Morenos e emergentes

Convenção republicana tenta mostrar um partido não apenas mais diversificado em etnias e raças, mas também mais pobre

Jonathan Weisman , O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2012 | 03h09

Falou-se nos jantares de macarrão com atum de Ann Romney e seu avô mineiro galês, na mãe de Paul Ryan pegando ônibus, no pai motorista de caminhão de Tim Pawlenty e em Susana Martínez crescendo na fronteira e vivendo de salário em salário.

Agora que o Partido Republicano apresenta seu candidato presidencial mais rico em gerações, os planejadores da convenção se esforçaram para projetar não só um partido mais diversificado étnica e racialmente, mas menos rico também. A mensagem: não somos milionários e brancos.

O quadro na tribuna de oradores foi um cortejo de cores, classes e narrativas de sucesso pelo esforço pessoal. Os oradores incluíram Mia Love, uma candidata negra de Utah à Câmara cujos pais vieram como indigentes do Haiti; o governador Luis Fortuno, de Porto Rico; Martínez, a governadora do Novo México; e Condoleezza Rice, a primeira negra a ocupar a Secretária de Estado. Titãs corporativos foram trocados por donos de pequenas empresas, generais por soldados de infantaria feridos, líderes eleitos consolidados por candidatos de minorias à Câmara.

"O que vocês estão vendo essencialmente é um partido que se tornou o campeão da pequena empresa e, ouso dizer, da classe média", disse Carly Fiorina, a multimilionária ex-chefe da Hewlett-Packard que concorreu a uma cadeira no Senado na Califórnia em 2010 e não faria um discurso na convenção. "Se olhar para as pessoas que estão falando aqui, de Mia Love a Susana Martínez, de Bob McDonnell a Luis Fortuno, verá não apenas uma imagem diferente, mas uma realidade diferente."

Especialistas em pesquisa e estrategistas republicanos vinham advertindo há anos que demografia é destino, e uma população que está se diversificando poderia condenar um partido incapaz de atrair eleitores de minorias. Essa não foi a primeira convenção a fazer um apelo tão aberto a blocos eleitorais pesadamente atraídos pelos democratas. A convenção de George W. Bush na Filadélfia, em 2000, foi criticada por levar um espetáculo de diversidade a extremos quase cômicos.

Neste ano, Matthew Dowd, um assessor da campanha de Bush, disse que a chapa teria de conquistar 38% do voto hispânico para vencer. Bush atingiu a meta. Em 2004, a meta era 40%. Ele conseguiu.

Mas o partido retrocedeu e as coisas ficaram mais difíceis, disse Dowd. Mitt Romney e o presidente Barack Obama estão empatados em pesquisas nacionais em grande parte pelo outro lado da equação, o recuo do presidente entre os homens brancos.

Neste ano, o esforço de imagem da convenção adicionou classe social à mistura. Estima-se que Romney possua um quarto de bilhão de dólares. Ele é filho de um presidente executivo da indústria automotiva e frequentou as escolas privadas mais exclusivas do Meio-Oeste e depois as universidades de Stanford, Brigham Young e Harvard.

Mas o partido parece estar enterrando esses fatos sob uma enxurrada de histórias de "gente humilde que venceu na vida com trabalho duro e honestidade".

"Nós nos casamos e mudamos para um apartamento de porão", confidenciou Ann Romney à nação na quinta-feira à noite. "Íamos juntos a pé para a escola, dividíamos os afazeres domésticos e comíamos muita massa com atum."

Paul Ryan, colega de chapa de Romney, vem de uma família com raízes profundas em Wisconsin e em uma das maiores construtoras do Estado, mas na quarta-feira à noite os espectadores ficaram sabendo que seu pai era um advogado de cidade pequena e que sua mãe passou dificuldades após a morte do marido, aos 55 anos.

Para o espectador atento, essas histórias viraram uma ladainha. Martínez contou sobre o pai, um boxeador amador quando nos fuzileiros navais que depois se tornou subxerife brigando na fronteira mexicana. O pai do candidato ao Senado Ted Cruz foi preso e torturado em Cuba e chegou ao Texas com US$ 100 costurados dentro da cueca.

Para não ficar atrás, Love garantiu aos espectadores que seus pais haitianos chegaram com apenas US$ 10 nos bolsos.

Os republicanos compreendem o imperativo por trás da narrativa, não só porque estão enfrentando o primeiro presidente negro, cujo respaldo entre hispânicos e negros é arrasador, mas porque blocos de votantes minoritários estão ameaçando sobrepujar a base republicana branca no futuro.

"É incrivelmente importante. É indispensável para o sucesso do partido", disse Ricky Gill, um indiano-americano candidato à Câmara na Califórnia, para quem o apelo devia ir além da imagem, para políticas focadas em questões de interesse de minorias, como a escolha da escola e mudanças nas leis de imigração.

Mel Martínez, ex-senador da Flórida e um dos principais defensores dentro do partido de um tom mais brando sobre a imigração, elogiou os planejadores da convenção.

"Eles fizeram um trabalho fantástico, e sabe por quê? Porque foi real", disse. "Não foi apenas reunir alguns hispânicos na plateia chão e tentar fazer a câmera notá-los. Eles estavam na tribuna."

Dowd não está tão empolgado. Bush teve sucesso (com os hispânicos) porque falava espanhol, adotou uma reforma da imigração odiada por muitos conservadores e enfrentou a intolerância dentro de seu partido, disse ele. A tarefa de Romney será conferir substância à exibição.

"Não se pode ganhar votos latinos com imagens", disse Dowd. "Tudo que vi foram imagens sem alcance substantivo." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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