Flávio Ricardo Vassoler
Flávio Ricardo Vassoler

Museu expõe objetos e relatos de crianças sobreviventes da guerra em Sarajevo

Hoje adultos, bósnios contam suas histórias no conflito no Museu da Infância na Guerra

Flávio Ricardo Vassoler*, Especial para o Estado

24 Fevereiro 2018 | 16h00

Sarajevo, 28 de junho de 1914. A cinco metros (se tanto) do rio Miljacka, junto à esquina das ruas Obala Kulina Bana e Zelenih Beretki, o estudante sérvio de origem bósnia Gavrilo Princip, de 17 anos, mata a tiros o arquiduque Franz Ferdinand, herdeiro do trono do Império Austro-húngaro, e a duquesa Sophie, sua esposa. Composto por sérvios, croatas e bósnios, o grupo Jovem Bósnia espera que o atentado político cometido por Princip incite as províncias eslavas ao rompimento com o poder imperial, a fim de que elas sejam unificadas sob o manto da Grande Sérvia, também batizada como Iugoslávia – o Reino dos Eslavos do Sul. Quando os tiros de Princip se transformam no estopim para a 1.ª Guerra Mundial, Sarajevo dá à luz o século 20. 

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Durante os 27 anos (1953-1980) em que o partisan comunista Josip Broz Tito (1892-1980), líder da resistência iugoslava aos nazistas em meio à 2.ª Guerra Mundial, governa a República Socialista Federativa da Iugoslávia com força e carisma (o amálgama contumaz dos ditadores) a reboque da ideologia da Bratstvo i Jedinstvo (Irmandade e Unidade), as seis repúblicas que compõem a Iugoslávia – Sérvia, Bósnia e Herzegovina, Montenegro, Croácia, Eslovênia e Macedônia – parecem apaziguadas; o caldeirão de nacionalidades e religiões historicamente contrapostas parece reconciliado. Com a morte de Tito – e com o colapso dos países que compunham o bloco socialista –, as supostas irmandade e unidade iugoslavas se dissolvem em meio ao retorno voraz do nacionalismo e do fervor religioso. 

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Em meados de 1991, a Eslovênia toma a dianteira e proclama sua independência em relação à Iugoslávia – se nos lembrarmos do espectro da Grande Sérvia como a identidade nacional de supremacia, força e coesão nos primórdios da 1.ª Guerra Mundial, veremos que, por meio da Guerra dos Dez Dias (de 26 de junho a 5 de julho de 1991), a Eslovênia logra arrancar sua independência em relação ao jugo sérvio, uma vez que Slobodan Milošević (1941-2006) alçara voo da presidência da Sérvia à presidência da Iugoslávia. 

Quando a Croácia tenta proclamar sua independência em relação à Iugoslávia, um longo e encarniçado conflito se estende de 1991 a 1995. Os croatas, majoritariamente católicos, chamam tal conflito de Guerra de Defesa Nacional.Com o apoio do Exército Popular Iugoslavo, amplamente municiado pelas forças sérvias, os sérvios de origem croata proclamam a independência de suas regiões étnico-nacionais em relação à Croácia. 

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O quiproquó das guerras de independência no bojo da fragmentação da antiga Iugoslávia parece levado às últimas consequências quando retornamos a Sarajevo, capital da Bósnia e Herzegovina. Composta por bósnios majoritariamente muçulmanos – lembremo-nos da longeva dominação turco-otomana a que os Bálcãs foram submetidos –, sérvios majoritariamente cristãos ortodoxos e croatas majoritariamente católicos, a Bósnia se vê convulsionada por ímpetos nacionais e religiosos radicalmente centrífugas. 

Em dezembro de 1991, os sérvios de origem bósnia proclamam a independência da República Sérvia em relação à Bósnia, amealhando, com o apoio das forças sérvias municiadas por Slobodan Milošević, territórios a norte e a leste do país. Horrendos crimes de guerra tendo por mote a limpeza étnica – fuzilamentos sumários de civis e estupros sistematicamente perpetrados contra mulheres muçulmanas – levaram líderes políticos e militares sérvios, entre os quais o famigerado Milošević, ao Tribunal Internacional de Haia, na Holanda. [As retaliações bósnias, que receberam o aporte de soldados islâmicos de países árabes seguindo os preceitos da jihad (guerra santa), endossam a história humana como o Evangelho segundo Talião: urge dar olho por olho, dente por dente.] 

