Jared Soares/The New York Times
Jared Soares/The New York Times

Museu sobre jornalismo em Washington afunda em crise financeira

Newseum expõe capas de jornal, depoimentos de repórteres e artefatos relacionados à cobertura jornalística

Sopan Deb, The New York Times

28 Outubro 2017 | 16h00

WASHINGTON – As páginas de capa dos jornais falando dos atentados de 11 de setembro se destacam no Newseum. Dezesseis anos depois, as manchetes envolvendo o acontecimento ainda provocam clamor.

“O DIA MAIS SOMBRIO DA AMERICA” – enuncia o Detroit Free Press em letras maiúsculas.

‘ATOS PERVERSOS”, exclama o The Miami Herald.

Na sala de projeção ao lado jornalistas falam em um vídeo sobre suas experiências naquele dia. Uma caixa de lenços está ao lado deles.

Se jornalismo é a história escrita no momento, existem poucos locais mais incontornáveis para visitar do que o Newseum, uma catedral dedicada a essa profissão, na Pennsylvania Avenue.

“Esta é provavelmente uma das cenas mais memoráveis que muitas pessoas experimentam quando chegam aqui: o topo da torre atingida em 11 de setembro”, afirma o diretor de operações do museu, Scott Williams, apontando para os escombros recuperados dos ataques ali expostos.

Mas do mesmo modo que a profissão celebrada pelo museu enfrenta tempos difíceis – problemas financeiros na era da Internet e atacada como provedora de “notícias falsas” – o próprio museu também está na mesma situação.

Ele tem contabilizado déficits a cada ano desde a inauguração da sua nova sede em 2008. Embora atraia um número respeitável de visitantes (820.000 são esperados este ano) que desembolsam um valor alto para entrar (adultos pagam US$ 24,95 numa cidade repleta de museus com ingresso gratuito, a instituição não tem recursos suficientes para pagar suas contas.

Ainda deve US$ 300 milhões pelo novo prédio e os juros sobre os empréstimos feitos dispararam no ano passado. A arrecadação de fundos há muito tempo tem sido apática para um museu com um orçamento operacional de US$ 61 milhões e que depende todo ano de injeções de dinheiro do Freedom Forum, fundação que criou o museu e já investiu ali mais US$ 50 milhões nos últimos 20 anos.

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“Eles têm um doador importante e esta é uma proposta arriscada”, afirmou Susie Wilkening, consultora independente. “O que pode suceder quando esse doador importante decidir que “isto talvez não seja o que desejo fazer com meu patrimônio”.

De fato, o Freedom Forum, defensor da Primeira Emenda e cujas próprias doações recebidas diminuíram desde a recessão, tem declarado que não poderá sustentar o Newseum no mesmo patamar. Em 2015, o Forum colaborou com US$21,4 milhões, cobrindo mais de um terço do orçamento do museu. E os ingressos somaram US$ 7,5milhões. Mas a instituição ainda contabiliza um déficit de US$ 2 milhões.

“Não conseguimos fechar a conta”, disse a diretora executiva do Forum, Jan Neuharth.

Tudo isso coloca em risco o futuro do museu.

Jeffrey Herbst, que foi presidente e diretor executivo do Newseum por dois anos, deixou o cargo no final de agosto.

“Temos idéias diferentes de como resolver os problemas financeiros do museu e acabamos nos separando amigavelmente”, disse ele em entrevista por telefone.

O museu iniciou uma análise em profundidade dos problemas para tentar endireitar as coisas. Tudo está em aberto, incluindo a venda do prédio que abriga a instituição.

O que seria um destino ignóbil para uma estrutura com essa ambição. A ideia do museu foi concebida pelo Freedom Forum e levada adiante em 1991 por Al Neuharth, pai de Jan e fundador do USA Today. Em 1997 foi inaugurado, num espaço menor, em Rosslyn, Virgínia. Mas Al Neuharth tinha um plano mais ambicioso de construir um palácio para o jornalismo num terreno no centro de Washington. O esplendoroso edifício com frente para o National Mall  tem 59.730 metros quadrados e sete andares com galerias e dois andares de espaços para conferências. Todas as 45 palavras da Primeira Emenda estão gravadas em uma placa de mármore de quase sete metros de altura na fachada do prédio.

“É um local excelente”, afirmou Jan Neuharth, mas reconhecendo que “é muito caro administrar o museu aqui”.

Em 2015, último ano com dados disponíveis, o Newseum arrecadou US$ 6,3 milhões em doações, cerca de 10% do seu orçamento, valor muito pequeno para um museu do seu porte.

O Freedom Forum viu-se pressionado a cobrir o déficit. Em 2007 sua própria dotação era de pouco menos de US$ 550 milhões. Dois anos depois, no primeiro ano completo de operação do museu no novo edifício, aquele valor diminuiu para menos de US$ 400 milhões. Nesse mesmo ano forneceu US$ 52,4 milhões para completar o orçamento de US$ 92 milhões da entidade.

Para Wayne Reynolds, filantropo de Washington e antigo membro da diretoria do museu, a análise que vem sendo feita não encontrará uma cura milagrosa.

“Eles sabem há anos que a instituição não se sustenta. Uma revisão estratégica nesta altura me parece algo absurdo”.

Reynolds diz que foi administrador do museu durante um ano, antes de se demitir em 2015. Uma das razões que citou para sua saída foi “a não disposição de mudarem a direção”.

Uma das suas objeções é o valor dos ingressos cobrado, que segundo ele é um obstáculo para incentivar o público.

“Eles cobram uma entrada de US$ 24 e em todos os outros locais com os quais o museu compete o ingresso é gratuito”, disse ele.

Embora o Newseum esteja listado como atração popular no Trip Advisor, a frequência ainda é pequena, comparada com outros museus importantes na área, muitos deles financiados pelo governo federal. O National Air and Space Museum, por exemplo, uma divisão do Smithsonian, que não cobra ingresso, teve 5,8 milhões de visitantes este ano, de acordo com dados divulgados até setembro.

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Até agora a popularidade do museu parece estar em alta. Mas os ingressos, mesmo no museu mais popular, normalmente compensam apenas uma fração do orçamento operacional de uma instituição. De modo que as soluções têm de ser muito mais amplas, concordam os responsáveis.

“Nosso trabalho de defesa da primeira emenda é mais importante do que nunca para fomentar uma imprensa livre e a liberdade de expressão”, disse Jan Neuharth. “Precisamos controlar as finanças para seguirmos em frente de maneira que as futuras gerações prossigam com esse trabalho”. /Tradução de Terezinha Martino

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