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'Mulher Maravilha', Nirvana e Lady Gaga: saiba o que já foi censurado no Líbano

Dados sobre a censura no país mostram em quais períodos o governo intensifica a repressão

The Economist

28 Abril 2018 | 16h00

Uma mulher se senta à mesa, com caneta e papel. Fora do campo de visão, a voz de um homem começa a ditar instruções, que ela anota um tanto quanto zangada. “Substitua ‘meus peitos’ por ‘meus seios’”, ele começa. “Remova ‘eles poderiam acariciar e brincar com eles.’” As proibições vão se tornando cada vez mais bizarras e hilárias. Ordens para atenuar ou remover a linguagem sexual são logo acompanhadas por embargos a religiões, partidos políticos e eventos históricos.

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Não Abra Suas Pernas (2011), curta-metragem de Rabih Mroue, fornece uma janela tragicômica para as lutas do Líbano com a censura. Cada uma das mudanças solicitadas pelo homem, que fica fora do campo de visão no filme, foi tirada de uma lista real de alterações e cortes exigidos pelos censores depois que Mroue submeteu o roteiro de uma peça para aprovação. De acordo com um decreto legislativo emitido em 1977, todos os roteiros de teatro devem ser submetidos à Agência de Censura para revisão, e devem receber autorização oficial antes de poderem ser encenados em público. Uma lei de 1947 exige que os programas de televisão e os filmes também passem pela inspeção dos censores. Desacato ao decreto pode resultar em multas, proibições e fechamento temporário ou permanente para as instituições envolvidas.

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Oficialmente, a agência é encarregada de proibir qualquer trabalho que desrespeite a religião, perturbe a ordem pública, incite o sectarismo, ofenda as sensibilidades do público ou insulte a dignidade do chefe de Estado. Cada um acrescenta suas próprias obsessões a essa lista. Cenas sexualmente explícitas, consideradas “imorais”, geralmente acabam no chão da sala de edição, assim como referências a partidos políticos locais, explorações da guerra civil libanesa, ou qualquer coisa relacionada a Israel (um boicote mais lógico, dado que os dois os países oficialmente estão em guerra desde 1948, com fases periódicas de combates desde então). Como na maioria das censuras, a aplicação das regras é incoerente e imprevisível.

A conscientização do público sobre a interferência cultural do estado melhorou em 2012, quando a ONG local March lançou o Museu Virtual de Censura. Ao vasculhar jornais antigos e recorrendo ao financiamento coletivo, criou um banco de dados online que relaciona proibições completas ou parciais sobre livros, filmes, músicas ou programas de TV. Remontando à década de 1940, e fornece informações sobre as alterações nas preocupações e prioridades do Estado libanês. Os dados indicam que picos de censura geralmente coincidem com levantes políticos, e que a censura tem aumentado constantemente (embora Gino Raidy, vice-presidente da March, admita que a abordagem adotada na coleta de dados significa que os mais antigos podem ter sido omitidos).

A partir de 1950, quando a censura começou a ser exercida regularmente, até 1968, a maioria das proibições se relaciona a material ligado a Israel ou ao judaísmo, refletindo as tensas relações libanesas-israelenses após a guerra árabe-israelense de 1948. Às vezes o boicote se estendia a artistas sem filiações israelenses ou sionistas. The Milkman (1950), uma chanchada, foi banida devido às origens judaicas de Jerry Lewis, um dos atores.

De 1968 a 1975, em meio a crescentes tensões no período que antecedeu a guerra civil, o governo interferiu em obras por motivos políticos e religiosos. Em 1968, a peça de Issam Mahfouz, O Ditador, sobre um tirano mentalmente perturbado que acredita ser o salvador da humanidade, sem surpresa teve dificuldades com os censores. Sadeq Jalal Al Azm foi preso em 1970, acusado de incitar o sectarismo com seu livro A Crítica do Pensamento Religioso.

Não é de surpreender que os censores tenham sido ainda mais repressivos durante os 15 anos de conflito. Raidy especula que a censura teria sido mais predominante durante este período se houvesse um governo estável para aplicá-la. Em meio ao caos da guerra, que viu líderes assassinados e governos rivais reivindicando legitimidade, havia maior probabilidade de os artistas serem sequestrados do que submetidos a uma proibição do Estado, situação que provavelmente exacerbaria a autocensura. Atores como Antoine Kerbage foram sequestrados nesse período, segundo os dados da March.

Enquanto o Acordo de Taif e o fim oficial da guerra civil, em 1990, trouxeram uma paz instável, os censores travaram uma nova batalha na cultura. Raidy atribui o enorme aumento à ênfase do Estado em promover a união sectária ao impedir a discussão da guerra. O filme de Randa Shahal Al Sabbagh, Um Povo Civilizado (1999), por exemplo, foi censurado por retratar uma relação amorosa entre um miliciano muçulmano e uma empregada cristã durante o conflito. “Talvez fosse possível falar sobre essas coisas durante a guerra, mas quando a guerra acabou, não se podia falar sobre a questão palestina, não se podia falar sobre as relações entre sunitas e xiitas”, disse Raidy.

Durante o final da década de 1990, os censores tentaram erradicar rock e os metaleiros. Dezenas de bandas, incluindo Black Sabbath e Nirvana, foram vetadas depois que a igreja católica considerou sua música satânica. A maneira aleatória como essas proibições foram implementadas dificulta a identificação de datas exatas, mas durante vários anos os fãs de metal corriam o risco de serem presos simplesmente por usarem a camiseta de uma dessas bandas.

Outro pico significativo em 2000 marca o ano em que as forças israelenses saíram do sul do Líbano após 18 anos de ocupação. No entanto, neste período, os censores proibiram material considerado religioso e politicamente sensível, e obras consideradas “imorais” mais ainda do que as obras ligadas a Israel, o que sugere que, em épocas de maior tensão política, os censores reprimem de maneira ampla e generalizada.

O assassinato de Rafik Hariri, ex-primeiro-ministro, e a retirada das tropas sírias ocupantes em 2005 marcaram o início de mais uma acentuada escalada na censura. O período até 2012 foi marcado por uma série de carros-bomba e assassinatos – e um aumento na frequência de censura por motivos políticos ou religiosos. Cada vez mais, as proibições foram emitidas por razões que parecem arbitrárias, se não absurdas. O álbum de Lady Gaga, Born This Way, foi proibido em 2011, sob a alegação de ser “ofensivo ao cristianismo”, devido a uma faixa intitulada Judas. Naquele ano, o filme infantil Puss in Boots (Gato de Botas) foi banido até o nome ser mudado para Cat in Boots.

Lamentavelmente, as circunstâncias não estão melhorando. A turbulenta história do Líbano permanece particularmente um tabu, assim como as relações com os israelenses (Mulher Maravilha foi proibido em maio de 2017, por causa de Gal Gadot, sua estrela israelense). Embora os censores estejam cada vez mais permissivos em filmes com conteúdo sexual, o crescente apoio aos direitos de gays e transgêneros tem abalado as autoridades religiosas e levado a um aumento nas punições a produções culturais, proibidas de retratar relacionamentos alternativos de forma positiva.

Desde o início da guerra na Síria e a eleição de um presidente em 2016 após um vácuo de dois anos, Raidy diz que a censura se tornou mais dominante. Não só é mais frequente, como os dados da March revelam que as causas da censura são mais diversificadas que nunca. No período que antecede as eleições, marcadas para maio após um atraso de cinco anos, é provável que essa repressão se intensifique. / Tradução de Claudia Bozzo 

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