Na crista do mundo

O bloco é o maior clube de rua do Guinness. O time caminha em busca da glória universal

Raimundo Carrero*, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2008 | 21h05

O pernambucano conheceu, no intervalo de quatro dias, nessa semana, o beijo frio da morte e o abraço alegre da felicidade. É assim que se escreve? Tem certeza? Se fosse um soneto, daqueles bens tradicionais, conservadores e românticos, valeria por uma melodiosa chave de ouro, com menestrel, viola e tudo, enxugando o canto dos olhos. Com licença, só por lembrança: chave de ouro é aquele verso final do soneto que enternece e encanta o leitor ou ouvinte. Daí o princípio de choro, tirando o lenço do bolso. Aplausos e ais, senhoras e senhores.Mas não é assim que se escreve. É assim: no intervalo de quatro dias, o pernambucano perdeu o folião Enéas Freire, criador e principal dirigente do Clube Carnavalesco O Galo da Madrugada, o maior do mundo, e viu o Sport Clube do Recife caminhar em busca da glória universal ao se sagrar campeão do Brasil, vencendo o Corinthians por 2 a 0. Portanto, o Sport corre o grave risco de se tornar também o maior do mundo. Mania modesta de Pernambuco. A história das duas agremiações - Sport e Galo da Madrugada - tem aproximações e distâncias. Mais distâncias do que aproximações. Conforme o destino. Claro, o Sport tem mais de cem anos, foi criado para inventar o futebol, depois de uma disputa entre atletas de clubes sociais recifenses, divididos entre o baile e a campina, no começo do século 20. O Galo da Madrugada, no entanto, foi inventado em janeiro de 1978 para recuperar o combalido carnaval de rua do Recife que, naquele tempo, caía pelas calçadas, esquinas e becos. Caía, literalmente, abandonado e esquecido, porque também se pode cair no frevo, o arrebatador ritmo pernambucano, que faz tremer a terra. Apesar da diferença de datas, os dois cumprem o mesmo destino: O Galo da Madrugada está confirmado e datado: é o maior clube de rua do mundo, segundo o livro Guinness dos recordes, e o Sport se prepara para ser também o maior do mundo, nas Arábias, e já nem conta com a Libertadores. Depois de campeão do Brasil, tudo pode acontecer. É certo que o destino faz curvas perigosas, mas que chega, chega. Afinal, é para isso que alimentamos a nossa mania de grandeza. O Sport, o nosso clube de futebol, é quem faz tremer a terra, conforme verdade absoluta ditada pela letra de Renato, aquele do chapéu azul: "Chegando lá na Ilha do Retiro, ó abre- alas que o Sport vai jogar, é o rubro-negro, é paz e guerra, é o Sport que estremece a terra". É preciso acreditar. Imagine um estádio inteiro, cantando, dançando, vibrando com esse grito de louvor e luta. O mundo desaba aos seus pés. Depois do jogo de quarta-feira, o nosso 11, aliás 11 de junho, 11 de jogadores, o torcedor rubro-negro cantava pelas ruas do Recife esse hino e mais um refrão que já se tornou mania: "Não chora, não chora, não chora". Se não fosse pela gozação ao adversário, valeria como uma elegia. Afinal, o Estado de Pernambuco lamenta a morte de um dos seus maiores e mais destacados foliões: o grande Enéas Freire. E repete também o hino da agremiação: "Ei, pessoal, ei, moçada, carnaval começa no Galo da Madrugada". As vozes ecoam nas avenidas e nas ruas do Recife. Lembram, ainda, o nascimento do clube carnavalesco naquela manhã do sábado de Zé Pereira, em 1978, quando desfilou pela primeira vez. Começava, sim, naquela acanhada e iluminada manhã recifense a trajetória do clube, com pouca gente, é verdade. Mas agora o hino é cantado por centenas, e até por milhares de bocas, conforme estatísticas oficiais e extra-oficiais, que levaram a agremiação pernambucana ao título de maior clube de rua do mundo, desde 1995. Informa-se que mais de 2 milhões de pessoas ocupam a cidade para brincar e saltar o frevo, acompanhando o Galo. Áreas centrais, como Boa Vista, Santo Antônio, São José e Bairro do Recife, ficam completamente intransitáveis. É um mar de gente, de cabeças, de pernas e de braços. E o Galo da Madrugada, com mais de 5 metros de altura, surge das águas mornas e brilhantes do Rio Capibaribe.De forma que, mesmo se distanciando e se aproximando, a história dos dois clubes tem momentos em que se confunde. Como é isso? Nas curvas sinuosas da vida, as histórias de ambos se misturam, embora não se repitam. O Galo da Madrugada, por exemplo, foi criado para recuperar o carnaval de rua do Recife, que estava enclausurado nos clubes de elite do Recife: Português, Internacional, Náutico, e quem?, Sport Club do Recife, que tem uma sede das mais requintadas do Brasil. Nos clubes se concentravam as grandes orquestras, os grandes e ricos desfiles de fantasia, a gente mais regularmente endinheirada. Entradas caras, mesas caras, fantasias caras. Só fausto e luxo. Contratavam-se orquestras famosas e caras, cantores celebrados: Jamelão, Jair Rodrigues, Originais do Samba. Era uma disputa, uma briga, uma sofisticação. Nas ruas dos subúrbios a maior festa do povo brasileiro agonizava. De uma agonia