Museu Internacional de Ciências Cirúrgicas
Museu Internacional de Ciências Cirúrgicas

Museus americanos colocam a história da medicina no microscópio

A covid-19 nos fez perceber que os trabalhadores da saúde são nossos protetores e que a assistência médica é uma dádiva incrível

Liz Langley, The Washington Post

13 de agosto de 2021 | 10h00

Um médico é a primeira pessoa que muitos de nós vemos quando nascemos e a última que desejamos ver em qualquer ocasião depois disso. Eles podem representar uma má notícia, orientações e contas tão altas que você vai precisar de outros médicos para ajudá-lo a se recuperar do choque. A realidade da covid-19 nos fez perceber que os trabalhadores da saúde são nossos protetores e que a assistência médica é uma dádiva incrível.

Para os curiosos por medicina, eis oito museus onde você irá se maravilhar com os milagres do corpo humano, como ele funciona e o que ocorre quando isso não acontece, e ficará muito agradecido por não viver num tempo em que alguém curava sua dor de cabeça fazendo lentamente um buraco no seu cérebro.

Museu Internacional de Ciência Cirúrgica, Chicago

Fazer cirurgicamente um buraco no seu cérebro é chamado de trepanação e é considerada a primeira forma de cirurgia do mundo. Neste museu de Chicago, você verá o cérebro de um paciente peruano que sobreviveu a esse procedimento em torno do ano 2000 antes de Cristo e uma pintura de quase quatro mil anos depois retratando como ela foi realizada. É bonito, mesmo quando você sabe o que foi que ocorreu.

Aberto numa antiga mansão em Lake Shore Drive em 1954, o museu encomendou uma grande quantidade de arte médica e é uma mina de ouro de obras de arte, artefatos e manuscritos.

“Ainda temos grandes apoiadores dentro da comunidade artística de Chicago”, disse Shannon Fox, encarregado do setor de educação e curadoria. O programa de artistas residentes do museu inclui a escultora forense Kathleen Gallo, que tem dado rostos para os antigos pacientes que sofreram uma trepanação.

Num dia frio de outono em 2015, passei horas no museu examinando seus inumeráveis tesouros, incluindo um fluoroscópio, que usava raio-x para ver se os seus sapatos serviam e instrumentos OB/GYN da era romana que mais parecem como se tivessem sido usados para tirar os passageiros de um ônibus de turismo acidentado do que uma delicada ferramenta médica.

Muito pertinente, especialmente numa retrospectiva, é o pulmão de ferro, onde ouvi um pai falando a seu filho sobre a poliomielite e como as pessoas não a contraem mais porque temos uma vacina. 

National Museum of Civil War Medicine, Frederick, Maryland

Para Jake Wynn, diretor de interpretação desses museus irmãos, os paralelos entre a pandemia do coronavírus e a carnificina da Guerra Civil são evidentes. Durante as duas crises, o pessoal médico confrontou – e, no caso da pandemia, continua enfrentando – perguntas urgentes como: “como lidar com milhares de pacientes que necessitam de tratamento médico muito avançado?”.

O National Museum of Civil War Medicine, que administra os museus de Keedysville e de Washington, abriga uma coleção de artefatos, cartas e documentos que mostram o papel de longo alcance da guerra na história da medicina.

Pry House Field Hospital Museum, Keedysville, Maryland.

O museu da família Pry, que passou a se chamar Pry House Field Hospital, está localizado na região oeste de Frederick, perto do local da Batalha de Antietam, em que 23 mil pessoas foram mortas, feridas ou desapareceram no dia mais mortal da Guerra Civil.

O hospital se tornou o “marco zero da revolução médica”, disse Wynn. A pressão para salvar vidas de soldados levou ao primeiro uso da triagem e a criação dos serviços médicos de emergência.

Clara Barton Missing Soldiers Office Museum, Washington, D.C.

O Clara Barton Missing Soldiers Office Museum está localizado em Washington, uma pensão onde Barton viveu após a Guerra Civil. O Anjo do Campo de Batalha, como era chamada, dirigiu o departamento de busca por soldados desaparecidos a partir dos quartos que alugava, encontrando “pelo menos alguma informação sobre 22 mil soldados que sumiram para suas famílias”, disse Wynn.

O chefe estrela de Washington, José Andrés, tinha um restaurante na rua de frente para a histórica pensão quando descobriu a história dela, o que o inspirou a criar a ONG World Central Kitchen, que atende vítimas de desastres, tendo já servido milhões de refeições em áreas devastadas por desastres naturais, mais recentemente na Alemanha assolada por inundações.

National Museum of Health and Medicine, Silver Spring, Maryland

Se você assiste televisão, pode ter uma ideia de como os ferimentos por balas são tratados, mas, e quando uma pessoa é ferida por uma bala de canhão? O Museum of Health and Medicine é o local onde você vai descobrir. A Guerra Civil está muito presente no museu, onde uma exposição permanente detalha os cuidados médicos e a autópsia do presidente Abraham Lincoln.

