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Muitas rebeliões de escravos se perderam na história; esta, extraordinariamente, foi documentada

Livro narra rebelião de escravos ocorrida em 1763 na colônia holandesa de Bervice, que depois se tornou a Guiana

H. W. Brands*, The Washington Post

22 de agosto de 2020 | 16h00

John Brown ficou perplexo e decepcionado quando, em 1859, Frederick Douglass recusou-se a acompanhá-lo no ataque ao Harpers Ferry que, ele esperava, desencadearia um levante armado de escravos. Douglas não estava tão determinado a lutar pela emancipação como ele?

Douglas na verdade estava, mas como ex-escravo sabia de coisas que Brown desconhecia. Tinha conhecimento de que os escravos na Virgínia não acompanhariam Brown na sua empreitada. Eles iriam pesar as perspectivas de liberdade frente aos perigos da campanha projetada e, para muitos, provavelmente a maioria, os riscos eram exorbitantes. Este fato é um dos fios condutores que Marjoleine Kars segue na sua formidável narrativa de uma rebelião de escravos ocorrida em 1763 na colônia holandesa de Bervice, que depois se tornou a Guiana. Rebeliões de escravos são pouco documentadas na literatura histórica, porque muitas fracassaram e deixaram pouco espaço para os historiadores trabalharem. Os repressores das rebeliões - escravizadores e seus aliados - se esforçaram para impedir que notícias de alguma revolta circulassem, temendo que uma viesse a provocar outras.

Não é nenhum spoiler afirmar que a rebelião de Berbice fracassou; do contrário a América do Sul poderia ser diferente hoje. Mas este é um caso raro em que a documentação é volumosa. Kars, que é professora na universidade de Maryland, condado de Baltimore, descobriu um depósito oculto de registros no Dutch National Archives, com transcrições de depoimentos após a revolta e de autoridades holandesas durante o conflito. Kars traz evidências não só para produzir um relato profusamente detalhado de uma história humana fascinante, mas também esclarecer uma dúvida geral quanto a se alguns escravos realmente entraram na batalha pela sua liberdade e outros não.

Berbice era um pequeno posto avançado, não muito lucrativo, do império holandês, e por volta de 1760 tinha uma população de algumas centenas de europeus e talvez cinco mil escravos, na maioria africanos e seus descendentes, mas incluía alguns membros indígenas. A perda das colheitas de alimentos que sustentavam os habitantes, combinada com uma epidemia, desencadearam uma primeira revolta em 1762 que consistiu principalmente na fuga de um grupo de escravos para o interior.

Mas esta rebelião não prosperou, e Kars explica a razão. “Exceto para os recém-chegados, fugir significava abandonar a família e amigos, com frequência para sempre. Muitos relutavam em deixar para trás os espíritos ancestrais, seu conhecimento íntimo da geografia local, suas hortas e sua granja e as concessões duramente conseguidas que tornavam suas vidas como escravos um pouco mais fácil”. Em outras palavras, mesmo que a escravidão fosse ruim, para muitos a alternativa parecia pior.

Uma segunda revolta, no ano seguinte, se saiu melhor. Os líderes do movimento haviam aprendido com seus predecessores. Sua rebelião foi melhor organizada, com escravos de várias plantações lutando quase simultaneamente contra seus escravizadores e capatazes. Muitos foram mortos e os sobreviventes fugiram para se salvar.

As autoridades holandesas precisaram de tempo para se reagrupar, dando aos rebeldes a oportunidade de consolidarem sua própria posição. Uma consolidação que não foi fácil e os métodos empregados eram brutais. Quando os rebeldes assumiam o controle de plantações abandonadas eles espancavam ou matavam escravos que tentavam defender a propriedade dos seus senhores. E outros foram escravizados por eles, obrigando-os a continuarem trabalhando nos campos do mesmo modo que antes.

O objetivo derradeiro dos rebeldes não era claro. Dois dos líderes, chamados Coffij e Accara, escreveram para o governador holandês sintetizando sua queixa de não receberem “o que lhes era devido”. Levando em conta as incertezas da tradução e considerando o fato de os rebeldes escravizarem os trabalhadores das plantações que tomaram, a declaração sugere que eles não faziam objeção à escravidão propriamente dita, mas às condições de vida como escravo.

Kars trata deste ponto delicadamente. “Tais expectativas sobre as condições de vida não significam que as pessoas aceitavam ser escravizadas. Nem que a população escrava não resistia à sua exploração no dia a dia. Pelo contrário, dominados pelo terror e temerosos da rebelião armada, muitos se acomodaram à sua situação de escravo, desde que algumas condições mínimas fossem observadas, para sobreviverem”.

O impasse continuou. Os holandeses não conseguiam desalojar os rebeldes, mas estes também não conseguiam expulsar os holandeses do continente. Eles pensaram em desaparecer no interior da região e se tornarem “escravos fugitivos” como aqueles que escaparam de plantações no vizinho Suriname. Mas os povos nativos não eram acolhedores, considerando os africanos intrusos, como os europeus.

E na verdade foram mercenários nativos que ajudaram a sufocar a rebelião. Os holandeses recrutaram os caribes e aruaques para caçarem os rebeldes, matá-los e entregarem suas mãos decepadas como prova para serem pagos. Os holandeses também recrutaram mercenários europeus para atacarem os rebeldes frontalmente. A dissensão debilitou a liderança rebelde ao passo que a fome e as doenças levaram a muitas perdas de vidas entre seus comandados.

A rebelião lentamente se dissipou. Os rebeldes que sobreviveram foram presos e interrogados, gerando os testemunhos que Kars utilizou. Os que foram julgados responsáveis pela revolta - mais de 100 - foram executados, alguns torturados. Os demais voltaram à vida de escravos.

E o episódio foi sucessivamente enterrado. Kars, que estuda o tema da escravidão, admite que jamais ouviu falar da rebelião de Barbice até descobrir os documentos nos arquivos holandeses. É provável que Frederick Douglass jamais tenha ouvido falar deles também. Mas Douglass não precisava saber desta triste lição ao rejeitar o convite de Brow para se unir à uma causa digna, mas fatalmente mal calculada.

*Brands é professor de História na Universidade do Texas, em Austin. Seu novo livro, "The Zealot and the Emancipator: John Brown, Abraham Lincoln, and the Struggle for American Freedom," será publicado em outubro. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

"Blood on the River: A Chronicle of Mutiny and Freedom on the Wild Coast"

Autor: Marjoleine Kars

Editora: New Press 

362 páginas

R$ 153

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