Charla Jones
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'Muitas artistas optaram por não ter filhos', diz Sheila Heti, autora de 'Maternidade'

Autora de romance que discute a escolha de ter filhos, é uma das convidadas da Flip em 2019

Alessandra Monnerat, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2019 | 16h00

A narradora de Maternidade não quer ter um filho, mas tem dificuldade de dizer isso em voz alta. Ela procura respostas em lugares místicos e primitivos: consulta moedas com I Ching, lê cartas de tarô, tem uma conversa confusa com uma vidente na rua e analisa a fundo seus sonhos. A personagem observa enquanto suas amigas se afastam para aumentar suas famílias e conversa demoradamente sobre o assunto com o namorado e com conhecidos. Quando acha ter chegado a uma conclusão, muda de ideia algumas linhas depois. Todo seu excruciante processo de decisão, as voltas, as muitas perguntas estão registradas nas pouco mais de 300 páginas escritas por Sheila Heti, publicadas pela Companhia das Letras. É o primeiro romance traduzido no Brasil da canadense, que será uma das atrações da Flip deste ano.

Não é difícil entender por que Sheila dedica tanta energia mental à sua escolha. Embora não ter filhos seja gradativamente mais aceitável para a sociedade, o debate em torno da maternidade ainda é assombrado por aspectos ideológicos, políticos, religiosos, emocionais. Por isso, acompanhar tão longamente o processo decisório interno de uma mulher soa como uma perspectiva pouco explorada. Talvez porque ter filhos seja simplesmente natural para muitas pessoas – parte da experiência humana, ou de um predeterminado ciclo da vida. Optar por não ser mãe é desafiador e, principalmente, um privilégio. Até hoje uma parcela considerável de mulheres em todo o mundo não tem conhecimento sobre ou acesso a anticoncepcionais. Interromper uma gravidez, mesmo em casos previstos pela lei, é muito difícil no Brasil.

Em Maternidade, a narradora (que, assim como a autora, se chama Sheila) não subestima seu privilégio de escolher. De fato, ela o leva tão a sério que a decisão se torna um grande fardo, e se arrasta por vários meses. Acompanhar suas idas e vindas é, ao mesmo tempo, tocante, cômico e exasperante. Ela sente sobre si o peso do tempo passando e os questionamentos que vêm de sua vocação de escritora. Sheila considera que criar arte é tão trabalhoso e emocionalmente desgastante quanto criar uma vida humana. Escrever, para ela, responde a anseios de forma parecida à de ter um filho. Com os livros que publicou, ela aplaca a vontade de ser imortal e de fazer jus a seus ancestrais – tanto os literários quanto os de carne e osso. Com suas palavras, ela se dedica a justificar a vida de sua mãe, sua avó e sua bisavó: mães que não deveriam ser.

Para a personagem-autora, rejeitar ou não a maternidade tem uma repercussão maior: é, em última instância, uma forma de afirmar o que ela quer fazer com sua própria vida, e quais valores lhes são mais importantes. Como uma conhecida lhe diz, a certo ponto: “Sendo mulher, você não pode simplesmente dizer que não quer ter filhos. Você precisa ter algum grande plano ou ideia do que você vai fazer ao invés disso. E é bom que seja algo incrível. E é bom que você consiga dizer de forma convincente qual vai ser o enredo da sua vida – antes mesmo que ele se desenrole.” 

Se a maternidade é tida como a principal atividade da vida feminina, como expressar a ausência disso? “Não mãe”, ela reconhece, é uma definição negativa de si mesma. Ao final, Sheila manifesta o desejo de ser um fim em si, e não uma ferramenta para a criação de outra vida. Esse tema também está no livro Contra os Filhos, da escritora chilena Lina Meruane, lançado pela Todavia no ano passado. Sua perspectiva, no entanto, é mais radical, e seu tom, embora bem-humorado, é panfletário. 

"Filhos", ela diz em seu manifesto, “fazem parte do excesso consumista e contaminador que está acabando com o planeta”. Lina parte do ponto que a maternidade, após décadas de reivindicações feministas, se tornou um “dogma contrarrevolucionário” nas exigências excessivas que se fazem das mulheres hoje. Ela argumenta que a liberdade de escolher ter filhos não é realmente uma liberdade: é simplesmente acatar a um papel historicamente imposto às fêmeas da espécie. A chilena compara o chamado à maternidade ao canto de um anjo maléfico, o “anjo da complacência”.

Embora Sheila pontue esses aspectos em suas divagações, seu ponto de vista é, antes de tudo, pessoal. No final, a conclusão de Maternidade é muito simples, mas poderosa: trata-se de uma decisão individual e, portanto, qualquer resposta vinda de um questionamento ponderado, seja ela sim ou não, é bem-vinda. “Viver de um jeito não é uma crítica a todos os outros jeitos de se viver. Será que é essa a ameaça que a mulher sem filhos representa?”, questiona. “A vida de uma pessoa não é um discurso político, ou geral, sobre como todas as outras vidas devem ser. Outras vidas deveriam correr paralelamente à nossa sem nenhuma ameaça ou juízo.” Sheila Heti respondeu, por e-mail, perguntas do Aliás sobre seu livro mais recente. Leia trechos selecionados da entrevista:

A resenha de seu livro na ‘New Yorker’ diz que você escreveu ‘Maternidade’ pensando em sua mãe como público. Você concorda? Escreveu com alguém específico em mente?

