Nathan Bajar/The New York Times
Nathan Bajar/The New York Times

Museu de Louis Armstrong digitaliza seu acervo sobre o músico

Trompetista virtuoso foi o primeiro ídolo pop da música

Giovanni Russonello, The New York Times

24 Novembro 2018 | 16h00

Por trás de seus vertiginosos solos de trompete, improvisação vocal revolucionária e uma exuberante personalidade de palco, como Louis Armstrong via a si mesmo? Como foi ser o primeiro virtuoso pop da era das gravações – o homem cujos primeiros lançamentos definiram a melodia no caso de amor dos EUA com a música negra moderna, e que veio a se tornar um dos intérpretes mais famosos da história?

Essas questões não são retóricas. Na verdade, há muitos recursos disponíveis para ajudar a respondê-las. Durante toda a sua vida adulta, longe dos holofotes, Armstrong acumulou uma valiosa coleção de escritos pessoais, gravações e artefatos. Mas até este mês, você teria que viajar ao centro do Queens para encontrá-los. Agora qualquer um pode ter acesso a eles. Graças a uma doação de US$ 3 milhões do Fund II Foundation – dirigido por Robert F. Smith, o mais rico afro-americano – o Louis Armstrong Museum House digitalizou todo o acervo que ele deixou e o colocou à disposição ao público na web.

Armstrong escreveu centenas de páginas com memórias, comentários e piadas ao longo de sua vida e enviou milhares de cartas. Ele fez colagens durante décadas e álbuns de recortes às dezenas. Nas duas últimas gravou a si mesmo em fitas de bobina, capturando tudo, desde conversas informais até a música moderna que estava ouvindo.

Tudo dito, Armstrong não tem apenas uma das vidas privadas mais bem documentadas de qualquer artista americano. Tem também uma das vidas mais criativamente documentadas.

“A posteridade levou-o a escrever manuscritos, fazer fitas e catalogar tudo”, diz Ricky Riccardi, diretor de coleções de pesquisas do Louis Armstrong House Museum e conhecido estudioso do músico. “Ele estava totalmente ciente de sua importância e queria ter o controle da própria história.”

E não se tratava só de posteridade. As mesmas coisas que o embalaram como um intérprete – fé na comunicação irrestrita, uma abordagem irreverente às restrições da linguagem, o desejo de envolver toda a cultura americana em seu abraço – estão presentes em seus escritos, colagens e gravações caseiras.

Armstrong foi o grande responsável por moldar o jazz na música popular e voltada para a juventude da década de 1930. Ele emergiu como um símbolo de orgulho racial, cruzando o requinte do show biz com a linguagem popular de rua. Mas enquanto sua carreira continuava, sua sorridente persona de palco – uma expansão nos shows de menestréis e cabarés da Nova Orleans de sua juventude – ficou fora de sintonia com os gostos da maioria dos ouvintes afro-americanos. (“Eu adorava o jeito de Louis tocar trompete, cara, mas eu odiava o jeito que ele tinha que sorrir para animar alguns brancos cansados”, escreveu Miles Davis em sua autobiografia.)

Com a identidade do jazz se solidificando como uma música de arte na década de 1950, Armstrong tornou-se excepcionalmente fora de moda para o establishment crítico. Os hits outonais que ele marcou em meados da década de 1960, Hello, Dolly! e What a Wonderful World, pareciam apenas confirmar o consenso da mídia de que o tempo havia passado para ele.

Mas esses arquivos contêm as ferramentas para uma melhor compreensão de Armstrong: um artista idiossincrático como qualquer outro, cujos instintos criativos, ao longo do tempo, só se tornaram mais profundos e vastos.

