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Na ascensão do nazismo, Freud escrevia sobre tensão entre indivíduo e sociedade

Livro reúne ensaios escritos pelo pai da psicanálise nos anos 1920 e 30, incluindo o clássico 'O Mal-estar na Cultura'

Amanda Mont'Alvão Veloso*, Especial para o Estado

13 de junho de 2020 | 16h00

Já virou rotina o Brasil protagonizar algum episódio de falência das fronteiras entre a normalidade e o absurdo. Desprezo à vida, impunidades, linchamentos e um estarrecedor patrocínio do ódio e da mentira enlaçam milhares de brasileiros com naturalidade. O desafio de viver e conviver parece coincidir nas dificuldades, com efeitos colaterais desanimadores. Diferentes campos do saber oferecem análises às perplexidades e amarguras da vida em sociedade, o que proporciona a busca de respostas em nomes como Theodor W. Adorno, Karl Marx, Walter Benjamin, Hannah Arendt, Guy Debord, Sérgio Buarque de Holanda e Claude Lévi-Strauss.

Ao oferecer uma chave de leitura psíquica da questão, Freud garantiu seu lugar no destacado rol, especialmente com sua produção do período entreguerras. Foi nas décadas de 20 e 30, notáveis tanto pelo crescimento tecnológico quanto pela crise financeira e a concomitante ascensão democrática do partido nazista, que ele publicou livros e ensaios como Psicologia das massas e análise do Eu (1921), O Futuro de uma Ilusão (1927), Mal-estar na cultura (1930) e Por que a guerra? (1933), conhecidos por levar as reflexões psicanalíticas para além da dimensão clínica e iniciar um frutífero diálogo com a Sociologia, a Educação e a História. São obras já disponíveis em português, sob diferentes editoras, mas em edições separadas cronologicamente ou individualizadas. Agora, receberam nova tradução diretamente do alemão por Maria Rita Salzano Moraes e estão reunidas no volume Cultura, sociedade, religião: O mal-estar na cultura e outros escritos, recém-lançado pela editora Autêntica. Também conhecido como O mal-estar na civilização, o texto que dá nome ao livro ostenta na opção por “cultura” em vez de “civilização” a intenção dos editores e da tradutora de situar a prevalência do termo “Kultur” sobre “Zivilisation” nos originais e, em mesma medida, a recusa de 

Freud em distinguir cultura de civilização. A não equivalência dos termos vinha sendo instrumentalizada pelo discurso nacionalista germânico, sendo a cultura um atributo dos alemães, em contraposição ao tecnicismo civilizatório atribuído à França e à Inglaterra. Esta seria uma tomada de posição freudiana em um cenário de violenta nacionalização confirmada na Segunda Guerra. A coletânea traz ainda ensaios de Pedro Heliodoro Tavares, Gilson Iannini, Jésus Santiago e Vladimir Safatle, que abordam as repercussões dos escritos freudianos dentre os psicanalistas e também na vida social. O volume, que oferece ampla discussão dos embates entre cultura e barbárie, serve fartamente à atualidade. Nos textos são contemplados as identificações com as lideranças, os agrupamentos identitários, a segregação das diferenças, o cultivo da hipocrisia, os efeitos do medo, a perseguição às diferenças, a submissão à religião, os empreendimentos da culpa, o espinhoso laço de obediência e a desumanização via linguagem. Uma compilação de combustíveis psíquicos de hostilidades e crueldades, assustadoras por não mais estarem sob o abrigo das ficções distópicas. No ensaio Considerações contemporâneas sobre a guerra e a morte (1915), por exemplo, o leitor pode encontrar subsídio para compreender a adesão de mentes brilhantes às fake news e outras mentiras de nosso tempo. O mal-estar ocupa lugar central na coletânea. O ensaio que o tematiza afirma que o sujeito é estruturado por uma disputa incessante entre os apelos pulsionais internos, sempre em busca de satisfação, e a renúncia a essas satisfações imposta pela cultura – entendida como a família, o Estado, a civilização, as figuras de autoridade. Esta renúncia tem um custo caro e de difícil negociação: é o mal-estar que cada um de nós carrega desde que se humanizou. Em outras palavras, o ser humano luta contra e sofre justamente daquilo que permite sua inserção na sociedade. Como o personagem de Ricardo Darín no filme “Relatos Selvagens”, que acumula frustrações exaustivas ao dançar conforme a música das burocracias estatais, mas depois literalmente explodem-nas em seu momento mais autenticamente primitivo e incivilizado. O peso da renúncia sustenta, muitas das vezes, os arranjos sociais destrutivos que nos são tão dolorosamente familiares. Intimidades, portanto, são naturalmente grotescas, e então saudamos o grande advento da separação entre o público e o privado. E da lei, que estabelece um solo minimamente comum para as coexistências. O que não quer dizer que esta mesma cultura não seja a provedora de recursos capazes de aplacar a angústia e promover prazer, alegria, inspiração, anestesia e outros preenchimentos à nossa miséria humana. Frequentemente referidos como “textos de sociedade” ou “textos da cultura”, estes ensaios são lidos por alguns psicanalistas como externos à clínica, como se respondessem a outras indagações sobre o humano e não servissem à prática analítica. Mas a própria leitura desmonta esta tese: à exceção de “A moral sexual “cultural” e a doença nervosa moderna” (1908), todos trazem a dissolução da separação entre o que diz respeito à psicologia individual e aquilo que evoca a relação com coletivo e o mundo, demarcando uma subjetivação que só é possível porque há um outro com quem o Eu se relaciona. Logo se vê que a singularidade, tão cara à 

