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MoMA redescobre a modernidade de Joan Miró em exposição

Pintor espanhol tem 60 obras, entre pinturas, esculturas, desenhos e gravuras à mostra em Nova York

Roberta Smith, The New York Times

23 de março de 2019 | 16h00

Periodicamente, o Museu de Arte Moderna (MoMA) orquestra o que chamo de Imersão Miró, uma daquelas experiências que podem fazer de você um amante da arte para toda a vida ou, se já for o caso, incentivá-lo a renovar seus votos. É uma exposição, é claro, e é dedicada ao modernista espanhol Joan Miró (1893-1983). Mas, graças às extraordinárias participações do MoMA no trabalho de Miró e à familiaridade da curadoria com suas obras, essas exposições, às vezes, atingem uma intensidade dominante, extravisual.

Isso acontece em Joan Miró: Nascimento do Mundo, especialmente em uma impressionante galeria viva com a inventividade de Miró, seu talento natural e malícia lúdica. A mostra reúne 60 pinturas, esculturas, desenhos, gravuras e livros ilustrados feitos principalmente a partir de 1920 até o início dos anos 1950 – um punhado da coleção do museu. O foco é O Nascimento do Mundo, uma pintura visionária que pode até se qualificar como uma “obra-prima perdida”. Pintada por Miró em 1925, era em grande parte desconhecida, exceto para um punhado de artistas e outros habitantes da arte até 1968, quando foi incluído em Dada, Surrealismo e sua Herança, a abrangente pesquisa do MoMA sobre os dois movimentos que introduziram o antimaterialismo e as explorações freudianas do inconsciente na arte do século 20.

O artista André Masson certa vez comparou essa tela grande (2,4 m por 1,98m) em sua radicalidade a Les Demoiselles d’Avignon, de 1907, de Picasso. Ainda é surpreendente que os dois tenham apenas 18 anos de diferença. Mas enquanto Demoiselles tornou possível o cubismo, que se espalhou pela Europa e, além disso, em questão de anos, O Nascimento do Mundo tornou-se quase imediatamente underground; estava muito à frente de seu tempo para ter um efeito imediato. Seus finos véus, respingos e fios de cinza, ocre e azul lavados e espaço livre de horizonte encontrariam pouco eco fora do trabalho de Miró até por volta de 1950, com o fluir das técnicas de Jackson Pollock e Helen Frankenthaler.

Fiel à sua sensibilidade, Miró contornou a abstração total, preenchendo seu uso radical de tinta com pictogramas alegres. Estes evocam uma pipa preta, um balão vermelho e uma figura enigmática com uma cabeça esférica branca pisando na corda amarela do balão, para evitar que ele escape com a pipa.

Para os seguidores surrealistas de Miró, O Nascimento do Mundo, tomou a técnica revolucionária do desenho automático, que tocou o subconsciente, entrou no reino da pintura. Eles também vieram com o título. Mas, no geral, a pintura não era amada pelos outros amigos de Miró e pelos de René Gaffé, o perspicaz colecionador belga que a comprou do artista em 1925-26. Atormentado pelo ridículo, Gaffé tornou-se protetor da pintura, exibindo-a apenas uma vez, em 1930, em Bruxelas. Em 1972, o MoMA adquiriu-o da sua viúva e manteve-o quase sempre à vista.

Ao entrar na primeira eufórica galeria do programa, você pode ver O Nascimento do Mundo brilhando no canto mais distante, como um farol. Mas primeiro você precisa enfrentar sete pinturas deslumbrantes e um desenho no qual Miró descobre a levitação, o espaço vazio e seu universo pictográfico, preparando o cenário para O Nascimento do Mundo.

Em 1917 o Retrato de Enrico Cristòfol Ricart – pintado três anos antes de Miró pisar em Paris – saúda Van Gogh e o Matisse do fauvismo e dos anos 1910, e adere à colagem cubista. Ele mostra Ricart, um artista com quem Miró dividia seu estúdio em Barcelona, em brilhantes pijamas listrados contra uma parede amarela na qual ele havia colado uma gravura japonesa real. O MoMA não exibe esta fulminante obra desde 2000, então é uma experiência singular.

Em A Mesa (Natureza Morta com Coelho), 1920-21, emprestado de uma coleção particular, Miró afasta-se das geometrias sombrias do cubismo, reordenando os pequenos fragmentos em uma representação estilizada. Ele reúne as superfícies translúcidas de um pintor renascentista, enquanto reformula os quadrados flutuantes das abstrações severas de Malevich como tampos de mesa não ancorados. Em O Caçador (Paisagem Catalã), concluído em 1924, vemos a superfície da pintura escovada, terreno despojado (céu amarelo sobre solo cor de pêssego) ativado pelos pictogramas pretos que alimentariam sua arte pelo resto de sua vida.

E ainda há mais nesta primeira galeria. Em Interior Holandês (I) e Retrato da Senhora Mills em 1750 (1928 e 1929, respectivamente), Miró traduz maliciosamente pinturas de antigos mestres em linguagem biomórfica. E ele também investe em sua crescente atração por objetos em colagens ásperas, um relevo de madeira e escultura em madeira. “Preciso dizer a você”, escreveu Miró a seu marchand, Pierre Loeb, em 1927, “que eu vejo coisas reais com amor cada vez maior”.

Depois de absorver a expansão em alta velocidade na primeira metade desta exposição, pode ser necessária uma nova visita para fazer justiça à sua segunda galeria, mais tranquila. A principal ação é observar Miró deslocando-se sem esforço seu universo de macro para micro, dependendo do tamanho ou do meio de sua superfície de trabalho. Há também referências constantes à realidade dentro da aparente abstração: observe a silhueta de um gato, delineada em branco, no lado esquerdo de Pintura (1933). Sua cauda parece se contorcer com o tumulto das formas no centro da tela.

Há também dois retratos que remetem aos grandes esforços iniciais de Miró no gênero. Um deles é o majestoso Autorretrato I, de 1937-38, em que o rosto do artista emerge de uma panóplia de cinzas pálidos e brancos em tons pastéis e um verdadeiro universo de cascas e esporos vegetais. Finalmente, há o seu Retrato de um homem em um quadro do final do século 19. Este é um retrato encontrado (e habilmente pretensioso) que Miró engenhosamente alterou, polindo aqui e ali e acrescentando os sinais e símbolos de seu universo. Essa hilária violação data de 1950, alguns anos antes de o artista dinamarquês Asger Jorn começar a reformular pinturas de loja de artigos de segunda mão. (Coincidentemente, a influência de Jorn é traçada em Vandalismo Estratégico: O Legado das Pinturas de Modificação de Asger Jorn, na Galeria Petzel, em Chelsea.)

Esta exposição foi organizada por Anne Umland, curadora sênior do departamento de pintura e escultura do museu, que também foi responsável pela mostra de 2008, Joan Miró: Pintura e Anti Pintura, 1927-1937. Há uma ressalva: limitar esse esforço aos reconhecidamente gloriosos Mirós do MoMA distorce a singularidade de O Nascimento do Mundo e subestima a carreira de Miró no seu todo. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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