Em parte, vemos um homem antenado com as questões de raça e política, que levou seu papel a sério como embaixador global da cultura americana e manteve um olhar atento às conquistas dos companheiros afro-americanos. Quando ele falou contra a segregação em Little Rock, Arkansas, em 1957, surpreendeu a nação. Alguns ativistas disseram que era muito pouco, tarde demais. Segundo o arquivo, no entanto, o evento, para ele, foi tanto um momento de orgulho em sua carreira quanto um pedaço de sua vida até aquele ponto. Na coleção há um telegrama escrito ao presidente Dwight Eisenhower, no dia em que Eisenhower anunciou que estaria enviando tropas do Exército em Little Rock, incitando-o “a levar essas pequenas crianças negras pessoalmente à Central High School juntamente com suas tropas maravilhosas.”

Álbuns de recortes. Criado em Nova Orleans, Armstrong alcançou a fama aos 20 anos, depois de ingressar na Creole Jazz Band de King Oliver em Chicago. Suas primeiras gravações como líder do grupo, com seus Hot Five e Hot Seven, estabeleceram o jazz como música de solista e fizeram dele um dos primeiros músicos pop da era do rádio. Nos anos 1940 e 1950, era sempre incluído nas listas dos americanos mais admirados.

A partir dos seus 20 anos, Armstrong começou a recortar artigos de jornal sobre si mesmo e os reunia em álbuns de recortes. Os livros começaram como uma ferramenta para convencer os proprietários de clubes de sua legitimidade, mas eles se transformaram em registros históricos. As dezenas de pastas de recados contidos no arquivo são uma janela para sua autoimagem de celebridade: Armstrong olhando para nós olhando para ele.

Armstrong começou sua carreira como um ídolo para muitos afro-americanos. É só assistir ao videoclipe bastante divulgado de sua apresentação em Copenhague em 1933 – generoso e agressivo enquanto ele improvisa Dinah, depois vai esculpindo seu caminho através de Tiger Rag com um animado solo de trompete – e você entenderá o porquê. Mas com o passar do tempo, muitas pessoas mais jovens, particularmente músicos da geração bebop, expressaram incertezas sobre sua reverente presença de palco.

Os álbuns de recortes de Armstrong deixam claro que ele manteve um olhar atento sobre como era percebido, como um artista e como um estadista negro. Quando viajou para Baltimore no inverno de 1931, ele doou 300 sacos de carvão para os moradores de um bairro negro carente e, em particular, guardou o álbum de recortes de notícias do Baltimore Afro-American. Quando sua banda foi presa no Arkansas simplesmente por viajar no mesmo ônibus que seu agente branco, guardou o artigo que contava isso. Ao se unir à famosa banda de King Oliver, levou uma máquina de escrever. Em 1936, aos 30 e poucos anos, já havia publicado uma autobiografia. Ao longo de sua carreira, escreveu mais de mil cartas para os fãs, centenas de páginas de memórias pessoais e um bocado de piadas que dariam para preencher um livro.

Em 1969 e 1970, com problemas de saúde, Armstrong começou a escrever um longo ensaio sobre sua relação com os Karnofskys, uma família judia de Nova Orleans. Quando estava com sete anos, ele trabalhou como empregado na casa dos mesmos e eles reconheceram seu talento musical cedo, adiantando uma pequena quantia de dinheiro para comprar sua primeira corneta.

Neste ensaio, que se estende por 77 páginas, Armstrong consagra uma série de outros elementos de sua mitologia pessoal. Ele registra seu nascimento como tendo sido em 4 de julho de 1900, uma data inventada, mas simbólica, que ele gostava de usar. E ele descreve a importância do bairro de Storyville onde foi criado e onde grande parte do jazz inicial foi desenvolvido.

Apenas alguns meses depois de escrever esse artigo, ele morreu dormindo aos 69 anos. Esta história seria coletada em um livro póstumo, Louis Armstrong, in his Own Words (Louis Armstrong, em Suas Próprias Palavras, em tradução livre), que apresentava ensaios sobre toda a sua carreira, muitos dos quais estão incluídos no arquivo da Armstrong em sua forma original e manuscrita. / Tradução de Claudia Bozzo 

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