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Museu retira obras com animais de exposição em Nova York

Grupos de proteção aos animais fizeram pressão para que o Guggenheim Museum não exibisse as obras, feitas entre 1993 e 2003

Robin Pogrebin e Sopan Deb, The New York Times

30 Setembro 2017 | 16h00

Artistas e museus estão frequentemente às turras sobre liberdade de expressão. Rudolph W. Giuliani e o Museu do Brooklyn se estranharam sobre uma obra em que a Virgem Maria dividia a tela com dejetos de elefante. Mais recentemente, a briga foi sobre uma obra que envolvia fotos do corpo mutilado do adolescente negro Emmett Till, linchado por brancos. Geralmente o mundo da arte ganha a parada, saindo arranhado, mas inteiro. Em duas controvérsias recentes, porém, manifestantes contrários a certas obras parecem ter vencido. 

Na segunda-feira, o Museu Guggenheim retirou três trabalhos de uma exposição amplamente anunciada após pressões de defensores de direitos dos animais e outros grupos contra a mostra Art and China After 1989: Theater of the World. E o Walker Art Center, pressionado por manifestantes, desmontou a escultura de Sam Durant Scaffold (Cadafalso). Os recuos deixaram líderes do mundo artístico preocupados com que museus estejam abrindo perigosos precedentes quando se sentem ameaçados por grupos de pressão organizados.

“Uma instituição que não pode exercer o direito à liberdade de expressão é algo trágico para uma sociedade moderna”, disse o artista Ai Weiwei, referindo-se à decisão do Guggenheim. “Pressionar museus a retirar obras de arte revela um conhecimento tacanho não apenas de direitos dos animais, mas de direitos humanos.”

As três obras da mostra do Guggenheim, que começa em 6 de outubro, foram criadas entre 1993 e 2003 e pretendem retratar simbolicamente a opressão na China. Numa delas, o vídeo Dogs That Cannot Touch Each Other, pit bulls caminhando em esteiras de ginástica querem brigar entre si, mesmo separados. Outro vídeo, A Case Study of Transference, mostra dois porcos acasalando-se em frente a uma plateia. E uma instalação, Theather of the World, uma das principais peças da mostra, exibe centenas de galinhas, lagartos, besouros, cobras, répteis e insetos sob uma lâmpada suspensa.

Manifestantes marcharam em frente ao museu durante o fim de semana, enquanto um abaixo-assinado online exigia do Guggenheim “exposições sem crueldade com animais”. O museu divulgou nota dizendo que as obras estavam sendo retiradas “por causa da preocupação com a segurança dos visitantes e dos artistas participantes”, acrescentando: “A liberdade de expressão é e continuará sendo um valor primordial para o Guggenheim”. 

Sarah Eaton, porta-voz do museu, não quis entrar em detalhes sobre as pressões, sobre as medidas de segurança adotadas ou se a polícia havia sido informada. Mas frisou que o tom do abaixo-assinado, os posts na mídia social e os e-mails recebidos eram bastante diferentes do que há se havia visto antes, o que levou o museu a “levá-los muito a sério”. 

O Guggenheim já foi alvo de protestos em anos recentes por sua decisão de abrir um museu em Abu Dhabi, apesar da preocupação com as práticas trabalhistas locais. Não desistiu do projeto. 

Para muitos artistas e profissionais de museus, as últimas decisões do Guggenheim e do Walker Art Center mostram uma capitulação artística frente a sensibilidades políticas que vêm sendo amplificadas pela mídia social. 

“Museus têm de exibir também obras consideradas difíceis, desconfortáveis, e provocativas”, disse Tom Eccles, diretor do Centro de Estudos Curatoriais da Faculdade Bard. “O efeito assustador dessa nova prática poderá ser o de os museus passarem a promover mostras programadas para não ofender ninguém.” A PEN America também considerou a posição do Guggenheim “um duro golpe contra a liberdade artística”.

Outros acharam que o Guggenheim deveria proveitar a controvérsia para engajar o público na arte considerada difícil. “É surpreendente que ninguém tenha se preocupado com o lado dos artistas”, disse Mohini Dutta, desenhista gráfico de transmídia leciona da Universidade Syracuse. “É triste, mas não surpreendente, que uma instituição populista como o Guggenheim tenha se rendido às pressões em vez de usar a situação como oportunidade de ampliar o diálogo sobre o apoio à arte não ‘desconfortável’.” 

No caso do Walker Art Center, líderes dos índios dakotas entenderam que a estrutura de dois andares montada no Minneapolis Sculpture Garden para evocar a forca através da história dos Estados Unidos trazia de volta memórias dolorosas e banalizava as execuções ocorridas na guerra dos EUA contra os dakotas de 1862. 

Antes, os museus costumavam resistir mais a pressões do gênero. Em março, um pequeno grupo de manifestantes impediu o acesso à pintura de Dana Schutz na Whitney Biennial baseada em fotos do caixão aberto do corpo mutilado de Emmett Till, o jovem negro linchado por dois brancos no Mississippi em 1955. Eles protestaram contra uma artista branca aproveitar-se de imagens da violência contra um negro e exigiram que o quadro não apenas fosse retirado da mostra, mas destruído. A Whitney manteve a pintura exposta. Quanto ao Guggenheim, há quem aplauda a decisão.

“Era a coisa certa a ser feita”, disse Sphen F. Eisenman, professor de história da arte na Northern University, que escreve extensivamente sobre os aspectos éticos de se usar animais em arte. “As obras são cruéis e servem de apoio ao abuso contra animais; sua retirada foi justa.”

Eisenman disse que o Guggenheim deveria ter ido mais longe e se desculpado por “concordar com tal abuso”. Em vez disso, segundo ele, funcionários do museu “disfarçaram o erro”, alegando que a decisão de retirada foi tomada por medida de segurança. 

Ingrid Newkirk, presidente do People for the Ethical Treatment of Animals, que havia pedido a remoção das obras ao diretor do Guggenheim, Richard Armstrong, cumprimentou o museu por “retirar aqueles atos vis de crueldade mascarados de criatividade”. “A China não tem leis de proteção aos animais; por isso, retirar as peças pode ajudar o país e seus artistas a se conscientizarem de que animais merecem respeito”, disse ela. 

Já Sarah Cohen, historiadora de arte da Universidade de Albany, que pesquisa a representação artística de animais, questiona simplesmente o fato de o Guggenheim ter incluído as obras na exposição. 

“Os próprios curadores não parecem ter considerado em profundidade o problema de humanos forçarem animais a certos comportamentos”, disse ela. “Nem parecem ter parado para pensar que usar porcos como protagonistas para ilustrar problemas culturais os espectadores é uma estratégia tão desgastada quanto o uso de ursos dançarinos em circos.”

Em minha opinião”, sintetizou Sarah, “a exploração de animais para que artistas possam mostrar que pensam é... bem, é arte ruim.” / Tradução de Roberto Muniz 

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