Rafael Arbex/Estadão
Rafael Arbex/Estadão

Mostra compila obras do século 15 aos contemporâneos

Com curadoria do colecionador Ugo di Pace, exposição está em cartaz em São Paulo

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

05 Maio 2018 | 16h00

Ao completar 70 anos de sua primeira viagem ao Brasil – ele desembarcou aqui em 1948, a convite de Rudi Crespi (1924-1985), filho do fundador do colégio Dante Alighieri – o arquiteto de interiores Ugo di Pace mostra em seu Studio 689 o resultado de muitas décadas de colecionismo. Sócio do primeiro diretor do Masp, Pietro Maria Bardi (1900-1999), numa galeria romana, Di Pace mantém em seu Studio preciosas obras de arte, entre elas a imagem da santa reproduzida nesta página, uma madona com o menino Jesus atribuída pela Christie’s de Nova York ao escultor Benedetto di Leonardo (dito Benedetto da Maiano), terracota policromada do último quarto do século 15.

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Ela é o marco zero de uma exposição ambiciosa com curadoria do próprio Ugo di Pace, Arte do Século 15 ao 21, que reúne artistas históricos como Benedetto di Leonardo. Pela ordem de aparecimento no planeta, a mostra tem também uma rara escultura em marfim atribuída a Francesco Mochi (1580-1654), que pertenceu à coleção privada de Pietro Bardi, além de uma tela do napolitano Domenico Antonio Vaccaro (1678-1745) que reúne a madona, o menino Jesus, João Batista e um santo franciscano. Seguindo a ordem cronológica, aparecem lado a lado duas naturezas-mortas de Mario Nuzzi (dito Mario dei Fiori (1603-1673), pintor do século 17 muito disputado pelos cardeais romanos.

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Em meio às obras dos old masters é possível ainda encontrar outras peças igualmente belas como um par de anjos em tamanho natural e madeira policrômica no estilo rococó, provavelmente esculpidos por Giacomo Serpotta (1652-1732), artista de Palermo que o crítico alemão Rudolf Wittkower chamou um dia de “meteoro no céu da Sicília” por sua exuberância que contrastava com a simplicidade provinciana de sua terra natal – de fato, há quem considere Serpotta digno de figurar ao lado de Bernini.

Dando um salto para o século 20, o visitante da exposição vai encontrar na mesma mostra aquarelas de Lasar Segall (1891-1957), telas do neoconcreto Hércules Barsotti (1914-2010) e do pop Wesley Duke Lee (1931-2010), além de uma pintura do norte-americano Rauschenberg (1925-2008), pioneiro dessa escola e do expressionismo abstrato. A obra, reproduzida nesta página, é um exemplo histórico das assemblages pop criadas por Rauschenberg com logotipos e marcas comerciais.

Não se trata, porém, de uma aleatória combinação de old masters e contemporâneos. Tudo tem um sentido nessa exposição que, segundo Di Pace, foi organizada para mostrar a ressonância da arte antiga entre os modernos. E o designer aponta o exemplo mais flagrante desse diálogo: a própria vitrine do Studio 689, onde duas cariátides (figuras femininas usadas como suporte de arquitetura, no lugar de colunas) se comunicam com uma gigantesca escultura de Véio, o escultor sergipano Cícero Alves dos Santos, cujo instinto preservacionista o obriga a usar apenas madeira de árvores já abatidas.

Véio é um artista da Galeria Estação, que cedeu algumas obras para a exposição do Studio 689, segundo Ugo di Pace. Outro escultor popular selecionado para a mostra, Nino (o cearense João Cosmo Felix, 1920-2002), também representado pela Estação, brilha num ambiente clássico e sofisticado como o espaço de Di Pace, povoado de escultores modernos como De Fiori e Bruno Giorgi – este último representado por uma madona de madeira inacabada que dialoga com um exemplar semelhante de inspiração barroca.

“Acho importante reforçar esse diálogo que existe entre a arte antiga e os contemporâneos, pois existe muita incompreensão sobre o que significa a tradição”, justifica Ugo di Pace, citando como exemplos dois pintores excepcionais que estabeleceram uma ponte com a modernidade europeia – os pintores Paulo Claudio Rossi Osir (1890-1959) e Vittorio Gobbis (1894-1968) – e foram injustamente esquecidos. Osir criou a Osiarate e trabalhou ao lado de Volpi. Gobbis era considerado por Mário de Andrade um dos primeiros modernistas.

Ambos estão na exposição organizada por Di Pace, que pretende organizar uma mostra só com pinturas de Osir e Gobbis. “Veja, é preciso resgatar esses nomes que participaram de bienais, como Gobbis, e que foram pioneiros modernistas sem esquecer as lições que aprenderam com os velhos mestres”, diz o designer, ao lado de um retrato de duas cearenses pintado por Osir nos anos 1940 e definido por um crítico como uma obra marcada pela retratística do Novecento italiano, particularmente por Achille Funni (1890-1972).

E, como Di Pace fez carreira como decorador de ambiente, não poderiam falta na exposição exemplos do mobiliário brasileiro, inclusive o contemporâneo, representado por insólitas cadeiras dos irmãos Campana.

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