Ela foi uma pessoa em que eu pensava enquanto escrevia, mas havia também muitos amigos que eu imaginava lendo o livro, uma vasta quantidade de pessoas desconhecidas, e também – como todos os livros – para minhas avós e avôs literários. Você escreve um livro para pessoas reais no mundo que conhece, e pessoas que nunca conhecerá, e para si mesmo, e para os livros que amou que vieram antes de você e os escritores mortos que fizeram de você um escritor. É sempre tudo isso. E escreve para fazer algo real, uma nova forma no mundo, um recipiente para sentimentos e pensamentos, e apenas para fazer algo bonito com as mãos – e, dessa maneira, escreve também não para alguém, mas apenas por uma questão de fazer alguma coisa. Nunca é simples para quem você está escrevendo ou por quê. Há sempre um elemento de mistério sobre quem deve receber essa coisa, mesmo para a pessoa que a faz. Eu acho que alguém só faz um livro para se fazer existir para si mesmo. Como prova de estar vivo, que o “eu” parece precisar; não basta apenas viver e respirar. Tem que haver algo mais.

Você acha que seu livro pode servir como uma espécie de ‘autoajuda’ para mulheres que estão passando pelo mesmo processo de decisão?

No sentido de que o livro pode voltar a mulher para os próprios pensamentos, para pensamentos impensados, ou pode ajudá-la a ver sua situação no contexto de outra mulher pensando na mesma coisa. Os livros nos levam a partes de nós mesmos (idealmente) que seria muito difícil para nós chegarmos sozinhos – frequentemente precisamos de companhia em nossas lutas, nossos pensamentos. Estava pensando no livro como esse tipo de companheiro, não necessariamente um bom companheiro, mas alguém ao lado do leitor. Eu não acho que o livro diga à mulher o que ela deve fazer, mas as pessoas leram o meu livro e disseram que isso as ajudou a decidir se querem ter filhos ou não. Isso é bom, mas não é o único tipo de ajuda que acho que o livro pode dar a alguém. Eu sei que o livro ajudou as pessoas a falarem com outras pessoas sobre si mesmas, sobre suas escolhas. Este também não é o tipo de ajuda que eu estava pensando em fornecer com o livro, mas estou feliz que tenha feito isso também. 

Como a maternidade definitivamente não fará parte de sua vida, que tipo de histórias você pretende escrever a partir de agora? Infelizmente, existem poucas personagens na literatura com mais de 40 anos que não são mães.

Há muito o que pensar além de si mesma – e também acho errado dizer que “a maternidade definitivamente não fará parte da minha vida”. Não acho que seja uma pergunta fechada, nem mesmo para mim. Quem sabe o que a vida me trará, o que ela jogará no meu colo? Embora meus últimos livros tenham saído da minha vida e de minhas lutas, não vejo como isso será o caso daqui para frente da mesma forma. Eu sinto que algo foi resolvido para mim com meus dois últimos livros, em termos do que eu precisava pensar em relação à minha própria vida (por meio da arte) e que algo diferente viria em seguida.

Em seu livro, a narradora às vezes compara o ato de fazer filhos com o de fazer arte, como se ambos fossem excludentes. Você enxerga essa relação?

Eu acho que algumas mulheres podem fazer as duas coisas – criar filhos e fazer arte. Mas há muitas artistas mulheres que optaram por não ter filhos para se dedicar exclusivamente à arte. Esta é uma escolha legítima também. Parece que estamos de novo em uma época em que uma mulher que não assume todos os ideais possíveis é desprezada de alguma forma. Eu percebo que há apenas uma quantidade limitada de tempo em um dia, apenas uma certa quantidade de energia vital disponível para mim. Se eu quero dedicar tudo isso para a arte, para ficar quieta, para ficar sozinha, para não criar ou cuidar de outra pessoa, não é a mesma coisa que dizer que outras mulheres não podem ser mães e artistas; simplesmente não é o que eu escolhi para mim mesma. Nós todas não temos que viver a mesma vida. Nós não somos todas atraídas para fazer as mesmas coisas com nossos dias. Eu nunca diria a outra pessoa o que é ou não é possível para ela.

Em uma entrevista que você fez com a escritora Elena Ferrante, ela diz que não acha que o narcisismo é um pecado. Tanto aqueles que decidem ter filhos quanto aqueles que não escolhem tê-los são acusados de narcisismo. Você concorda com Ferrante nesse assunto?

Sim, as mulheres são criticadas a todo momento. Uma mulher deve olhar para os homens, olhar para as crianças, mas não olhar para si mesma; o direito de olhar para uma mulher é reservado aos homens. Acredita-se que uma mulher que olha para si mesma esteja olhando na direção errada. Mas por quê? 

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