plena de solidão. Blocos de sujos saíam à tarde; à noite a prefeitura instalava um pequeno palco de madeira onde as pessoas pulavam ao som de alto-falantes. De alto-falantes, pois sim. Alto-falantes mal escutados, em fitas cassetes extraídas de vitrolas antigas. E os suburbanos, então, decidiam ficar ali conversando em grupos, fantasiados, parados, em ruas também mal iluminadas por gambiarras estendidas nos postes, de lado a outro. Lerdamente surgia um bêbado de chapéu de sol aberto, mesmo à noite, cantando e pulando. E no centro da cidade, mesmo na Pracinha do Diário - referência ao Diário de Pernambuco, jornal mais antigo em circulação na América Latina e hoje instalado no bairro de Santo Amaro -, denominado de Quartel Geral da Folia, a gente pobre exibia o descuido dos chamados poderes públicos: vestia roupas belamente humildes, sandálias havaianas, calças e saias de cetim, de palhaço, arlequim ou marinheiro. Pulava, cantava, zombava, com uma maravilhosa ingenuidade de arrepiar os ossos. E havia ainda o carnaval no escuro, de postes mal iluminados e, mais uma vez, de alto-falantes que gemiam e sussurravam os frevos de Capiba, Nelson Ferreira e Alcides Leão, na Avenida Conde da Boa Vista e na Rua Nova, onde os casais passeavam de braços dados. De braços dados, meu Deus. Era pouca, pouca gente. Que parava nos carrinhos de mão para comer cachorro-quente com refrigerante, coxinhas, pastéis. Ou, com um pouco de regalo ingênuo e comovente, um copo de caldo de cana, acompanhado de um pão doce. Não é matéria de ficção, por favor. O locutor que vos fala estava lá, estava ali, e fazia as mesmas parcas refeições, embora substituindo o refrigerante ou o caldo de cana por um copo grande de cerveja quente. Sentado no meio-fio. Há quem veja nisso uma disposição política dos mandantes municipais, dos anos de chumbo, a dividir classes e a retirar o povo das ruas. "Entre o final dos anos 1960 e início dos anos 1980, os prefeitos nomeados pela ditadura militar enquadraram o carnaval em clubes e passarelas montadas pela prefeitura, confinando a participação popular", diz um documento publicado no livro Frevo - 100 anos de Folia, com vários autores. Na verdade, coincidência ou não, por essa época o carnaval pernambucano atravessou seu momento histórico mais doloroso - com as óbvias exceções.É aí que a história dos dois clubes se confunde. Nos anos 60, justo nos anos brabos da ditadura, o Sport amargou os piores momentos de sua história. Foi bicampeão em 60 e 61, e enfrentou uma monumental crise administrativo-financeira até 1975, quando se tornou, novamente, campeão do Estado, depois de um jejum de muitos e terríveis anos. Perdia o brilho dos veteranos Traçaia, Djalma, e Bittencourt, substituídos pela maestria e pela magia dos meninos Bita, Nino, Ivan e Salomão, do Náutico. O golpe militar de 64 encontrou o alvirrubro em plena glória do hexa. Isso até 69, quando o Santa Cruz conquistou o título de campeão estadual, revelando craques do nível de Luciano, Givanildo, Ramon. Em 75 o rubro-negro voltou à hegemonia, num ano de disputas esportivas equivocadas. Dizem. O traço de união dos dois clubes: a decadência do futebol e do carnaval. Na incrível trajetória rubro-negra, lembro-me do goleiro Pivete, que viera da Ponte Preta, de Campinas, saindo para comprar luvas na cidade porque o clube não tinha dinheiro para comprar. E o outro goleiro, nascido nas divisões de base do Flamengo, Valknauer, chorando com fome e implorando pelos salários atrasados. Por esse tempo, o clube recorreu à administração do coronel Ivan Rui para regularizar as finanças. Ivan passou o bastão a Sílvio Pessoa e, em seguida, a Jarbas Guimarães. Imediatamente depois, já em 1978, nascia então o Galo da Madrugada, que começava a desfilar com pouco mais de 70 pessoas e um estandarte.Não é uma história de encontros e desencontros? Das traças se faz um terno novo, dizem por aí. O Sport que estremece a terra reúne lutas do passado para se levantar em busca dos gramados internacionais. Atual campeão do Brasil e futuro campeão do mundo. "Levanta, sacode a poeira..." E o Galo da Madrugada surge das ruínas do carnaval pernambucano, ofendido e humilhado, para transformá-lo no maior do mundo, no momento em que perde seu principal criador e dirigente. Uma história feita de aproximações e distanciamentos. É fato. E, para finalizar, retornemos ao soneto e à chave de ouro: no desenrolar histórico dos acontecimentos, essa semana o brioso Clube Carnavalesco O Galo da Madrugada levou ao túmulo, no lusco-fusco da tarde, seu criador e principal dirigente, Enéas Freire. E o Sport? Bem, o Sport se prepara para a glória universal porque se tornou o primeiro clube esportivo do Nordeste a ganhar a Copa do Brasil, e já se fala, modestamente, nas Arábias. E nas Arábias voam tapetes e rubro-negros. * Raimundo Carrero, jornalista e escritor pernambucano, é autor de O Amor Não Tem Bons Sentimentos (Iluminuras)

Tudo o que sabemos sobre:
galo da madrugadarecifesport

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.