Yohan Lopez/MAMM/The New York Times
Yohan Lopez/MAMM/The New York Times

Museu de Arte Moderna de Medellín completa 40 anos como polo de resistência

Museu foi criado por 20 artistas e se manteve como bastião da cultura em meio à violência na Colômbia

Elizabeth Zach, The New York Times

17 Março 2018 | 16h00

MEDELLÍN - Entre as quase 250 pinturas doadas pela artista Débora Arango (1907 – 2005) ao Museu de Arte Moderna de Medellín, na Colômbia, talvez nenhuma transmita tão bem a angústia da incessante violência que atinge esta cidade como o quadro intitulado La Masacre Del 9 de Abril (O Massacre do 9 de Abril).

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Nesta sua obra-prima, pintada em 1948, Débora Arango, que é nativa de Medellín, mostra grotescas figuras, algumas clericais e outras de aspecto demoníaco, caindo em espiral da torre de uma igreja no meio de uma cidade em fúria. As imagens eram uma resposta ao assassinato do líder populista e prefeito de Bogotá, Eliécer Gaitán, que mergulhou o país no caos e em um período de violência sangrenta.

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Basicamente, o assassinato e o trabalho de Débora Arango eram o presságio de mais de cinco décadas de violência em que a Colômbia padeceu com o mais longo conflito na história das Américas. Em setembro de 2016 o governo colombiano assinou um acordo de paz com o principal grupo rebelde do país, as Farc – Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, colocando fim a mais de meio século de guerra.

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Este ano o museu comemora 40 anos de fundação. Um aniversário digno de nota. Mas ainda mais notável é o fato de ele ter sido criado por 20 artistas – entre eles Débora Arango – em meio às guerras e à violência crescente entre os cartéis da droga do país. A cidade abrigou três bienais importantes, em 1968, 1970 e 1972, dando incentivo aos artistas para começarem a planejar a criação de um museu de arte contemporânea.

O fato de o museu estar em Medellín também é um marco extraordinário: nas décadas de 1980 e 1990 a cidade foi uma das mais violentas do mundo. Era a partir de Medellín que Pablo Escobar comandava seu império de cocaína e onde foi morto pela polícia colombiana em 1993. De acordo com a organização Human Rights Watch, mais de sete milhões de colombianos saíram da cidade, desapareceram ou foram assassinados durante os 52 anos de lutas. O Museu de Arte Moderna foi fundado em 1978 e abriu suas portas ao público em 1980.

“As pessoas não saíam na época. A vida era dentro de casa. Mas os artistas, este museu, e muitas outras instituições culturais e sociais persistiram. Havia um desejo de socialização muito forte, uma barreira de resistência e apesar da guerra e da crise econômica, esta cidade se manteve firme”, disse a diretora do museu María Mercedes González.

Diante da crescente popularidade – hospedou o Primeiro Colóquio Latino-americano de Arte Urbana e Não Objetiva em 1981 – na década de 2000, o museu se expandiu. Em 2006 as autoridades municipais aprovaram sua transferência para o prédio Talleres Robledo, localizado na área de Ciudad Del Rio. 

Em 2010, a instituição recebeu projetos de arquitetos para aumentar o espaço de exposições. Cinco anos depois foram inauguradas no espaço novas galerias, um teatro, uma livraria, uma loja de presentes e um café.

Hoje o museu é um núcleo urbano amplo e imponente que, segundo sua diretora, atrai visitantes locais e turistas que vêm do exterior. Suas escadas levam para uma praça com face para edifícios de apartamentos nas colinas a leste da cidade e hoje local de encontro dos moradores.

“Há poucos anos, uma reunião nesta praça era algo impensável”, disse o fotógrafo Juan Felipe Barreiro.

As exposições evitam qualquer temática constante, como os anos de guerra. Uma mostra recente, Desejo: Uma exposição sobre Sexo, Amor e Desejo, incluiu vários retratos surpreendentes de mulheres sensuais, mas pensativas, concebidos por Débora Arango, ao lado de interpretações da artista inglesa Celia Hempton acerca do prazer sexual na era digital.

“Nosso desejo foi fazer alguma coisa vivaz, festiva”, disse o curador Emiliano Valdés. Ele acrescentou que a inspiração para a mostra surgiu em parte dos protestos contra os legisladores colombianos, muito conservadores do ponto de vista social, como também foi uma reflexão sobre o movimento global pelos direitos dos transgêneros.

Outra mostra, do curta Black Box, de Elkin Calderón Guevara e Diego Piñeros García, mostra o antigo avião DC-3 que continua em atividade nas regiões remotas do Amazonas e do Orinoco. Salvo o ruído do motor quando o avião sobrevoa a selva infinita, um silêncio fantasmagórico dominava a sala. 

Um panfleto explicativo observou que os aviões estavam outrora a serviço do Exército colombiano “e foram então usados para transporte ilícito”. São máquinas que contam o inenarrável, aquele momento entre a vida e a morte quando o tempo é infinito e tudo é silêncio”.

Em 2017, o número de visitantes ao museu chegou a 110.000, o que equivale a um aumento de 6% em relação à quantidade no ano anterior. Em 21 de março será aberta a exposição Arte em Antioquia e os Anos 70, sobre a primeira exposição do museu em 1978.

“Um dos objetivos do museu é apresentar um programa de exposições temporárias dedicado à arte contemporânea e sua junção com os movimentos modernos, e dedicado a temas que sejam pertinentes ao contexto local do ponto de vista social, político e estético”, acredita a diretora do museu María Mercedes González.

“Tudo isto vai além do investimento no espaço físico”, ela continuou, referindo-se à expansão gradativa do museu. “Este é principalmente um compromisso com a arte, os artistas, e com o público, para que possa desfrutar das exposições e de obras novas e também de um melhor acesso às exposições permanentes”. / Tradução de Terezinha Martino 

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