Outras exposições no museu, que traçam a história da medicina com artefatos obsoletos e de vanguarda, mostram conflitos mais modernos. A exposição Trauma Bay II, Balad, Iraq, demonstra como o pessoal médico trabalhou de 2003 a 2007 para salvar os soldados feridos no Iraque. A exposição inclui um piso de concreto de dois metros e 1.360 quilos sobre o qual os feridos mais graves eram tratados quando chegavam ao hospital”, disse Andrea Schierkolk, administrador dos programas públicos do museu.

Embora Walter Reed seja um nome que você certamente já ouviu, talvez não o associe à pessoa real. O Major Walter Reed "era professor de microscopia clínica na Army Medical School, hoje o Walter Reed Army Institute of Research”, disse Schierkolk.

Foi ele que descobriu que os mosquitos causavam a febre amarela, que matou soldados na guerra Americano-Espanhola e trabalhadores no Canal do Panamá. "O trabalho dele no final foi que permitiu a conclusão do canal", disse Schierkolk, e a exposição no museu sobre esse fato traz o herói médico do passado para o presente.

New Orleans Pharmacy Museum, New Orleans

Os preços de remédios sob receita, os locais de venda de maconha para uso recreativo ou médico, e a crise dos opioides, colocam a indústria farmacêutica em evidência nos dias atuais, mas nos Estados Unidos no século 18 não havia muitos regulamentos a respeito. Depois de um aprendizado de seis meses, os farmacêuticos podiam misturar e distribuir compostos como queriam até 1804, quando o governador da Louisiana, William Claiborne sancionou lei exigindo que os farmacêuticos fossem licenciados. O próprio Louis J. Dufilho Jr., de New Orleans, foi o primeiro farmacêutico licenciado do país e sua farmácia e residência é hoje o New Orleans Pharmacy Museum. Um passeio pelo prédio é como entrar no Vieux Carré do século 19, escreveu a diretora executiva Elizabeth Sherman em um e-mail.

Há fileiras de tinturas antigas e garrafas de tônicos, instrumentos cirúrgicos que parecem ter sido desenhados por Tim Burton, e uma fonte antiga de refrescos, que os farmacêuticos naqueles dias forneciam ao doente para tirar o gosto repugnante das suas prescrições. E se você acha que o seu cartão médico para uso de maconha medicinal é um luxo, espere para ver as autorizações para fornecimento de ópio e folhas de coca.

E como se trata de New Orleans, é desnecessário dizer que você verá alguns remédios vudu e também possa ter o vestígio de um fantasma, porque o prédio é, segundo afirmam, mal-assombrado.

Glore Psychiatric Museum, St. Joseph, Montana

Na Idade das Trevas, forças sobrenaturais provavelmente eram acusadas se você engolisse mais de 400 pregos

Hoje, sabemos que esse é um sintoma da “alotriofagia, ou pica, um transtorno que leva a pessoa a ingerir substâncias que não são alimentos”, disse Sara Wilson, diretora executiva do Glore Psychiatric Museum, localizado próximo do local do State Lunatic Asylum Nº2, de cerca de 1874. Entre suas exposições, está o conteúdo do estômago de um paciente de pica que engoliu 1.446 objetos, incluindo saleiros, dedais e pregos.

Reduzir o estigma da doença mental é um problema cultural urgente e uma parte importante da missão do museu, disse Wilson. As exposições sobre os antigos e torturantes tratamentos da doença mental – incluindo reproduções dos aparelhos primitivos usados – deixam claro como avançamos em termos de entendimento e compaixão da doença.

Sara Wilson observou também que os visitantes devem ver os banheiros temáticos do museu. Em todos os meus anos de viagens, nunca vi alguém recomendar uma visita aos banheiros, mas os do Glore incluem o banheiro de Freud, o banheiro de Ilusão Ótica e o banheiro da Fobia, que, eu gostaria de alertá-lo, mas tenho medo de spoilers.

The Mütter Museum of the College of Physicians of Philadelphia

O Mütter Museum derruba até os mais insensíveis com sua enorme coleção de incríveis anomalias corporais e espécimes médicos. De algum modo, chocam mais com uma demonstração do óbvio.

“Saliva transmite a morte: a pandemia de gripe de 1918-19 na Filadélfia” é uma exposição do museu que será mantida até 2024. Com uma premonição assustadora, o museu montou essa exposição em 2019.

“Originalmente, apresentamos uma série de questões hipotéticas para os espectadores da exposição sobre quais seriam suas responsabilidades numa pandemia e como reagiriam. Essas questões não são mais hipotéticas”, disse Nancy Hill, que cuida dos projetos especiais do museu.

“Saliva transmite a morte” era uma frase colocada num letreiro que alguém colocou na Filadélfia durante a pandemia no século passado que atingiu a cidade de uma maneira excepcionalmente dura. Talvez porque, com a gripe já se propagando, as pessoas se reuniram nas ruas para ver um desfile militar. Em questão de dias, os hospitais estavam lotados com pacientes da gripe. Logo depois, caixões funerários se amontoavam pela cidade.

Caso queira colocar uma máscara facial agora, mesmo se estiver sozinho em casa, você pode comprar uma com os dizeres "Saliva transmite a Morte" na loja de lembranças do museu.

E provavelmente usará uma. Afinal, ninguém deseja ir ao médico.

Tradução de Terezinha Martino

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