Próxima à região centro-leste da Bósnia, a capital Sarajevo acordou sitiada pelas tropas sérvias na madrugada de 4 para 5 de abril de 1992. A República Sérvia reivindicava Sarajevo como sua própria capital. A partir de então, conforme nos revela o Museu dos Crimes contra a Humanidade e Genocídio 1992-1995, em Sarajevo, a capital Bósnia, situada em um vale repleto de mesquitas, igrejas ortodoxas e igrejas católicas, entreveria suas colinas irregulares e verdejantes (uma versão balcânica dos mares de morros da Serra da Mantiqueira) tomadas por morteiros e snipers sérvios. De um total de 520 mil habitantes antes da guerra civil, a população de Sarajevo se viu reduzida a 349 mil pessoas após o término do sítio, no dia 29 de fevereiro de 1996. Diariamente, snipers sérvios matavam de cinco a dez seres humanos. 

É assim que o escritor bósnio Ozren Kebo (1959 - ), autor de Sarajevo, um Guia para Iniciantes (1996), sentencia que “nenhuma geração na Bósnia morreu de causas naturais; todas e cada uma delas enfrentaram uma guerra”. A Primeira e a Segunda Guerras Mundiais; a guerra civil. É por isso que, para um país que não cicatriza, Kebo só consegue entrever a paz como “um estado temporário entre duas guerras”. 

Sarajevo dá à luz e aborta o século 20. 

É assim que o Museu da Infância em Guerra desponta como um oásis de lirismo em meio aos escombros da memória em Sarajevo. Conforme nos revela Amina Krvavac, diretora executiva do museu e militante pelos direitos humanos das crianças, “nós quisemos dar voz às experiências das crianças durante a guerra para além do caráter monocórdio da tragédia. É claro que as crianças se tornavam órfãs e perdiam seus lares – eis os estilhaços recorrentes de todas as guerras. Mas nós quisemos fazer com que as crianças, mesmo sendo vítimas, também pudessem mostrar como buscavam construir sua subjetividade durante a guerra. Assim, pedimos aos adultos de hoje que nos trouxessem relatos de suas infâncias radicalmente ressignificadas pela guerra civil que acossou a Bósnia na primeira metade dos anos 1990”.

Conheçam, então, a partir do relato de Naida, “o esconderijo mais seguro em meio à Sarajevo sitiada: presente do meu avô Ismet, que morreu pouco antes de a guerra começar, essa cadeirinha de balanço [com tábuas vermelhas e amarelas bem delgadas] ficava no porão/bunker mofado onde eu tive que passar os primeiros anos da minha vida, ao invés de estar cercada pela beleza da natureza. Havia sempre muitas crianças naquele pequeno porão. Como minha mãe não podia ficar todo o tempo comigo, ela amarrou um pequeno sino à cadeirinha de balanço para ter certeza de que eu estava lá”. 

Ao lado de uma foto em que segura um cachorrinho serelepe, Belma nos revela os resultados de seus exames médicos após ter sido ferida por uma granada. “Diagnóstico: Belma sobreviveu por um fio de cabelo. Prognóstico: um recomeço novo em folha aos cinco anos de idade!” 

Jasna, por sua vez, nos conta que morreu de medo “ao ver aquele homem mais magro que um esqueleto na maca no corredor do hospital. Ele não é meu pai, o papai tem bigode! Meu pai tinha uns 85 kg, e aquele soldado raquítico não pesava mais de 40 kg. Eu me escondi atrás da minha mãe e não quis abraçá-lo de jeito nenhum. (Depois minha mãe contou que meu pai mordeu o lábio com o pouquinho de força que lhe restava para não chorar.) Foi aí que o homem-esqueleto assoviou para mim e me contou um segredo: ‘Eu sou teu pai, sim, Jasna. Mas a fada verde que me surrupiou o bigode só vai trazê-lo de volta se você me der um abraço bem apertado’”. 

Confira a esquina histórica em que a 1.ª Guerra Mundial começou:

Veja o Museu do Túnel da Esperança em Sarajevo:

Assista à entrevista na íntegra com Amina Krvavac:

*Flávio Ricardo Vassoler é doutor em letras pela USP, com pós-doutorado em literatura russa na Northwestern University (EUA) 

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