R. Mickens/AMNH
R. Mickens/AMNH

Museu questiona o quanto as cores são naturais ou construções culturais

Museu de História Natural dos Estados Unidos propõe reflexão que mescla arte, cultura e ciência

Jason Farago, The New York Times

09 de janeiro de 2021 | 16h00

NOVA YORK - Os dias se tornaram cinzentos; o futuro parece negro. Todos nós estamos ficando vermelhos de raiva e percebendo a tristeza tirar a cor de tudo. Talvez sejam as cores isoladas que estejam nos deixando para baixo. Talvez o que necessitemos seja de todo espectro.

Todas as cores do planeta estão reunidas em The Nature of Color (A natureza da cor, em tradução livre), uma produção multicolorida do Museu Americano de História Natural que investiga a química, a física e a cultura do espectro visível. A exposição foi inaugurada em março e fechou rapidamente depois disso, junto com todas as outras exposições de museu da cidade. Novas restrições sanitárias exigiram a reabertura da instalação para remover várias exposições interativas, acabar com telas sensíveis ao toque e eliminar jogos e quebra-cabeças.

A exposição oferece aos visitantes mais velhos, mas sobretudo aos jovens, uma perspectiva ampla da cor como fenômeno científico e cultural - mesmo que, aos meus olhos, agora pareça um pouco fraca para uma exposição que requer um ingresso adicional. Mas eu não sou o público-alvo: as crianças com máscara em The Nature of Color estavam se divertindo, arrumando-se diante das luzes projetadas e olhando com os olhos arregalados para seus reflexos prismáticos.

Seus olhos não percebem a cor, não exatamente. Eles percebem a luz - especificamente, luz com comprimentos de onda de 380 (violeta) a 740 (vermelho) nanômetros. A luz estimula as células cônicas em suas retinas, e então o cérebro assume o controle. Como Isaac Newton mostrou pela primeira vez em seu livro Ótica de 1704, a cor não é uma propriedade inerente dos objetos (exceto os luminescentes). A cor é, em vez disso, o efeito da reflexão de um objeto de certos comprimentos de onda da luz visível e absorção do resto.

As lições newtonianas das crianças começam na primeira galeria descolada de The Nature of Color, que é equipada com dois conjuntos de lâmpadas oscilantes, uma branca e outra amarela. Quando as amarelas ficam acesas, tudo na sala fica cinza, a menos que você esteja usando uma capa de chuva amarela ou carregando um pato de borracha. Quando as luzes brancas estão acesas, tudo parece normal, provando que o branco é a soma de todas as cores. Mais adiante na exposição, as crianças podem dançar na frente de feixes de luz colorida e podem descobrir os segredos da mistura de cores, se não estiverem muito apaixonadas por suas próprias sombras multicoloridas.

Nós, humanos, temos uma visão tricromática do mundo, com cones alinhados em vermelho, verde e azul. Outras espécies têm outras percepções - tanto as abelhas quanto as renas podem ver os comprimentos de onda ultravioleta - e, evolutivamente falando, a cor nos permitiu encontrar o amor ou encontrar comida, ou então evitar nos tornar o almoço de outra pessoa. O lóris molucano, que vive nas Filipinas e na Nova Guiné, tem uma plumagem desordenadamente multicolorida em seu peito (a melhor para atrair um parceiro), mas as penas da cauda são completamente verdes (para se misturarem melhor às árvores).

Outras espécies que usam a cor para encontrar parceiros incluem o lagarto-de-garganta-fina de Attenborough, com uma barbela azul furta-cor e laranja, e os peixes Betta, com a cauda eriçada de barbatanas laranja-sangue. Quanto à pigmentação de nossa própria espécie, uma mostra da fotógrafa brasileira Angélica Dass retrata humanos de todas as “raças” - a palavra, apropriadamente para um museu de ciências, aparece entre aspas no texto da parede - classificados de acordo com a verdadeira linguagem universal da cor: a paleta Pantone. (Tirei uma selfie, joguei no Photoshop e peguei um pixel da minha pele. Sob iluminação uniforme, minha pele “branca” parece ser Pantone 481c.)

A cor favorita da humanidade, confirmam as pesquisas ano após ano, é o azul. Foi também, durante séculos da história da arte ocidental, a cor mais cara, produzida a partir do raro lápis-lazúli. (No passado, você pintaria a Virgem Maria usando um caro azul como símbolo de sua devoção, embora se o fizesse hoje você poderia ser acusado de cúmplice de uma organização terrorista: o lápis-lazúli vem principalmente de minas no Afeganistão, muitas controlada pelo Talibã). Sua raridade perdurou até o início do século 18, quando um moedor alemão de tinta acidentalmente contaminou um lote de vermelho com um pouco de óleo e acabou com um rico aqua que ele chamou de azul da Prússia. Foi o primeiro pigmento sintético barato e gerou uma “febre azul” até o Japão, onde Hokusai e outros artistas usavam a rara cor importada.

A cor é uma coisa universal ou particular? É uma questão de natureza ou cultura? Na Europa, apenas a mais alta nobreza podia usar roupas roxas; na China, eles usavam amarelo. Você veste branco para um funeral budista e um casamento cristão. As crianças podem explorar os significados culturais da cor em um jogo interativo aqui, com o adorável título “All About Hue” (Tudo sobre matizes), apresentado por uma bolha antropomórfica de tinta, que podem jogar com um smartphone.

E, ainda assim, além desses significados culturais e do escopo desta exibição, existe um debate mais amplo, um ainda acirrado entre linguistas e cientistas cognitivos. Todo olho humano, a menos que você seja daltônico, capta o mesmo 0,0035% do espectro eletromagnético. Mas isso significa que todo ser humano entende essas cores mais ou menos da mesma maneira?

Afinal, Homero, tanto na Ilíada quanto na Odisseia, chama repetidamente o Mar Egeu de "escuro como o vinho" - embora não pareça muito dessa cor para os banhistas em Rodes ou Bodrum. Na língua do povo Karajá do Brasil, a palavra “arè” pode significar o que os falantes de inglês identificam como azul, amarelo ou verde (e mulheres e homens usam palavras para cores diferentes). O povo Warlpiri do norte da Austrália, é alegado, não tem palavras para as cores, mas descreve fenômenos cromáticos dentro de um espaço multidimensional de textura, iridescência ou tamanho.

Meu trabalho é escrever sobre imagens, em inglês. Os cones dos meus olhos não são especialmente sensíveis, como o nariz de um perfumista pode ser, mas ao longo dos anos tive que construir um extenso vocabulário de cores: amaranto, gamboge, vermelho falu, azul Tiffany. Eu uso essas palavras porque estou tentando capturar algumas qualidades objetivas de matiz, leveza, saturação - mas as cores que vejo podem ser uma impressão subjetiva, da qual você pode divergir razoavelmente. E o cachorro, que pode distinguir o azul do amarelo, mas não o vermelho do verde, ou o tubarão sem nenhuma percepção de cor? Será que o crítico de arte do tubarão pode ver coisas que nunca perceberei, livre das algemas de meu arco-íris? / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

 

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