Mudando de faixa

Nos versos de raps e funks, a adrenalina total dos motoboys em São Paulo

Mônica Manir, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2008 | 00h25

Acorda aí, guerreiro, que o dia já raiouVamos mostrar agora qual que é o seu valorAntes de começar façaa sua oraçãoFaça o sinal-da-cruz para fazer jusPensar nas ruaspedindo a JesusA proteção que nos conduzA entrada nesse túnel eno fim achar a luzDepois de 20 anos na garupa de Jesus, Kuriaki quer saltar no ponto. Garupa de motoca periga acabar. E profissão de motoboy não rende mais como antes. Em 1988, quando começou no ofício escondido da mãe, era bem remunerado. Recusou contratos de R$ 1.500, trabalho filé, cinco a seis entregas por dia, no máximo. Poucos tinham coragem de frisar o chão. Hoje tem muito moleque aventureiro e tiozinho aposentado. Aceitam ganhar R$ 50 por dia sem cálculo de trampo, das 6h às 18h, das 20h à madrugada. Tiram no acelera, torcem o cabo, principalmente a garotada de 18. Kuriaki está soltando da rua. Poder voltar pra casa,cumprir com o meu ofícioPoder entrar na goma, dar um beijo,um abraço na mulher e nos meus filhosCom a grana de motoboy e a ajuda da mulher (ex-digitadora dinâmica, atual secretária do ramo da arquitetura), comprou a goma, um apartamento na Vila das Mercês, zona sul de São Paulo. Financiado, mas comprou. Tem dois meninos, Kurydan - ligação direta de Kuriaki com Daniela - e Victor Kuriaki. Os moleques curtem a profissão do pai, mas ele quer mudar de rumo. Fez a letra de Motoboys, uma das trilhas do Motoboy Festival 3ª edição, que começou na quinta e termina hoje. Tem tocado percussão com o MC Sombra, ex-S.N.J., com o Maionezi do Sp Funck, com o Oscar do grupo Bro?z, com o Melwin e o Anão. A única pessoa que está mesmo apoiando o filho a passar do asfalto pra música é d. Cinira. Mãe é mãe. Cachorro sempre louco,tatuado no braçoA moto é extensão entre mim e o asfaltoColoquei o meu CR,a luva e o capaceteNo caminho, vou lembrando, a moto me guiandoO mundo está girando, otempo está passandoRespeito é respeito, mas ninguém está lembrandoKuriaki é extensão da moto. Vão juntos à padaria da esquina, ao fim do túnel, à pqp. Só se largam à beira do campo, na hora do futiba. A CG 150 e ele. Só na adrenalina, os dois. Turbinados. Impacientes. Insones. Gostam do cheiro um do outro. Aroma de graxa, de poluição. A pele dos dois deu uma encaroçada. Filtro solar é luxo. Alimentação é luxo. Motoboy guarda o dinheiro da refeição e come um dog. Fuma para perder a fome. Kuriaki tem 35 anos, faz aniversário em agosto, mas diz que tem 36. Motoboy sempre anda um passo à frente. Na pressa. Olho por olho, dente por denteMarginal Tietê,Castelo Branco,Vila PrudentePinheiros, BandeirantesEstá morrendo muita genteÉ acidente sobre acidenteOlha, motorista, e vê senão vacilaEm cima dessa moto há um pai de famíliaQue segue sua rotina como manda o dia-a-diaFique claro que Kuriaki não é cai-cai. Não vive tomando capote. Também fique claro que já arrancou muito retrovisor de carro no pé. Mas aconteceu de um dia, parado no farol, o carro vir por trás e jogá-lo longe. Ganhou um pino no joelho direito. O rasgo na perna esquerda, que alcançou o osso, veio do senhor que abriu a porta no meio do trânsito. Os 17 pontos no peito do pé esquerdo foi um pé-de-breque que provocou. Pé-de-breque é ala B, motoca inexperiente, que fica se aventurando na rua. O pé-de-breque se assustou, fez uma manobra atrasalada e acabou prensando o pé de Kuriaki entre o estribo dele e a roda dianteira do outro. Estourou a carne. Por baixo da barbicha tem outra cicatriz. Kuriaki esteve a 5 milímetros de perder o beiço com uma linha de pipa que lhe cruzou a cara. Mais tarde, ensinou o caçador de pipas a empinar moto. O moleque até virou motoboy, mas desistiu. Não agüentou.Temos que falar tudo na lataSomos cachorros,não vira-latasSe for pelo errado, eu sumina fumaçaMotoboys, motoboys,sempre junto, nunca sósEsta é nossa verdade, moto é a nossa voz125 motivos para correrEle já se esqueceu de quem é Rivail da Silva Menezes Junior. Encarnou Junior13, que remete ao artigo 113, de insanidade mental. Junior é louco porque faz muitas coisas ao mesmo tempo. É uma pessoa coletiva. Anda de moto, de skate, é cozinheiro, barman, garçom, cantor. Formou um grupo com outros dois motoboys, o Carlinhos e o Renato. Daí o CR13 mc''''s, cuja base é rap, mas cujo complemento