Ilustração de 'Moby Dick' por Rockwell Kent
Ilustração de 'Moby Dick' por Rockwell Kent

'Moby Dick', o enigma que persiste há dois séculos

Relançamento do clássico de Hermann Melville traz prefácio do escritor existencialista Albert Camus, que buscou o significado real da baleia branca

Paulo Nogueira , Especial para o Estado

21 de setembro de 2019 | 16h00

O mar pode não estar para peixe, mas felizmente a baleia é um mamífero. Nos 200 anos de nascimento de Herman Melville, a Editora 34 celebra a efeméride com uma edição de Moby Dick, incluindo prefácio de Albert Camus e posfácio de Bruno Gambarotto. Uma espécie de sushi literário tamanho família. Melville começou a escrever a obra em 1850 e a concluiu 18 meses depois, um ano a mais do que tinha previsto. Nesse meio tempo, conheceu Nathaniel Hawthorne e rolou um ‘bromance’ para a vida inteira. Moby Dick é dedicado a Hawthorne. Esses parças, com os reforços VIP de Henry Thoreau, Emerson e Walt Whitman compõe aquilo que se chamou de “Renascença Americana”. 

Melville passou três anos no mar, a bordo de baleeiras. Ao contrário de Emerson e Thoreau, nunca escreveu um diário, por isso é impossível comparar as experiências que viveu com as que imaginou. Na época, proliferavam relatos sobre cachalotes temperamentais. Um deles era uma certa Mocha Dick, “tão branca como a lã”, que afundara navios e trazia 19 arpões cravados no dorso. Melville fez escala no Rio de Janeiro duas vezes, mas acabou desertando do navio.

Moby Dick foi um fiasco comercial e estava fora do prelo quando o autor morreu, em 1891 – não houve obituários lisonjeiros, pois Melville fora esquecido. Já antes ele justificara sua obscuridade: “Como toda a fama é patrocínio, deixem-me ser infame.” Moby Dick foi publicado primeiro na Inglaterra, e o desdém dos críticos ingleses se devia a história ser contada por um narrador que afundara com o navio, na medida em que o romance fora editado sem o epílogo...

Duzentos anos depois, a melhor literatura norte-americana brota de duas fontes: Mark Twain (realista e humorístico) e Herman Melville (simbólico e metafísico). A adaptação icônica de Moby Dick é o filme de John Huston, de 1956, com roteiro de Ray Bradbury. O romance inspirou pintores, poetas, cineastas e músicos como Orson Welles, Laurie Anderson, Sylvia Plath, Jackson Pollock, Stanley Kubrick, Bob Dylan (que citou Melville em seu discurso do Nobel). D. H. Lawrence declarou que Moby Dick era futurista antes de o futurismo ter sido inventado”, e Virginia Woolf jurou ter lido a obra três vezes. 

Como O Grande Gatsby, Moby Dick é contado na primeira pessoa – e, também como em Gatsby, seu protagonista (o capitão Ahab) demora para pisar o palco. Ahab é um Capitão Gancho seco e mefistofélico, obcecado com a baleia branca que lhe amputou a perna. O incipit “Call me Ishmael” é um dos mais canônicos da história da literatura – os tradutores brasileiros optaram por “Trate-me por Ishmael”. Prefiro “Meu nome é Ishmael” (já que “Chame-me de Ishmael” hoje soa meio pomposo). Mas tradução é traição. As principais influências são Shakespeare e a Bíblia. Antes e durante a escrita Melville estivera “hipnotizado pelo Bardo”. O próprio Ahab é uma combinação de Macbeth com o rei Lear. Já os livros de Jonas e de Jó são citados explicitamente no romance. No livro de Jó, Javé apregoa o poder do Leviatã sobre a humanidade – e Moby Dick é o Leviatã. 

Símbolos? Como observou E. M. Foster, “Moby Dick está repleto de significados – o duro é decifrar seu Significado”. D. H. Lawrence tasca: “Uma caçada. A última grande caçada. A quê? A Moby Dick, a baleia branca, que é velha, grisalha, monstruosa e nada sozinha. Claro que é um símbolo. De quê? Duvido de que o próprio Melville o saiba exatamente. E isso é o melhor de tudo.”

A tripulação do Pequod é diversificada, contemplando todas as raças, quase como quotas. Os quatro arpoadores correspondem a arquétipos: um índio americano, um negro africano, um polinésio e um parse. Por outro lado, não há mulheres a bordo, o que induziu um crítico a chamar Moby Dick de “um livro muito gay”, citando o encontro na cama de uma pousada de Ishmael e o arpoador Queequeg: “Ele pressionou a testa contra a minha, apertou-me pela cintura e disse que a partir daí estávamos casados.” 

Há inúmeros pares ímpares na história. Como o capitão Ahab e o imediato Starbuck, reciclando Dom Quixote e Sancho Pança. Porém, a antinomia suprema é mesmo Ahab versus Ishmael. Apesar de melancólico, o marinheiro é aberto à pluralidade da vida, ao passo que o capitão é dogmático em sua monomania. Juntos, lembram a polaridade do ensaio célebre de Isaiah Berlin, A Raposa e o Ouriço, inspirado no aforismo do poeta grego Arquíloco: “A raposa sabe muitas coisas, mas o ouriço sabe apenas uma.”

Para a índole/raposa, não há uma única explicação para a vida, pois esta é prismática e os fins são vários e nem sempre compatíveis entre si. Para o ouriço, tudo é reduzido a uma causa determinista. Daí a exclamação cósmica de Ahab: “Todos os objetivos visíveis são apenas máscaras de papelão. E pretendo passar pela máscara! Como pode o prisioneiro chegar lá fora, senão empurrando a parede? Para mim, a baleia branca é essa parede.” No capítulo O Dobrão, cada membro da tripulação percebe a moeda pregada no mastro de acordo com sua própria personalidade. 

Já Ishmael, apesar de fascinado, consegue ver a loucura de Ahab, ressalvando a dignidade da vida humana. Quanto ao capitão (em cuja receita entram também Prometeu, o Satã de Milton e o doutor Fausto), ele joga ao mar seu cachimbo (signo da serenidade) e quebra seu quadrante (signo da racionalidade). Por fim, tempera seu arpão no sangue pagão dos arpoadores e o batiza não em nome do Pai, mas do Demônio. Sim, Moby Dick é uma obra-prima simbólica e cada leitor formatará sua baleia. Como notou Edmund Wilson, “nunca dois leitores leram o mesmo livro” . Mas o romance é também um esfuziante entretenimento: o épico americano, uma eletrizante saga marítima, com tudo a que uma boa ficção tem direito: demanda, conflito e catástrofe.

Paulo Nogueira é autor de 'O Amor é um Lugar Comum'

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