Na euforia mora o perigo

Ele não foi apenas votado, mas quase beatificado. Quando a catarse se esvair, quem se sentirá traído?

Mac Margolis*, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2008 | 17h39

E os americanos elegeram Barack Obama. Demorou. Afinal, o resto do mundo já o fizera seu presidente havia muito tempo e com uma margem avassaladora. O jovem senador de Illinois, segundo levantamentos diversos, foi o preferido de sete a nove em cada dez "eleitores" do mundo, uma surra em comparação ao pleito dos Estados Unidos, no qual Obama teve 53% dos votos para 46% de John McCain, resultado respeitável, mas não histórico. A comoção também foi muito além de Grant Park, em Chicago. O Quênia, país dos ancestrais paternos de Obama, declarou feriado nacional, regado à popular cerveja Senator. Enfin, une lumière dans le monde, alardeou o jornal francês Libération. Até Hugo Chávez, tachado de "demagogo perigoso" por Obama durante a campanha, aplaudiu a promessa de "novas relações" entre Caracas e a Casa Branca. Impossível não se render às emoções que tomaram conta das ruas do planeta. Desde quando a vitória de um político provoca explosões de dança, canto e lágrimas de júbilo? Mas na folia é que mora o perigo. Pode parecer mesquinho lançar pedras em momento de júbilo, mas tamanha euforia gera igual apreensão. Obama não foi eleito apenas, mas quase beatificado. Sua mera escolha foi saudada como um bálsamo para as chagas do mundo, como o racismo e o antiamericanismo, capaz de desnortear terroristas (como jogar bomba contra o país do presidente Hussein?), resgatar a diplomacia internacional e até reviver a economia internacional. Será? Por mais que tenha se esforçado para baixar as expectativas dos seguidores após sua coroação - "temos um duro caminho pela frente", entoou de testa franzida no discurso da vitória- terá que lutar contra as exortações espalhadas pela própria campanha. "Sim! Nós podemos", "Mudança em que podemos acreditar", "Somos aqueles que esperávamos". Seus discursos pareciam uma mistura sofisticada do léxico da Madison Avenue com as cadências e candura dos pastores negros à Martin Luther King. Ninguém na América Latina precisa ser lembrado do risco quando algum iluminado vai à varanda e promete a Lua. Como será quando toda essa catarse se esvair? Quem será traído?Ninguém sabe. Obama chega como tabula rasa, uma folha política em branco (sem trocadilho) que até agora o rebanho de partidários e tietes preenche como quer. Seu currículo - dois mandatos na Assembléia estadual, mais um incompleto no Senado Federal - é um dos mais magros na história dos presidentes americanos. Claro, após 20 duros meses de campanha, Obama não é nenhum desconhecido. Tocou a candidatura com maestria, abrindo as mentes, corações e (impressionantemente) carteiras dos americanos brancos, negros e pardos, quebrando clichês e todos os recordes de arrecadação de campanha. Aos 47 anos, calou rivais baroniais em seu partido, como o clã dos Clinton, e esquivou-se da pior artilharia republicana desde 1972, quando os capangas de Richard Nixon tanto caluniaram Edmund Muskie que o levaram às lágrimas. (Na cartilha dos adversários Obama seria islâmico, terrorista, socialista e entreguista, escolha você.) Respondeu às pedradas com elegância, leveza e um sorriso franco, uma autêntica "arma de atração em massa", como disse o historiador inglês Timothy Garton Ash, fazendo trocadilho com as armas de destruição de massa, quimera da agora finada era de George W. Bush. Se Obama conduzir o país como conduziu a campanha, estaremos todos em boas mãos. Mas é ainda uma aposta. O certo é que se acabou a fase do encanto e todo o poder de seu passado que eletrizaram o planeta. Biografia conta pouco num mundo em polvorosa. O governo de Bush não encontrou o autor-mor dos atentados do 11 de setembro de 2001, mas preside outro, na porta de saída, em Wall Street, que já deletou mais de US$ 