Morte da memória científica

Na tragédia do Butantã apenas se repetiu o descuido que já levou à destruição de outros acervos em desastres de gravidade semelhante

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

23 Maio 2010 | 01h35

O incêndio no Butantã nos faz lembrar que ciência é, também, história da ciência. Nenhum cientista consegue pesquisar se não tiver em conta a memória de seu campo de pesquisa. É norma, aliás, que isso fique evidente nos projetos apresentados pelos pesquisadores às instituições científicas e às instituições de fomento. A pesquisa sem diálogo com o conhecimento acumulado no respectivo campo é chute, não é ciência.

Essa memória não está apenas nos fatos, nos documentos e nos objetos que em determinado momento serviram de base a análises, interpretações e descobertas. Ninguém se torna um cientista se não aprender com a história do saber como foi que os antecessores souberam, conheceram e descobriram. O conhecimento que se adensa, se multiplica e atravessa gerações, que está nos arquivos, museus e bibliotecas, não é material de irrelevante ilustração do que só parece sério se for reduzido a um texto ou a uma fórmula sintética e atual. Há uma temporalidade peculiar na história da ciência que sua redução ao tempo presente desfigura e empobrece. Isso vale não só em relação às cobras do Butantã, mas também em relação ao que sobre elas escreveram seus cientistas. Subestimar, depreciar e abandonar os acervos que registram, preservam e acumulam o saber vivo de muitas gerações mortas de pesquisadores e cientistas é renunciar à ciência. Descuidar dos acervos de arquivos, museus e bibliotecas é a morte do próprio conhecimento.

No Butantã apenas se repetiu descuido que já conhecemos. De cara, sem nenhum esforço especial de memória, lembro de quatro desastres ocorridos nos últimos 30 anos, de gravidade semelhante à do incêndio do Butantã. Um deles, de 2005, foi o incêndio que destruiu, em Franco da Rocha, o arquivo histórico do Hospital Psiquiátrico do Juqueri. Boa parte dos registros da história da nossa psiquiatria virou cinza. Materiais da maior relevância para o estudo comparativo da evolução e tratamento das doenças mentais entre nós perdeu-se em instantes.

Outro, foi num dia 2 de janeiro dos anos 1990, quando um temporal "vazou" para dentro da Biblioteca de Filosofia e Ciências Sociais da USP, na Cidade Universitária, verdadeira cascata caindo sobre os livros colecionados a duras penas desde a chegada da Missão Francesa que fundou a USP. Em desespero, professores e funcionários tentaram remover o que podiam para os espaços abrigados. Levaram meses secando livros com velhos ventiladores. Não obstante, passaram-se muitos anos antes que a biblioteca viesse a ter adequado edifício no campus.

Um quarto desastre foi nos anos 1980, quando uma enchente do Rio Pinheiros, na Vila Leopoldina, inundou o pavilhão que o Tribunal de Justiça de São Paulo usava para abrigar o acervo de 200 anos do Arquivo do Judiciário. Arquivo vivo, é bom que se diga, pois diariamente ali encostavam os veículos que vinham buscar ou devolver os processos dos casos em julgamento. Mais de um metro de água suja cobriu muitas centenas de processos, entre eles os 180 volumes do processo da Revolução de 1924. Um dos volumes era exclusivamente de fotografias, um documento visual da tragédia ocorrida em São Paulo. Aquele arquivo é fundamental para o estudo de questões sociais, referência de teses acadêmicas sobre temas fundamentais de nossa história social, como criminalidade e anomia social. Milhares de papéis tiveram que ser enxugados em varais ao sol e com pequenos ventiladores, prosaica tecnologia de uma proteção indigente. Só há três anos o governo de São Paulo conseguiu entender-se com o tribunal para que o Arquivo do Estado fizesse a recuperação dos papéis de modo tecnicamente correto.

Entre nós, é costume dar prioridade ao imediato e desdenhar o passado que é integrante do presente. Tal prioridade é ideológica e só aumenta o risco em que se encontram as instituições de preservação da memória histórica do conhecimento.

JOSÉ DE SOUZA MARTINS É PROFESSOR EMÉRITO DA FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. ENTRE OUTROS LIVROS, AUTOR DE A APARIÇÃO DO DEMÔNIO NA FÁBRICA (EDITORA 34)

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