Muito além da extinção

Em tese, a nova técnica permitiria até trazer de volta espécies desaparecidas, incluindo-se aí o Homem de Neanderthal

Alysson Muotri*, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2007 | 21h02

Essa semana, pessoas do mundo todo puderam admirar um importante feito científico, alcançado de forma independente por dois grupos de pesquisa, um japonês e outro americano. Os dois grupos relataram pela primeira vez a reprogramação de uma célula especializada (uma célula da pele), em uma célula pluripotente, isto é, uma célula-tronco com qualidades embrionárias, capaz de se especializar novamente em diversos outros tipos celulares. Isso foi demonstrado com a introdução de apenas quatro genes na célula inicial.Que o desenvolvimento é reversível nós já sabíamos. Então, qual foi realmente a novidade? Em primeiro lugar, os dois grupos usaram células humanas. Havia uma expectativa de que nossas células iriam requerer mais do que os quatro genes que já haviam funcionado em camundongos. Não foi o caso.Em segundo lugar, o grupo americano mostrou que podemos substituir alguns desses quatro genes específicos por outros, indicando que devam existir diferentes mecanismos moleculares para a reprogramação. Como se houvesse dois caminhos diferentes que levassem ao mesmo lugar.Por último, destaco que a descoberta ocorreu nos dias atuais, em que o debate ético sobre o uso de células-tronco embrionárias humanas parece longe de um final. A polêmica vai acabar virando apenas uma nota de rodapé nos livros de ciências de um futuro não muito distante. Talvez até motivo de piada para futuras gerações. Mais importante que a discussão ética é antecipar as questões que virão em conseqüência dessa descoberta.Que podemos fazer com essas células e qual seu real potencial terapêutico? Essas são ainda as mesmas perguntas que fazemos sobre as células-tronco embrionárias obtidas de forma convencional. O potencial terapêutico é enorme, uma vez que essas células têm a capacidade de se transformar em qualquer tecido do corpo humano. Assim, pode-se imaginar que, no futuro, serão usadas para medicina regenerativa, onde poderemos repor tecidos defeituosos, como os de um coração ou mesmo de um cérebro.Mas isso no futuro. Por que não agora? Simplesmente porque não sabemos como montar um cérebro ou um coração funcional a partir de células-tronco. Uma coisa é diferenciar essas células em neurônios em um frasco dentro de uma estufa no laboratório; outra é montar um cérebro, neurônio por neurônio, sinapse por sinapse, respeitando toda uma estrutura tridimensional que interaja com os outros tecidos. Portanto, o futuro tem que começar agora. Se tiver que escolher entre as duas para um eventual uso terapêutico, fico com as células humanas embrionárias originais, que estão livres de efeitos colaterais causados pela adição dos genes reprogramadores. Aparentemente a "dose" desses quatro genes é importante para a reprogramação, e a dose errada pode levar ao surgimento de tumores. Além disso, os genes são transferidos para dentro das células usando-se vírus, que também aumentam o risco de tumores.Sabendo-se que a reprogramação celular é conservada evolutivamente, visualizo outras aplicações na biologia, como na conservação de espécies ameaçadas de extinção. Reprogramando células de um indivíduo adulto, podemos gerar células-tronco embrionárias que podem ser induzidas a se diferenciar em células germinativas (espermatozóides e óvulos). Assim, podemos fecundar essas células in vitro, gerando um zigoto, e implantá-lo num útero receptivo, aumentando as chances de reprodução. Talvez valesse apenas começar a estocar tecidos e células reprogramadas de todas as espécies, para o caso de uma eventual extinção. Ora, se isso pode acontecer com espécies em extinção, pode também ser aplicado em espécies já extintas, pelo menos em teoria. Bastaria conseguir material genético intacto e transferi-lo para dentro de uma célula qualquer, sem seu DNA genômico, junto com os quatro genes reprogramadores. Existem alguns entraves técnicos, por exemplo, como retirar o DNA genômico sem alterar a estrutura nuclear da célula. Ou mesmo a presença do DNA mitocondrial na célula receptora, que pode ser incompatível entre espécies. De qualquer forma, com os rápidos avanços nas técnicas de seqüenciamento e síntese de ácidos nucléicos, não vai levar muito tempo até termos genomas completos de dinossauros ou mesmo de Neanderthais. E não me espantaria encontrar pessoas dispostas a oferecer barriga de aluguel para projetos como esse. Por isso mesmo, fiquei espantado em ouvir declarações positivas a respeito da reprogramação celular vindas da Igreja Católica ou do governo Bush, ambos contra o uso de células-tronco embrionárias humanas.Pela primeira vez, criamos uma forma de gerar vida independentemente de fecundação ou de células germinativas geradas por dois indivíduos diferentes. Não quero causar pânico, mas acho que essa potencial forma de vida é de extrema importância e ainda não foi percebida de uma forma clara pela sociedade, inclusive pela própria comunidade científica. A meu ver, células reprogramadas podem trazer mais questões éticas e morais do que as próprias células-tronco embrionárias humanas derivadas da forma tradicional.Uma boa notícia é que a reprogramação celular desafia a patente das células-tronco embrionárias humanas mantida pela Warf (Wisconsin Alumni Research Foundation), pelo menos no que se refere à derivação de novas células. A patente mantém propriedade intelectual sobre as técnicas de derivar células-tronco a partir de blastocistos humanos (dois a três dias após a fecundação, quando temos cerca de 200 células). Células reprogramadas geneticamente não necessitam de blastocistos, driblando as condições da patente.Essa patente é extremamente restritiva e tem impedido que diversos grupos de pesquisa desenvolvam produtos comerciais derivados de células-tronco embrionárias. Hoje em dia, quem descobrir uma nova droga que cure a diabetes ou o Alzheimer usando células-tronco embrionárias teria que pagar royalty para Warf. A patente tem sido duramente criticada e por isso mesmo o preço das células inicialmente derivadas pelo grupo da universidade de Wisconsin caiu de US$ 5 mil para US$ 500 em dois anos. O uso de células reprogramadas deverá atrair investidores para pesquisas, investidores esses que estavam extremamente receosos de investir numa tecnologia patenteada, polêmica e cujos resultados são de longo prazo.Infelizmente, essa nova tecnologia não deve repercutir muito no Brasil. Apesar da simplicidade e fácil acessibilidade do método para a derivação de novas linhagens, a forma de cultivar as células reprogramadas é idêntica à das células-tronco embrionárias humanas tradicionais: cara e especializada. Ainda não temos grupos de pesquisa com experiência suficiente para manter essas linhagens, o que nos deixa em desvantagem quando comparados a outros países que optaram por um plano de ação organizado, como China, Inglaterra, Índia, Cingapura e Espanha. Esses países, com um planejamento arrojado de longo prazo, estão se tornando líderes na área, uma vez que os EUA sofrem com pressões internas do governo Bush contra o uso de células-tronco embrionárias humanas. Serão eles os detentores das patentes dos novos medicamentos e terapias derivadas das células-tronco embrionárias. A regra é simples: quem não investe em ciência básica hoje, paga pelo uso aplicado amanhã.De qualquer forma, acredito que o novo modelo de reprogramação celular traga uma avalanche de novos conhecimentos gerados em diferentes laboratórios espalhados pelo mundo, que hoje se sentem intimidados em trabalhar com células-tronco embrionárias humanas por motivos éticos ou financeiros. É um momento de ouro para a biologia. *Alysson Muotri é geneticista do Instituto Salk (Califórnia, EUA)

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