2 trilhões da riqueza do planeta e ainda corre solto. Obama herdará essa débâcle, mais duas guerras e ainda a desgastada "marca americana" no mundo. Mas as crises que o levaram ao pódio não devem sumir. Quem diz não é John McCain nem os ressentidos falcões do Partido Republicano, mas sua mão direita, Joe Biden. "Preparem-se", avisou há poucos dias o ainda candidato a vice. "Não levará nem seis meses para o mundo testar Barack Obama." E quando o telefone vermelho tocar na madrugada de Washington, como lembrou Hillary Clinton, não adianta atender com uma biografia. Os analistas profissionais e sábios dos talk radio talvez demorem a dissecar a eleição de 2008, tão acometida por pistas falsas, mitos e mistérios. Para começar, o que houve com o racismo oculto dos brancos que supostamente irromperia nas urnas, contrariando as pesquisas e entregando a vitória a McCain? Para mim, uma das pesquisas mais reveladoras foi a boca-de-urna do canal CNN, em que um em cada cinco eleitores admitiu levar a raça do candidato em consideração ao votar. Só que a maioria deles votou em Obama. É um dado que também mexe com a conclusão fácil de que a eleição de Obama é a prova cabal de que "raça não existe". Raça ainda existe, mas pela primeira vez parece ter servido como um ativo político. Pelo menos foi essa a mensagem expressa na saudação do mundo à "nova cara" dos Estados Unidos. Bem-vindo à era da política neoracial.E como explicar o "sumiço" de McCain, por exemplo? Minha teoria: foi abduzido no início do ano por extraterrestres e trocado por um sósia, despido do conteúdo. Um perfeito andróide republicano. Abandonou bandeiras corajosas (a favor da imigração e do combate agressivo à mudança climática, contra a tortura e os cortes perdulários de impostos) e depois, a razão. Ao escolher a exótica Sarah Palin como vice, levantou a bola para a piada fácil (prevejo férias coletivas em massa de chargistas e humoristas) e ainda sabotou seu melhor argumento contra Obama: a inexperiência. Obama jamais imaginou tamanho brinde.Convertê-lo em governo é outra história. É necessário primeiro decifrar o quebra-cabeça das urnas. Quase 57 milhões de americanos - 46% por cento do eleitorado - votaram contra Obama. Para unir os Estados "vermelhos" (republicanos) e "azuis" (democratas), Obama terá que adestrar os democratas que retomam a ampla maioria no Congresso com apetite de vingança. Para quem votou sempre de acordo com as prescrições de seu partido, será um desafio.Se há alguma pista nesse breu, está na forma determinada, embora curvilínea, em que se guiou ao longo de sua parca, mas rica, carreira política. Está nas ruas de Chicago, onde ele se juntou à rebelião popular contra o feudo do corrupto prefeito Richard Daley, se elegeu e, imediatamente, procurou na mesma máquina um aliado do poder, não um vassalo. Está nas fileiras da Trinity United Church of Christ, onde ajoelhou com a politicamente poderosa comunidade negra de Chicago, mas não rezou a missa do polêmico pastor Jeremiah Wright. Está na destreza de sua campanha, em que Obama pregou a ruptura com a elite de Washington, mas se cercou de decanos do Partido Democrata, do senador Ted Kennedy e o ex-chefe do Banco Central Paul Volcker a Rahm Emanuel, veterano do governo Clinton e agora o novo ministro da Casa Civil. Cínico? Talvez. Oportunista? Sem dúvida. Como bom jogador de basquete, Obama sabe driblar obstáculos e mudar de tática com agilidade para vencer o jogo. É o pragmatismo, não o socialismo nem o intervencionismo convencional dos democratas, que parece ser a doutrina mestra de sua política. Não é uma receita que vai alegrar a todos que o seguiram até o topo da montanha. Mas talvez o salve de um tombo maior. Barack, dizem alguns estudiosos, significa "abençoado" em suaíli, ou "lampejo" em hebraico. Oxalá. *Mac Margolis é correspondente da revista Newsweek no Brasil

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