Frans Hals Museum
Frans Hals Museum

Museus seguem tendência e expõem obras antigas e contemporâneas lado a lado

Curadores utilizam a 'trans-história' para encontrar novas formas de apreciar a arte de diversos períodos

Nina Siegal, The New York Times

28 Abril 2018 | 16h00

HAARLEM, HOLANDA - Frans Hals (1582-1666), retratista de comerciantes ricos e malandros sorridentes da Época de Ouro holandesa, fez muito sucesso em seu tempo, mas ao morrer já havia saído de moda. Suas pinceladas livres e vigorosas foram consideradas agressivas demais pelo século 18. Entretanto, no século 19 os impressionistas o redescobriram e o ressuscitaram como um mestre moderno. 

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Hoje, Hals alinha-se com os compatriotas Rembrandt e Vermeer no panteão da história da arte. Já Ann Demeester, diretora do Frans Hals Museum, de Haarlem, Holanda, prefere considerá-lo uma figura “trans-histórica” cuja influência avançou pelo tempo e chegou à arte contemporânea. 

Assim, Demeester decidiu expor, de modo pouco usual, obras de Hals e outros mestres da Época de Ouro do acervo do museu ao lado de trabalhos de artistas vivos como a fotógrafa Nina Katchadourian, o multimídia Shezad Dawood e o pintor e escultor Anton Henning, numa mostra denominada Rendezvous with Frans Hals. Com isso, ela pretende mostrar que artistas contemporâneos ainda se inspiram no legado de 350 anos de Hals.

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“Trans-histórico” é um termo bastante usado entre curadores, num momento em que museus buscam novos meios de despertar o interesse do público pela arte mais antiga. A fusão entre o velho e o novo vem atraindo a atenção de colecionadores em feiras de arte, como a Frieze New York. Casas de leilões também estão aderindo à onda. No ano passado, a Christie’s vendeu – num leilão de arte contemporânea – o quadro Salvator Mundi, de Leonardo da Vinci, por 450 milhões de dólares. 

A atual exposição vai até setembro, após o que o museu promoverá outras mostras nos mesmos critérios, como a Frans Hals and the Moderns, em fevereiro de 2019, com o pintor ao lado de impressionistas e pós-impressionistas. “A ideia é mostrar que a história vive”, disse Sheena Wagstaff, do departamento de arte moderna e contemporânea do Metropolitan Museum of Art. A mostra de 2016 do Met Breuer, braço do museu na Avenida Madison, Unfinished: Thoughts Left Visible, apresentou pinturas incompletas de diferentes épocas, de Ticiano a Lucian Freud, Gerhard Richter e Bruce Nauman. Ela está tendo sequência com Like Life: Sculture, Color and the Body (1300-Now), em exibição até 22 de julho, que traz uma junção não cronológica de 700 anos de esculturas do corpo humano.

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Incluindo não apenas os grandes escultores, mas estátuas de cera e modelos anatômicos, a exposição inicia-se com uma escultura hiper-realista de Duane Hanson, de 1984, salta de uma escultura de Donatello, do século 15, para uma obra de El Greco, da Espanha Renascentista, e confronta um androide moderno com uma efígie de Jeremy Bentham, do século 19, feita com ossos do filósofo britânico. “A ideia da exposição é lançar e expandir o princípio de que a arte pode ser apreciada com uma visão mais populista”, disse Wagstaff. 

Suzanne Sanders, historiadora da arte de Amsterdã, considera a curadoria trans-histórica “uma tentativa de urgência dos curadores de reinventar os museus. Pode-se tomar a palavra ‘trans’ em todos os seus sentidos: de ‘através da história’ a ‘transdiciplinar’, ou simplesmente para representar as coisas de modo inclusivo, na busca de um equilíbrio entre conhecimento ponto de vista.” 

Entretanto, para James Bradburne, diretor da Pinacoteca de Brera, em Milão, a tendência é apenas um termo novo para o que os curadores sempre fizeram – levar as pessoas “de volta ao momento em que aquela arte era contemporânea”. 

“Sempre tivemos de apresentar nossas coleções de um modo atualizado”, disse ele. “É como quando, numa peça de Shakespeare levada para uma plateia contemporânea, o ator se caracteriza de mafioso ou drag queen.”

Um ano atrás, o museu M, de Leuven, Bélgica, reapresentou sua coleção permanente sob o título Collection M: ThePower of Images e novos arranjos , como uma Pietà do século 14 ao lado de um quadro barroco do século 16 e de uma instalação de arte conceitual de 2009. “Quisemos sair um pouco da abordagem cronológica”, disse a diretora do M, Eva Wittocx. “Mesmo quem já conhece essas obras há muito tempo pode descobrir novos significados nelas, ou novos meios de admirá-las.”

O Kunthistorisches Museum, de Viena, cujo acervo permanente é de arte do Egito Antigo a 1800, pediu emprestadas 22 obras contemporâneas para a exposição The Shape of Time, em exibição até 8 de julho. O quadro de uma modelo nua cobrindo-se parcialmente com um abrigo de pele, do mestre flamengo Peter Paul Rubens, pintado em 1636/38, é mostrado ao lado de um nu frontal total dos anos 1970, da austríaca Maria Lassnig. “Nossa intenção foi tentar trazer à luz ideias, medos, sonhos e pesadelos ocultos nas obras históricas ”, disse Jasper Sharp, curador do museu. Outras escolhas, porém, provaram-se mais arriscadas. Amantes da arte comentaram a exibição de um autorretrato de Rembrandt ao lado de um color field de Mark Rothko. “Metade dos comentários foram na linha de ‘erro abissal’ e ‘Rembrandt deve estar se virando no túmulo’, admitiu Sharp. 

Ann Demeester, do Frans Hals Museum, salientou que a história da arte é cacofônica. “Ao ampliar significados e criar novas histórias para o público, é importante que o museu pense mais como artista, menos sujeito a inibições que um historiador, para fazer conexões que atravessem o tempo, a cultura e a geografia.” / Tradução de Roberto Muniz 

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