David Drew Zingg/IMS
David Drew Zingg/IMS

Mulheres injustiçadas pela história estão reunidas em livro

Pesquisa de Paulo Rezzutti abarca anônimas ou conhecidas, de beata do século 18 a Leila Diniz e Marielle Franco

Edison Veiga*, O Estado de S.Paulo

19 Maio 2018 | 16h00

Helena Maria do Espírito Santo (1736-1775) poderia ter sido canonizada como a primeira santa brasileira. Pelo menos é o que leva a crer relato do próprio frei Antônio de Sant’Ana Galvão (1739-1822), este sim reconhecido pela Igreja Católica como o primeiro santo nascido no Brasil. Após a morte de Helena, cofundadora, ao lado dele, do Mosteiro da Luz, no bairro paulistano homônimo, Galvão reconheceu nela “sinais que (...) de alguns santos os fazem admiráveis” e escreveu que “dizem que tem feito muitos prodígios, eu sou testemunha de vários”.

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Ao contrário de Frei Galvão, Madre Helena ficou em segundo plano na história de São Paulo, na história da Igreja Católica, na história do País. Por machismo. Porque a sociedade é tradicionalmente patriarcal. Porque a história tal como a conhecemos foi escrita por homens e sob a ótica masculina. No livro Mulheres do Brasil – A História Não Contada, o pesquisador e escritor Paulo Rezzutti mostra que as mulheres “escondidas” pela historiografia oficial foram protagonistas de muitos momentos formadores do País. A obra traz mais de 200 delas – de anônimas, cuja trajetória soará uma completa novidade para o leitor, a famosas que acabaram tendo suas biografias deturpadas, e Rezzutti procura redignificá-las. Bendito ele entre as mulheres. 

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De Maria Bonita a Leila Diniz, de Zuzu Angel a Marielle Franco, de Anita Malfatti a Zilda Arns – à primeira vista, soa estranho reunir tantas personalidades díspares em um mesmo catatau. Rezzutti não usa a tática óbvia, que seria elencar cada uma em uma capítulo, como se verbetes enciclopédicos fossem; Mulheres do Brasil não é um dicionário de vidas femininas. O autor busca relações temáticas entre essas histórias e, tal e qual um hábil contador de causos, as emaranha em um fio condutor narrativo. Assim, as Mulheres do Brasil estão em seis capítulos: Mães do Brasil; Boas, Más e Perigosas; Heroínas e Vilãs; O Poder das Mulheres e as Mulheres de Poder; Artistas e Mecenas; e Transgressoras.

Experiência para reconstruir vidas outrora chamuscadas ou eclipsadas por figuras masculinas, isto o autor carrega de livros passados. Como biógrafo de três das mais interessantes figuras do período monárquico brasileiro – a Marquesa de Santos, o imperador d. Pedro I e a imperatriz Leopoldina –, Rezzutti revelou que, dentro desse famoso triângulo amoroso, a Marquesa era muito mais do que a amante do imperador, uma mulher forte, poderosa e à frente do seu tempo; e Leopoldina não era a conformada e apagada figura pintada nos livros de História, mas sim a grande articuladora da Independência do Brasil. 

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Estas duas mulheres, obviamente, aparecem no novo livro. E não são as únicas poderosas. Rezzutti lembra que, se Leopoldina assumiu o governo do Brasil por algumas semanas esporádicas, devido a viagens de d. Pedro, sua neta Isabel acabou sendo educada justamente para assumir o trono numa eventual sucessão de Pedro II. “A princesa d. Isabel assumiu sua primeira regência, de um total de três, em maio de 1871. Era a primeira vez que uma brasileira nata governava o Brasil”, pontua. Depois dela, o País só seria novamente comandado por uma mulher nos dois governos – ou melhor, no um e meio governo – de Dilma Rousseff, de 2011 a 2016. E isto também é lembrado por Rezzutti. 

O autor frisa, entretanto, que a participação da mulher na política brasileira ainda é ínfima. No Senado, dentre os 81 eleitos, apenas 11 são mulheres. “Segundo a senadora Regina Sousa, o plenário do Senado Federal até 2016 ‘não tinha um banheiro para as mulheres. Só banheiro dos homens. A gente ia lá na cantina para usar o banheiro. Agora, que foi pressionado, construíram um banheiro para as mulheres também’”, diz trecho do livro. Dentre os 513 deputados federais eleitos, apenas 51 são mulheres. “O espaço político é patriarcal e masculino”, resume Rezzutti.

Ele lembra que quando Michel Temer assumiu a presidência houve um reforço nessa masculinidade do poder. Não apenas pelo fato de a primeira-dama, Marcela, ter sido apresentada aos quatro cantos como “bela, recatada e do lar” – mas principalmente pelo presidente não ter nomeado, em um primeiro momento, nenhuma representante do gênero como ministra de Estado. “Depois de Ernesto Geisel, Temer foi o primeiro presidente a montar um gabinete sem mulheres”, ressalta.

Mulheres do Brasil também traz mulheres que não nasceram mulheres – mas passaram a se identificar como tal. Caso de Astolfo Barroso Pinto (1943-2017), mais conhecida como Rogéria, que se autointitulava “a travesti da família brasileira”. No mesmo capítulo, Rezzutti lembra da cartunista Laerte, que desde 2010 assumiu-se publicamente como transgênero. 

No mundo artístico, são fartos os exemplos abordados do livro. O autor destaca o protagonismo de Tarsila do Amaral (1886-1973) na concepção do movimento antropofágico, reduzindo o papel de Oswald de Andrade. Para tanto, recorre a um relato de Raul Bopp: “a chefa do movimento foi Tarsila. Oswald ia na vanguarda, irreverente, naquele solecismo social de São Paulo.” Rezzutti ainda destaca os aspectos da vida social de Tarsila, uma mulher que não hesitou em pedir o divórcio do primeiro marido que a traía, casou-se outras duas vezes – e seu último relacionamento foi com um homem 20 anos mais jovem.

*Edison Veiga é jornalista e escritor

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