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Mó brother

Fosse um ataque, tubarão teria partido em velocidade para cima de Fanning, diz ex-surfista

Carlos Frederico Martins , O Estado de S. Paulo

25 Julho 2015 | 16h00

No final de semana passado, o tricampeão mundial de surfe Mick Fanning viveu uma experiência que nenhum surfista gostaria de ter: encontrar-se com um tubarão. Não fiquei exatamente surpreso com isso. É sabido que a costa da África do Sul, assim como a da Austrália, é lar de grandes tubarões brancos e que algo daquela natureza, vez ou outra, acontece. A minha surpresa foi ele ter saído dali ileso, pois o tubarão media, pelo menos, 4 metros. 

Interessante como algumas pessoas vêm tratando esse encontro: como um ataque. Na realidade, ele, Mick Fanning, saiu sem nenhum arranhão da água e não percebi o tubarão tentando abocanhá-lo. Fosse um ataque, ele teria partido em velocidade para cima do surfista, como costuma ser a abordagem nesses casos. 

Outros equívoco foi achar que, pelo fato de ser surfista, Fanning soube como proceder. O que se viu foi alguém desesperado tentando se afastar de algo que poderia lhe tirar a vida ali mesmo. Essa reação se assemelha à das pessoas que colocam as mãos na frente do rosto tentando impedir que a bala de um assassino a mate. É puro reflexo. Quando fui atacado na Praia de Boa Viagem, em 1995, não sabia o que estava fazendo e, talvez por isso, esteja vivo hoje. O instinto de sobrevivência, a adrenalina, o desespero é que movem você. Só depois, quando tudo se acalma, é que cai a ficha de que se escapou de um perigo extremo. Na hora, você quer sair vivo dali, e foi o que aconteceu comigo, mesmo com o tubarão ainda perto da prancha e tendo eu perdido meu pé esquerdo no incidente.

Em 2013, quando tive oportunidade de viajar para o Havaí, o mergulhador e produtor Lawrence Wahba me recomendou mergulhar com tubarões na costa norte da Ilha de Oahu. Essa experiência foi fantástica. Além de enfrentar meu medo, entendi melhor ainda como esses animais se comportam. Os tubarões mais agressivos, como o tubarão branco, o cabeça-chata e o tigre, mordem com o intuito de identificar se aquilo faz ou não parte da alimentação deles, enquanto outros tubarões realizam essa identificação tocando com o focinho. Isso fica óbvio ao verificar que vários ataques que levaram ao óbito das vítimas são consequencia de hemorragia, e não porque o tubarão devorou a pessoa, como devoraria uma foca, por exemplo. 

Faço parte de um grupo no Facebook chamado Bite Club (Clube da Mordida), formado por vítimas (vivas, claro) de ataques de tubarão. Metade dos participantes têm raiva do bicho e a outra metade o defende, como é o meu caso e o de outras pessoas que tiveram danos severos. Essa reação é normal, pois alguns do grupo são mais lúcidos ao analisarem o ocorrido com eles, enquanto outros não aceitam a cicatriz física ou emocional deixada por um animal que hoje odeiam. Sou da opinião de que eles, os tubarões, estão no próprio ambiente. Nós é que nos colocamos em uma situação de encontrá-los, o que pode ocorrer em qualquer mar do mundo, embora alguns tenham maior probabilidade, como certos pontos na África do Sul, na Austrália e na Praia de Boa Viagem, em Recife. Não somos nós que impediremos isso por não podermos mais surfar “em paz”. Estar no mar é como estar na savana africana, onde qualquer coisa pode acontecer, inclusive nada.

Seriam esses encontros entre homens e tubarões mais frequentes devido ao crescimento populacional dos últimos ou resultado de um aumento no número de seres humanos na Terra? É preciso respeitar a natureza como ela é e, também, ter mais responsabilidade ao tratar casos como o que ocorreu durante a etapa do Mundial de surfe para não disseminar o ódio contra animais que estão apenas repetindo um ato de seu cotidiano. Tento compreender em vez de odiar o desconhecido e, por isso, tenho uma admiração muito grande pelos tubarões. Não guardo mágoa. Fiz uma tatuagem nas costas com um desenho de tubarão com o ano do ataque que sofri e tenho uma prótese decorada com desenhos de tubarão. A logomarca no meu canal do YouTube também leva um desenho dele. É algo que sempre estará presente em minha vida. Portanto, respeito e compreensão acima de tudo. Só assim conseguiremos viver em harmonia com outros seres que dividem o mesmo espaço.

CARLOS FREDERICO MARTINS RESIDE EM TORONTO, NO CANADÁ, E É AUTOR DE O OLHAR DA VÍTIMA (MATRIX)

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