Momento tapete vermelho

Protagonista do filme de Oliver Stone, Hugo Chávez curte recepção de supertar no Festival de Veneza

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

14 de setembro de 2009 | 09h15

Foi algo nunca visto no Festival de Cinema de Veneza, o mais antigo do mundo, fundado em 1932 sob o poder de Benito Mussolini. O Duce não acreditaria se lhe dissessem que a tradicional Mostra Internazionale d’Arte Cinematografica, que ainda hoje tem como sede o antigo Cassino do Lido, de sólida arquitetura fascista, pudesse não só receber, mas tratar como ídolo o mais completo símbolo do radicalismo de esquerda latino-americano - o presidente Hugo Chávez, da Venezuela.

 

Pois foi o que aconteceu na segunda-feira, dia 7, quando Chávez desfilou, soberano, pelo tapete vermelho que conduz ao Palazzo del Cinema, sob aplauso de uma multidão que gritava suas boas-vindas ao convidado. Chávez veio acompanhar a projeção oficial de South of the Border, filme de Oliver Stone que o tem como personagem principal ao lado de outros líderes da "nova esquerda" latino-americana, como Fernando Lugo, do Paraguai, Evo Morales, da Bolívia, Cristina Kirchner, da Argentina, Rafael Correa, do Equador, além de Lula, é claro, e de quebra Raúl Castro, de Cuba. Mas esses são coadjuvantes. Chávez é o protagonista absoluto de South of the Border, e seu diretor explica a razão: "Queria entender o motivo pelo qual a imprensa norte-americana e mundial trata como demônio esse homem tão popular em seu país", disse Oliver Stone.

 

É bom que se diga que Stone se inspirou no livro Os Piratas do Caribe, do paquistanês Tariq Ali, que também deu as caras em Veneza e respondeu a perguntas sobre as tendências antidemocráticas de Chávez com um "ninguém disputou tantas eleições como ele e poucos venceram com tão grande margem de votos". No Brasil, o livro de Tariq Ali foi editado no ano passado pela Record.

 

O sucesso de Chávez no tapete vermelho vinha sendo preparado havia dias, mas ninguém confirmava sua presença no Lido. Por puro acaso, constatei que havia uma possibilidade real de o presidente desembarcar por aqui. Estava no saguão do pequeno hotel onde me hospedo, usando o wireless, quando ouvi um grupo de hispânicos perguntar ao proprietário se teria vagas para a comitiva de Chávez. O dono explicou que seria difícil arrumar lugares de última hora durante a Mostra de Cinema. Ligou para vários colegas e disse por fim que as conseguiria, com pagamento adiantado. Feita a negociação, o chefe do grupo de venezuelanos disse que pagaria em dólares, mas desejava restituição de parte do dinheiro caso Chávez não viesse. No dia seguinte, li no Gazzettino di Venezia nota em que Chávez dizia considerar um "ato político" sua presença no Lido. E assim acabou vindo. Hospedou-se no luxuoso Hotel des Bains, local sagrado onde Luchino Visconti filmou Morte em Veneza, ensaio sobre o decadentismo inspirado em Thomas Mann.

 

Dali, Chávez saiu em comitiva para o tapete vermelho, a menos de um quilômetro de distância, onde era esperado. Vi a recepção em meio à multidão. Havia uma faixa grande na qual se lia uma saudação em espanhol e bandeiras vermelhas da Rifondazione Comunista. Ouviam-se alguns protestos, também. Uma mulher gritava "Ditador, ditador!" Ao meu lado, um homem clamava, em espanhol: "Ele é rico, usa terno Armani, fora!" Eram minoria e olhados com curiosidade. Perguntei ao homem: "Venezuelano?" Ele não respondeu, me olhou e se afastou. Continuou com seus gritos um pouco mais adiante. Era difícil ver Chávez no tapete, pois os fotógrafos e câmeras se precipitavam sobre ele. Chávez ia e vinha em direção à multidão. Tomou a câmera de uma profissional e a fotografou. Depois beijou a moça nas duas faces. Dentro do cinema, a recepção foi tão calorosa quanto fora. Um rapaz entoou o começo do hino da Venezuela: "Gloria al bravo pueblo que el yugo lanzó", provocando a reação de Chávez: "Gracias, muchacho!" E nesse clima ocorreu a sessão, com palmas em algumas passagens, como quando Chávez chama Bush de "Satanás, ainda sinto o seu odor de enxofre".

 

Tamanho sucesso repercutiu no dia seguinte, com títulos em primeira página nos jornais mais importantes. O tom mais irritado era o do tradicional Corriere della Sera, de Milão, que usou como manchete da sua edição de 8 de setembro: "Veneza se inclina a Chávez", com chamada para duas páginas internas reservadas à cobertura política. Nelas havia reportagens, entrevistas e artigos opinativos. O ex-prefeito de Veneza Paolo Costa, de centro-esquerda, explicava a consagração como a vitória do pensamento irracionalista em matéria de política e também como inconsciente "desejo de populismo" das pessoas, "uma vontade de transgressão". Segundo Costa, as pessoas que aplaudiam não ignoravam quem era Chávez. Mas ele representa "um desabafo, a vontade de gritar, de contestar". Mais incisivo ainda, em artigo assinado na primeira página e intitulado Aos Pés do Caudilho, o colunista Pierluigi Battista lamentava que "a Itália saiba festejar como nenhum outro país os ditadores que nos visitam".

 

Conversei no dia seguinte com algumas pessoas que frequentam o festival há muitos anos e foram unânimes em dizer que não se lembravam de tamanha repercussão de um convidado da mostra. Um deles comentou, com malícia, que o tom crítico dos jornais conservadores italianos, desolados com a acolhida calorosa, seria ilustração perfeita da tese de Oliver Stone sobre o preconceito da mídia em relação a Chávez. Seja como for, panfletário ou compensatório, hagiográfico ou simplesmente partidário, South of the Border celebrou em Veneza o reencontro do cinema com o mundo real da política, da qual ele anda tão distante. Reencontro que sempre provoca calor, embora se espere que produza também alguma luz.

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