Sony Pictures
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'Mulherzinhas' expõe contradições da vida feminina no século 19

Comparação entre os enredos do livro de Louise May Alcott e do filme de Greta Gerwig explicita questões delicadas da época

Bruna Meneguetti*, Especial para o Estado

07 de março de 2020 | 16h00

Mulherzinhas, de Louisa May Alcott, é um livro de mais de 150 anos que continua reverberando. Apenas em 2019 foram publicadas cinco novas edições brasileiras da obra e uma adaptação para o cinema — a sexta, no total —, dirigida por Greta Gerwig. A obra, publicada em 1868, narra a vida de quatro irmãs que vão amadurecendo durante a Guerra Civil Americana. A princípio, Meg, Jo, Beth e Amy convivem em uma casa simples com a mãe. O pai está no exército e as meninas têm de lidar com a pobreza, embora não sejam miseráveis. Um de seus lazeres é se divertirem com o vizinho Laurie, neto do rico senhor Laurence; o outro é realizar experiências artísticas: Jo com a escrita, Beth com a música e Amy com as artes visuais.

A princípio, o enredo infantojuvenil parece despertar apenas interesse no dia a dia das mulheres do século 19. De fato, essa é uma das possibilidades que a obra fornece ao fazer com que o leitor fique comparando os costumes da época com os de hoje, como quando descobrimos que era comum as moças passarem “uma leve camada de pomada coral em seus lábios, para deixá-los mais vermelhos” ou quando lemos que “sempre se conhece uma dama de verdade pelas botas, pelas luvas e pelo lenço bonito”. 

No entanto, o enredo simples também é a base do que torna o livro de Alcott diferenciado, pois dá o protagonismo e a voz a cinco mulheres pobres. O tema doméstico era frequente na literatura da época, mas não sob esse ponto de vista, o que talvez fez com que a obra encontrasse leitores curiosos até hoje e também revelasse muito sobre a autora. 

Acontece que Louisa May Alcott não desejava escrever Mulherzinhas e usava pseudônimos para dar asas a suas histórias de aventuras, suspense e horror, que em nada se assemelham ao seu maior sucesso editorial. Apesar de ser criada de acordo com os padrões da época, Alcott teve uma educação incomum: os pais eram transcendentalistas e  abolicionistas, de modo que chegaram a fazer da casa da família um ponto de parada da via de escape clandestina para escravos.

Assim, Alcott apenas foi convencida a escrever uma “história para meninas” por causa de Thomas Niles — sócio de uma empresa chamada Roberts Brothers, que mais tarde viria a publicar o romance —, que concordou em publicar um manuscrito de reflexões filosóficas de seu pai caso a escritora aceitasse a empreitada. Na época, segundo a crítica e pesquisadora Elaine Showalter explica na introdução da edição brasileira da Penguin, o gênero havia sido pensado “para recomendar docilidade, casamento e obediência”. 

Como a autora teve pouca convivência com garotas e, no geral, não gostava muito delas, tentou pensar em um enredo que pudesse ser minimamente interessante ao se basear nas próprias experiências com suas três irmãs em seu lar humilde. Nesse sentido, o filme de Gerwig acerta ao associar a vida da autora com a ficção, pois descobrimos que a personagem Jo escreve a história que vemos nas telas. Já no livro, Alcott é a própria Jo e vivencia muitas das experiências, rebeldias e aspirações reais da autora. 

“Minha cabeça está deliciosamente leve e fresca, e o barbeiro disse que eu logo teria cachinhos, o que vai me fazer parecer um menino, me cairá bem e será fácil de cuidar”, Jo explica para a mãe após vender o próprio cabelo para arrecadar dinheiro para o pai doente.  A personagem gostava de esportes, odiava normas sociais e tarefas domésticas, e desejava ser escritora, o que não era bem visto para uma moça da época. Alcott tinha preferências semelhantes e chegou a falar em uma entrevista à escritora Louise Chandler Moulton: “Estou quase certa de que tenho uma alma de homem colocada por alguma aberração da natureza num corpo de mulher [...] pois, na vida, já me apaixonei por muitas meninas bonitas, mas nunca, nem um pouco, por um homem”.

Dessa forma, Jo é a personagem que mais chama a atenção dos leitores até hoje, porém o livro não gira ao seu redor. As outras irmãs aparecem na trama com a mesma carga e recebem capítulos inteiros focados em suas vidas, principalmente na segunda parte da obra, quando Meg é retratada já casada e com gêmeos, Amy vai para o exterior e Beth fica doente. 