de som é banda. Confessa que o nome foi uma boa coincidência. Hoje menos, mas, na década de 80, quem não tivesse um CR, um jaco (jaqueta) California Racing, não era cachorro louco. Vai mandar e-mail pro alemão dono da grife. Quem sabe ele não paitrocina 125 Motivos de Correria, carro-chefe do grupo.Pode crer, se liga entãoComo é difícil acelerar nesse trânsito fudidoMas acelero, no corredorTirando fina do carro do doutorQue coisa triste, nem imaginaVi um irmão deitado na pista e todos param, esquecem a pressaEsperando que o irmãosaia dessa Resgate chega, sem espanto, mano tá bemEstá respirando, vou nessaNa terça-feira Junior13 acordou com o pé direito. Má sorte. Quando passava pelo túnel Rebouças, um carro entrou na faixa da esquerda sem dar seta. Junior13 vinha pelo meio. Não deu tempo nem de buzinar. O rapaz do carro disse que, quando Junior13 gritou, a moto já estava no ponto cego. Junior13 rebateu que cego estava o rapaz que não tinha olhado pelo retrovisor. O rapaz disse que olhou. O pé direito de Junior13 doía. Pra azar do motorista, passaram uns 20 motoboys que estavam na manifestação do dia 18 e reconheceram o 13, autor do rap que tocava nos carros de som em frente da prefeitura. Junior pediu pra não se inflamarem, estava tudo certo, o rapaz deu assistência. Motoboy faz aquele fervo todo porque é complicado. Só entende quem está no trânsito. Se o motorista dá uma seta e entra, o motoca até releva. Mas, pô, entrar sem seta é o fim. Tem que ficar atento. Uma piscada, a vida pode estar acabada. Verso bom pra outra música. Pediu pra uma amiga anotar. Mas o governo poderiainteragirNão criando taxas,não, não assimEstou feliz, eu tenho um empregoMas não tenho nemdécimo-terceiroEstou de boa, tô na pegadaMas não tenho nemcarteira assinadaPlano de saúde, segurode vidaSegurança pra minha famíliaÉ, isso seria bomMas não desistam,Quem sabe um dia vai melhorar,E nossas vidas, pode mudarFaz cinco anos que Junior13 é motoboy esporádico. Quando precisa de uma fonte de renda imediata, sobe e desce da Avenida Paulista com malotes do Banco do Brasil. Mas não gosta de trabalhar com moto. Gosta de andar de moto, é pioio do asfalto, a STX 200 Sundown voa liso na pista. Ainda está no zero a zero no quesito fratura. Na sua idéia, para virar motoboy, ou o figura é acomodado, ou não é normal. O sangue do cara é gasolina. Tem que ser uma pessoa que crie um personagem próprio, uma máscara, porque o perigo é muito grande. Os novos requisitos de segurança aumentaram o piro na cabeça do motoca: dispositivos retro-refletivos e fluorescentes no capacete, no colete e no baú, além de uma película refletiva na placa e um possível aumento do DPVAT, fora a proposta de proibir carona. Dar de frente com os cavalos de aço da Rocam (Rotas Ostensivas com Apoio de Motocicletas) cobrando medidas arrepia a alma. Junior13 quer corredor nas artérias da cidade. O da 23 de Maio foi cancelado por motivo de lentidão na avenida. Ficou injuriado. Moto não faz trânsito, moto costura trânsito. Quem faz trânsito são os carros.Ei, cachorro louco,loucos motoboysTodo dia eu corro um riscoTrilha fmeininaO batidão Amor de Motoboy tocou ontem e tocará hoje nas eliminatórias do concurso da Musa Motoboy e do Motoboy Top Model do festival. Para ser Musa, basta ter mais de 18 anos. A vencedora será premiada com uma motocicleta 0 km e participará do ensaio de uma revista masculina. Já o candidato do sexo masculino precisa trabalhar como motociclista profissional, apresentar cópia da carteira de habilitação e fotos coloridas de rosto e corpo. Vai fatalmente passar por Paquitão. Motoboy legítimo, digno de selo do Inmetro, é do tipo cicatrizado. O pó de arroz é fuligem.A vantagem de ir na motoAgora é reveladaMeu amor só usa Gasolina aditivadaAditivadaAditivadaAditiva, aditivaQue eu fico mais facinhaAmor de Motoboy foi feito pelas amigas Thais e Flavia, inspiradas por um amigo e pelo irmão cachorro louco de Flávia. A música ganhou um concurso de música funk do curso de teatro que freqüentam. As duas não dirigem carro, moto muito menos. Mas apreciam a categoria pela união. Junior13 diz que as motos zeradinhas e mais caras é que fazem sucesso com as meninas. Mas elas sobem na aparência. É por isso que muitas morrem. Quem sabe mesmo torcer o cabo na segurança, garante Junior13, é o motoca da periferia.

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