticos na assistência pública passem a noite acordados com o fato de que a renda média das famílias americanas é hoje mais baixa do que era há 25 anos.


E, assim, a desigualdade vai se tornando o pretinho básico da campanha presidencial de 2016. Ao anunciar a candidatura com um vídeo sem nenhuma proposta concreta, que um comediante comparou a um comercial de seguro saúde, entre as poucas afirmações que Hillary Clinton fez foi: “As cartas do baralho continuam a favorecer aqueles no topo”. Seus opositores republicanos chegam ao mesmo ponto por uma via oposta. Alegam que intervenção demais por parte do governo engessa a economia e aumenta a desigualdade. O público não pede licença para discordar. Em janeiro, o Pew Research Center revelou que 69% dos americanos, além de se preocuparem com o crescimento da desigualdade, acham que o governo deve intervir para diminuir a distância entre ricos e pobres. E 54% preferem aumento de impostos sobre os ganhos dos ricos para assistir os pobres.

Na quarta-feira, Bill de Blasio, o prefeito de Nova York eleito em 2013 com o slogan Dickensiano “Um Conto de Duas Cidades”, lançou o mais ambicioso programa urbano de redução da desigualdade já apresentado no país. Ele quer alçar 800 mil nova-iorquinos da pobreza ou quase pobreza nos próximos dez anos. Batizado de PlaNYC, o plano do prefeito é promover a sustentabilidade ambiental casada com a econômica em iniciativas como construir moradia acessível, usar energia renovável e melhorar o transporte para o trabalho. Mesmo quem aplaude a meta de reduzir radicalmente as emissões causadoras do efeito estufa até 2050 espera mais detalhes específicos.

Não faz muito tempo, o prêmio Nobel de economia Joseph Stiglitz foi convidado para uma festa por um anfitrião que ele identifica como “membro do 1%”, o rarefeito grupo no topo da pirâmide econômica que inspirou o epíteto propagado pelo movimento Occupy. O anfitrião estava preocupado com a crescente desigualdade de renda e misturou bilionários a acadêmicos num grupo que supostamente tinha em comum a preocupação com o tema.

À medida que a noite avançava, o economista e professor da Universidade de Columbia foi ficando mais perplexo. Além de ouvir comentários sobre o povo “preguiçoso” que espera almoço grátis e preocupações com a eficácia de paraísos fiscais, Stiglitz conta que ouviu não uma, e sim várias referências a Maria Antonieta e à guilhotina. Alguns detentores da maior concentração de renda de qualquer país afluente faziam, sem qualquer senso de ironia, piadas sobre perder a cabeça por excessos como o da aristocracia na Revolução Francesa.

O episódio da festa abre o novo livro de Stiglitz, The Great Divide: Unequal Societies and What We Can Do About Them (A Grande Cisão: Sociedades Desiguais e o Que Nós Podemos Fazer a Respeito). Mas, se marcham contra o racismo e a violência policial, pelo meio ambiente e a favor do casamento gay, os americanos talvez não marchem por uma causa mais difícil de encapsular, como a desigualdade. Fora o breve período do movimento Occupy, que tomou praças e ruas em inúmeras cidades, entre 2011 e 2012, e tentou narrar, fora do establishment político, o resultado da bolha que levou ao crash de 2008, não há sinal de que as cabeças de vento da festa de Stiglitz serão separadas de corpos ou fortunas.

Ao contrário de países europeus, não há nos Estados Unidos uma cultura de inveja dos ricos. Depois de 35 anos de aumento da desigualdade num país que se olhava no espelho e via o triunfo da classe média, o cidadão que passa a vida lutando para chegar ao fim do mês não costuma alimentar ressentimentos contra a afluência. A desconexão entre a realidade - os Estados Unidos têm hoje a mais baixa taxa de oportunidade de progresso econômico do mundo desenvolvido - e o otimismo da cultura do sonho americano é comprovada por estudos como o feito pelos psicólogos Michael Norton e Dan Ariely, em 2011. Eles pediram a 5 mil americanos para adivinhar a porcentagem de riqueza acumulada por segmentos da população. O cidadão médio supõe que os 20% mais ricos controlam 59% da riqueza. Na realidade, controlam 84%.

Mais economistas têm sido atraídos para o estudo da desigualdade e as consequências do fenômeno sobre a estabilidade social e a prosperidade dos países. Até o Fundo Monetário Internacional, espantalho favorito da esquerda, mercador ambulante da austeridade, começou a bater à porta de países emergentes alertando para os efeitos da explosão de desigualdade. Sociólogos falam em “feudalismo constitucional”, uma democracia no papel em que o sistema político é tão corrompido por dinheiro que a representatividade é erodida. Ou, como gosta de dizer Stiglitz, de um homem, um voto, estamos passando a um dólar, um voto.

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