Na verdade, Alcott não pensava em fazer um segundo volume, e Mulherzinhas foi originalmente publicado apenas com a primeira parte e com os desenhos de sua irmã Abigail May Alcott Nieriker, no livro retratada como a artística Amy. O sucesso foi tão grande que um ano depois a sequência estava circulando — de modo que, hoje em dia, nas edições brasileiras, os leitores têm acesso às duas partes em um só tomo. No entanto, os desenhos de Abigail foram substituídos em edições posteriores após Alcott ter sido convencida a trocá-los pelos de  Hammatt Billings, um artista americano famoso na época. 

É curioso notar que, na obra, o único homem com grande enfoque é Laurie. Ele se apaixona por Jo e chega a pedi-la em casamento, porém a personagem o recusa, decepcionando até mesmo leitores atuais. Ao escrever para seu tio, a escritora afirmava que os editores eram “perversos”: “não permitem que os autores façam o que querem, de modo que minhas mulherzinhas precisam crescer e se casar de maneira muito enfadonha”. 

Alcott, que nunca se casou, deu vários sinais ao longo do livro de que Jo acabaria solteira, como quando a mãe das meninas fala: “Melhor uma solteirona feliz do que uma esposa infeliz”, ou quando afirma: “nós dois acreditamos e esperamos que nossas filhas, casadas ou solteiras, sejam o orgulho e o alento de nossas vidas”. No entanto essas, e muitas falas, se contradizem ao longo do livro, pois a única mulher mais velha e solteira da obra é retratada de forma cruel, além de que, no fim das contas, Jo realmente se casa com um personagem inesperado. 

Essas contradições podem ter inspirado Gerwig em relação a suas escolhas no filme, pois nas telas Jo não se casa e descobre, tarde demais, que realmente amava Laurie. Já no livro de Alcott, ela não tem dúvidas de que fez bem em recusar o rapaz, pois o enxerga como um irmão. Também no livro, apesar de Jo ter seguido seu destino como senhora Bhaer, ela afirma antes de aceitar a mão de seu amado: “Eu levarei minha parte, Friedrich, e ajudarei a sustentar a casa. Conforme-se com isso, ou nunca irei”. Também em outro momento, Jo deixa claro que seus deveres e trabalho estão acima da pressa em se casar: “Não conseguiria me divertir se os negligenciasse, mesmo que fosse por você”. Porém, apesar de todas essas falas, ela acaba não retomando o ofício de escritora. 

Assim como a personagem, que insistia em ajudar a sustentar o lar, Alcott fez o mesmo. Os ideais do pai fizeram com que a família vivesse com poucos recursos até que Mulherzinhas trouxe mais dinheiro à família e, além disso, permitiu que a autora continuasse escrevendo. Na vida real, Alcott ficou com os direitos autorais do livro após uma dica de Thomas Niles. No filme de Gerwig, Jo se submete às pressões de seu editor e casa sua personagem em troca do direito autoral do próprio livro, mostrando ao espectador a explicação que todos queríamos crer real, pois Alcott uma vez escreveu para um amigo que Jo “deveria ter continuado a ser uma literata solteirona”.

Além do casamento da Jo, Alcott fez diversas concessões na obra, mesmo anos depois de ter sido publicada. Entre elas, tornou a mãe Marmee “alta” e não mais “corpulenta”; tirou os trejeitos estrangeiros afeminados de Laurie e igualmente permitiu mudanças em palavras do texto, de modo que “o vigoroso uso de gírias, coloquialismos e regionalismos foi substituído por uma prosa mais delicada, refinada e ‘feminina’”, segundo afirma Elaine Showalter na introdução. 

Não à toa, ao longo do livro percebemos incongruências nas mensagens que são passadas, afinal a autora fez diversas alterações que eram pedidas pelos editores e, ao que parece, criou diversos embates internos entre o que todos consideravam uma conduta ideal e o que ela desejava enquanto artista. Provavelmente, as duas coisas fizeram o livro fluir entre ideias conservadoras e pensamentos extremamente atuais, de modo que o machismo está presente em muitas frases, ao mesmo tempo em que nos deparamos com reflexões contemporâneas, como no trecho em que Marmee aconselha a filha sobre a paternidade: “não negligencie o marido por causa das crianças — não o tranque do lado de fora do quarto delas, ensine-o a ajudar quando estiver lá dentro. Esse é o lugar de John, assim como o seu, e as crianças precisam dele; deixe que ele sinta que tem um papel a cumprir e ele o cumprirá, feliz e fiel, o que será melhor para vocês todos.” 

MULHERZINHAS

AUTORA: LOUISA MAY ALCOTT

TRADUÇÃO: JULIA ROMEU

EDITORA: PENGUIN 

592 PÁGS., R$ 59,90

*Bruna Meneguetti é escritora e jornalista, autora de 'O Último Tiro da Guanabara' (ed. Reformatório, 2019) e coautora de 'Corações de Asfalto' (ed. Patuá, 2018)

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