John C. Weber Collection
John C. Weber Collection

Mostra reúne arte inspirada no clássico japonês 'Genji Monogatari'

Monumento literário do período Heian (794-1185) foi a base de obras de arte por diversos séculos no Japão

Roberta Smith, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2019 | 16h00

Nem todas as obras-primas literárias inspiram mil anos de grandes obras de arte. The Tale of Genji, escrito no Japão no início do século 11, que deve ter sido o primeiro romance escrito do mundo, é uma exceção. Uma saga de vida e amor na corte imperial japonesa, rica do ponto de vista narrativo, ele impulsionou a inovação e sob muitos aspectos foi a base da própria arte japonesa.

Similarmente, apenas alguns museus fazem justiça a esse longo período de criatividade e o mais proeminente deles é o Metropolitan Museum of Art, cuja mostra The Tale of Genji: A Japanese Classic Iluminated, é tão gloriosa, suntuosa e ampla como o próprio livro, repleta de raros obras emprestadas de instituições japonesas.

Genji, o livro, é um dos monumentos do período Heian (794-1185) considerado a era de ouro do Japão. Foi nessa época que o reino libertou-se definitivamente da influência chinesa, desenvolvendo, por exemplo, sua própria escritura silábica, chamada kana, na qual Genji foi escrito, e que logo se tornou a base de uma nova caligrafia japonesa. Ao mesmo tempo, os imperadores se tornaram figuras simbólicas, se não decadentes; na verdade, o Japão foi governado por uma sucessão de clãs aristocratas, lideradas por um Xogum, começando com a família Fujiwara.

Escrito por uma mulher nobre e dama de companhia, o romance capta o esteticismo, as intrigas e os costumes na corte e a história gira em torno do irresistivelmente belo Príncipe Genji, com seus muitos amores, uma figura moralmente flexível, conhecido como o Príncipe resplandecente. A história se desenrola em 54 capítulos ligados, com um grande elenco que inclui belas amantes, filhos, criados devotados e irmãos. (Em An Imperial Celebration of Autumn Foliage, capítulo 7,  o príncipe salta com seu amigo mais próximo, To no Chujo, numa dança de ondas azuis.). Genji é um playboy, mas um neurótico, um Don Juan com um toque de Hamlet, que sente remorso, culpa e depressão e uma autocompaixão obsessiva. E chora com facilidade.

Talvez antes de terminarem, capítulos de Genji começaram a circular na corte e fora dela e logo sua autora ficou célebre. Ela ficou conhecida como Lady Murasaki Shikibu, nome da principal personagem feminina do livro, e o grande amor do príncipe. Genji tem uma intensidade emocional que parece surpreendentemente moderna nos relatos constantes das vidas interiores e mudanças de humor dos seus personagens. É uma história romântica, impregnada de melancolia e com muita coisa do #MeToo. Genji pode ter estuprado uma das suas conquistas; ele raptou Murasaki basicamente à primeira vista, quando tinha 10 anos de idade.

No século após ser escrito, artistas japoneses mostraram-se à altura do desafio desse épico, dando às suas cenas uma forma visual em álbuns de Genji ilustrados, pergaminhos, biombos e, menos familiar, uma versão miniaturizada de pintura em bico de pena. Na mostra vemos a sensibilidade pictórica do país emergir: as delicadas representações isométricas da arquitetura, as casas “sem teto” desenhadas como se vistas de cima, dando aos interiores e exteriores uma visibilidade igual. E as nuvens douradas baixas que acentuam a vista aérea e que vêm se acrescentar à verve criativa.

Podemos ver esses elementos nos  pergaminhos Tale of Genji Handscrolls do século 12. Entre os mais antigos manuscritos de Genji que sobreviveram, esses pergaminhos não podem viajar, mas o Tokugawa Art Museum, de Nagoya, enviou cópias meticulosas feitas entre 1926 e 1935 pelo artista Tanaka Shinbi (1875-1975). Real ou não, vê-las é como ver pinturas do início da Renascença pela primeira vez. 

A exposição inclui chávenas de chá, quimonos, móveis relacionados a Genji, e uma liteira de madeira laqueada que o Met adquiriu em 2007. Construído em 1856 para noiva de um xogum Tokugawa, seu exterior é estampado em ouro e prata e o interior pintado com vinhetas de Genji. Há também paródias do período Edo, algumas abertamente eróticas. O que Genji não é, apesar dos muitos encontros amorosos.

A exposição foi montada por John T. Carpenter, curador de arte japonesa do Met, e Melissa McCormick, professora de arte e cultura japonesa na universidade de Harvard, com Monika Mincsik e Kyoto Kinoshita.

Murasaki, a escritora, tornou-se  uma lenda. No início da exposição encontramos várias imagens em pergaminho com uma representação dela ricamente vestida, curvada sobre sua escrivaninha – um protótipo de uma mesa de madeira laqueada também está exposto. Em cada uma dessas imagens as suas opulentas vestes a envolvem como uma pequena cadeia de montanhas através da qual seu longo cabelo se estende como um rio sinuoso. Embora o cenário que a envolve seja quase inexistente, ela está em Ishiyamadera, templo budista para onde pode ter ido para escrever seu romance.

E ali ela teria sido estimulada em sua tarefa pelo Bodisatva Nyoirin Kannon. Que também está na mostra: uma escultura do século 10 de madeira laqueada dourada do templo de Ishiymadera que é venerada no dia de Murasaki.

Exemplos das diferentes maneiras que The Tale of Genji foi adaptado por artistas também podem ser vistos na mostra. Como a primeira versão do capítulo 12 – Exile to Suma  - em que Genji está traumatizado por ter sido banido, por um breve tempo, de Quioto para a costa sul do Japão, onde  enfrenta o tédio, a ansiedade e o clima severo – que está no manuscrito de meados do século 13 executado em uma bela caligrafia filiforme em papel decorado, mas sem ilustrações.

Uma tempestade está bem aparente numa tela do fim do século 16 dominada por enormes ondas parecidas a um dragão e o nosso herói corajosamente está de pé, num pequeno abrigo na praia. Há também um pergaminho do século 17, de autoria de Isawa Matabei (1578-1650) mostra Genji de pé enfrentando o vento, seu quimono inflando, por trás de persianas de bambu que se encontram por toda a parte na exposição.

Similarmente, A Boat Cast Adrift (capítulo 51), que mostra o neto de Genji, Niou, e Ukifune, sentado num pequeno barco no rio Ufi, aparece em um biombo de duas folhas junto com cenas de outros capítulos, ao passo que dois painéis de 1966 de Sata Yoshiro (1922-97) mostram somente o barco e seus passageiros, em tamanho quase normal, recostados. No final da exposição, um maravilhoso biombo de duas folhas do século 17 exibe três cortesãs e a cena do barco é diminuída. Aparece numa minúscula pintura na porta para outra sala, dando a impressão de ser um convite à intimidade. / Tradução de Terezinha Martino 

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