Freud em toda sua teoria e prática analíticas, não podia prescindir dos arranjos deste ser junto à sua família, comunidade e sociedade. Quando registrou as feridas abertas da vida em comum, o autor acabou criando uma gramática para o sombrio que nos habita. Os ensaios reafirmam um homem em constante desarranjo consigo e com o mundo. O mal-estar pertence, portanto, a todas as épocas. Neste sentido, o ser humano está muito mais acostumado ao infortúnio do que à felicidade. E ainda assim, há um estímulo para que se coloque o sofrimento para fora de nós mesmos, como um apêndice desagradável do qual remédios e promessas podem nos livrar. A persistência de depressões e ansiedades em nosso tempo não deixa dúvidas de que elas precisam ser pensadas a partir desta intimidade com o desprazer. As décadas de escritos freudianos nunca sugeriram que descartássemos nossas contradições internas; pelo contrário, era a partir delas que podíamos encontrar o outro e suportar coexistências. Ainda que sejam alvos da demanda por respostas ou tomados como panfletos por revoluções, os escritos mencionados constituem mais provocações do que tentativas de predizer o futuro. Expõem, com incômoda franqueza, o nascedouro de nossas ilimitadas turbulências interiores. Mas também convidam à formação de compromissos coletivos que acomodem o desassossego de cada um.

Cinema mostrou como piorou o convívio social

Praticamente contemporâneo à psicanálise, o cinema notavelmente veste a contribuição da cultura às “impaciências da alma consigo mesma”, como bem dizia o Bernardo Soares de Fernando Pessoa. De gêneros distintos como o drama, a fantasia ou a comédia podemos extrair a experiência prazerosa, sublimatória ou enternecida que é capaz de comover, inspirar e provocar sensações lidas pelo cérebro como felicidade. 

Mas o cinema é também uma arte familiarizada com o desconcerto, a ponto de recusar propostas apaziguadoras e investir em leituras do mal-estar. É nesta dimensão de imagem-furo, termo cunhado por Tânia Rivera, que o mundo heterogêneo pode aparecer em suas fissuras e, com ele, um sujeito tão impotente, dividido e defeituoso quanto. Por identificação, temos aí a possibilidade de reconhecermos, em narrativas e personagens, o que não cai bem com a imagem que fazemos de nós mesmos; é o desprazeroso infamiliar de que tanto tentamos escapar. 

A julgar pela contemporaneidade, o mal-estar nas telas é especialmente prolífico. Recentemente as láureas de arte e entretenimento, representadas pelos festivais de cinema autoral e pelo Oscar, coincidiram ao dar o prêmio máximo ao sul-coreano Parasita, cuja narrativa convoca o espectador a sair de uma posição supostamente indiferente ao mal-estar da desigualdade social. Em um desses felizes encontros entre arte e popularidade, o filme colocou na pauta do dia as complexas relações sociais tecidas dentro de sistemáticas financeiras profundamente injustas. O que há em cada cidadão que faz com que ele sucumba à exploração e à desumanização?

Em retrospectiva, Parasita sublinha uma sequência de quatro anos de Palmas de Ouro concedidas às obras que privilegiaram o dissenso na sociedade e os padecimentos decorrentes dele. O japonês Assunto de Família, premiado em 2018, destacou a marginalização financeira, moral e psíquica daqueles que ficam à parte da riqueza; o sueco The Square, reconhecido em 2017, expôs o ridículo das contraditórias superioridades morais evocadas nos mais variados circuitos, como o da arte. No ano anterior, o Festival de Cannes consagrou Eu, Daniel Blake e a perversão disfarçada que transforma perdas de emprego e desassistências sociais em “oportunidades” para o empreendedorismo. 

Ken Loach, de Eu, Daniel Blake, e Bong Joon-ho, de Parasita, persistem nesta espécie de liturgia do mal-estar com outros títulos, como os respectivos Você Não Estava Aqui e O Expresso do Amanhã

No doméstico desassossego que reporta o mal-estar no Brasil, Carolina Jabor conseguiu a proeza de ser delicada ao evocar a linguagem de farpas do linchamento em Aos Teus Olhos, enquanto Beto Brant capturou em O Invasor as hostilidades de um país que não abre mão de sua divisão de classes. 

Dentre os diretores regularmente dedicados às perturbações sociais, os norte-americanos Spike Lee e Ava DuVernay pressionam a ferida do racismo como um doloroso lembrete de que não há possibilidade de cicatrização. O infiltrado na Klan e A 13a Emenda, respectivamente, reservam consternação e revolta à experiência fílmica. 

No caso do dinamarquês Thomas Vinterberg, a intimidade e a cilada da moralidade são um prato cheio para suas indigestas reflexões em A Caça e Festa de Família. O conterrâneo Gustav Möller, de Culpa, mergulha ainda mais nas estranhas do ser humano para delas recolher o arrependimento. 

Arauto do mal-estar, o austríaco Michael Haneke pratica uma espécie de roleta-russa cinematográfica com nossas conflitos mais agudos: tem a crueldade de Funny Games, a esperança estilhaçada de Amor, a precariedade psíquica de O Sétimo Continente. Como esquecer de A Fita Branca e sua insuportável enunciação do abraço dado na intolerância pela sociedade? Lido na realidade atual, desperta pavor com sua mensagem de “eu avisei”. 

*AMANDA MONT'ALVÃO VELOSO É PSICANALISTA, JORNALISTA E MESTRANDA EM LINGUÍSTICA APLICADA PELA PUC-SP

 

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