Morte na redação

Decano dos repórteres políticos, Tim Russert era o mais temido entrevistador da TV americana

Pedro Doria, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2008 | 21h06

No dia 7 de fevereiro de 2007, o jornalista Tim Russert subiu apoiado em muletas, com alguma dificuldade, a escadaria da Corte Distrital de Washington onde serviria de testemunha no caso Estados Unidos contra I. Lewis Libby. Russert, o mais influente jornalista político do país, estava de mau humor. Chefe de gabinete do vice-presidente Dick Cheney, Libby era sua fonte habitual. Estava sendo processado como suspeito de ter identificado para a imprensa o nome de uma agente da CIA - um crime federal - e o veterano jornalista não queria testemunhar. Sob juramento, temia que alguma pergunta pudesse obrigá-lo a revelar o nome de uma fonte qualquer - Libby ou outro. Como não revelaria, corria o risco de ser preso.Aquele foi o dia "mais desconfortável" de sua vida, diria depois. Uma vida interrompida drasticamente na sexta-feira. Tim Russert, nascido em Buffalo, Estado de Nova York, tinha 58 anos. Era diretor da sucursal de Washington da rede NBC e âncora do programa de entrevistas políticas das manhãs de domingo Meet the Press. Há 60 anos no ar, é o programa de TV mais antigo do mundo. Ele o apresentava desde 1991.No depoimento perante o tribunal, Russert "deu uma aula", escreveu no dia seguinte o crítico de mídia do Washington Post Howart Kurtz. "Ele calculava cada palavra e, freqüentemente, respondia à pergunta que queria ter ouvido em lugar da apresentada pelo advogado de Libby." O chefe de gabinete do vice-presidente terminou condenado sem que Russert tivesse sido obrigado a comprometer qualquer um.O veterano repórter chegou cedo à redação na sexta-feira, deu uma entrevista ao site da NBC anunciando quem seriam seus convidados na edição de hoje. Então se fechou em um dos estúdios de áudio para gravar a voz das chamadas. Passou mal. Despencou no chão. Os paramédicos chegaram rápido e tentaram ressuscitá-lo. Não houve jeito. Na autópsia, seu médico descobriu um coração dilatado e a coronária obstruída.Foi Tom Brokaw, por décadas âncora do principal telejornal da NBC, quem entrou no ar sexta-feira após a tensa música que convoca as emissoras da rede para o plantão. "É minha triste missão informar que meu amigo e colega Tim Russert morreu no início da tarde enquanto trabalhava." A NBC manteve jornalistas no ar durante o dia. O atual âncora do telejornal da noite, Brian Williams, entrou ao vivo direto do Afeganistão. Andrea Mitchell, também repórter da rede e mulher do ex-presidente do Banco Central americano Alan Greenspan caiu em prantos no ar. Tim Russert era o homem a quem todo político - com a exceção talvez do presidente - atendia imediatamente. Ainda assim, quando decidiu dar enfim sua primeira entrevista exclusiva à TV, em 2004, Bush procurou Russert.Todo político que pretendeu chegar à Casa Branca nos últimos 15 anos teve seu primeiro teste pesado na bancada do Meet the Press. Na análise do crítico do Post, o atual presidente do Partido Democrata, Howard Dean, perdeu suas chances de ser candidato, em 2004, quando pareceu vacilante no programa. Russert era repórter à moda antiga. Não demonstrava emoção intensa, mas fazia perguntas duras. Tinha uma voz forte e sua pronúncia, com ligeiro sotaque nova-iorquino, era muito clara.Sob sua batuta, o Meet the Press transformou-se no programa mais influente da televisão americana. Principalmente nos anos de eleição, o que fosse dito nele não raro emplacava as manchetes dos jornais de segunda-feira.Mas o sucesso não vinha sem esforço. Toda semana, sua equipe percorria décadas de recortes de jornais e antigas aparições na TV do entrevistado. Não havia mudança de opinião que não descobrissem. "Há tantos anos você disse isso", Russert diria com calma num tom insinuando simpatia, "mas agora se opõe, por quê?" E mais um político se via gaguejando ao vivo perante uma audiência de 4 milhões. O repórter nunca fazia uma crítica diretamente. Se queria questionar o político, buscava um colunista que fizera a crítica - citava, pedia esclarecimentos. Muitos ouviram dele a frase "você não está respondendo à pergunta". E, sempre que a tensão começava a subir, Russert sorria, fazia um comentário sobre beisebol ou brincava inocente.Certa vez, um repórter da revista semanal Time perguntou se ele não tinha vontade de gritar com seus entrevistados. Russert riu. "Claro", respondeu, "mas aí eu viro a notícia. Muitos tentam fazer você reagir emocionalmente e entrar no debate político. Se conseguem, você foi neutralizado, perdeu sua objetividade."O decano dos repórteres de política de Washington começou tarde na profissão. Foi o primeiro da família a se formar e, após concluir o curso de direito, trabalhou como assessor do senador democrata Daniel Patrick Moynihan e, depois, do controverso governador de Nova York - e também democrata - Mario Cuomo. Já era experiente na política quando foi contratado como executivo pela NBC, em finais dos anos 80. De executivo, passou a comentarista do Meet the Press, e então a âncora.Comentando o resultado das primárias democratas em 6 de maio, Russert declarou no canal a cabo MSNBC que "agora sabemos que Obama será o candidato democrata". Hillary havia vencido uma primária naquele dia, mas a certeza de Russert alimentou a impressão de que Obama tinha a vitória assegurada. Seus críticos, como o editor da revista eletrônica Slate, Jack Shafer, diziam que, em momentos como esse, ele se aproveitava da própria influência e intervinha no processo político."Em seu ramo", escreveu Nicholas Lemann na revista The New Yorker, "todos devem ser personagens simpáticos que o público convida para suas casas; devem ser volúveis, brilhantes, mas também pessoas que inspirem autoridade; devem expor as figuras de poder a escrutínio sem jamais destruí-las. Nesse ramo, Russert é melhor do que qualquer outro".O ano de 2008 lhe parecia promissor. O canal de notícias da NBC, MSNBC, ultrapassou em audiência tanto a CNN quanto sua eterna rival, a FoxNews, de Rupert Murdoch. Phil Griffin, diretor do canal, explicou assim o sucesso ao programa de rádio On the Media: "Nenhum canal a cabo tem a sua disposição uma equipe de repórteres como a da NBC, e as outras grandes redes, CBS e ABC, não têm canais a cabo de notícias".Todo domingo Tim Russert encerrava seu programa agradecendo a audiência e prometendo: "Estaremos de volta semana que vem, pois, se é domingo, então há Meet the Press". Em meio a uma das eleições mais importantes da história recente, o veterano jornalista morreu enquanto trabalhava. Hoje, como todo domingo, tem Meet the Press.

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