Maya Lin Studio
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Na 'Floresta Fantasma' de Maya Lin, as árvores falam

A instalação no coração do Madison Square Park é o memorial da artista a uma outra guerra - a guerra contra a natureza

Holland Cotter, The New York Times

09 de julho de 2021 | 10h00

NOVA YORK - Num dia de verão extremamente quente, as árvores na rua da frente do meu apartamento no Bronx mantinham uma conversa profunda. A ciência nos informa que as árvores são seres sociais e fazem algumas das coisas que nós humanos fazemos, pelo menos quando estamos fazendo o nosso melhor. Elas trocam dicas sobre saúde e notícias sobre o tempo. Elas nutrem, protegem e auxiliam umas às outras. Ajudam outros seres também: pássaros, insetos e nós. Elas têm uma vida sã. E geram um carma excelente.

Ao contrário de nós. Num universo em que aqui se faz e aqui se paga, o carma que estamos produzindo - por meio da cobiça competitiva, o desperdício irracional e a maldade direcionada - está matando o mundo ao nosso redor. Estamos em guerra com o planeta e tudo dentro dele, incluindo as árvores.

A artista e arquiteta Maya Lin iniciou sua carreira com uma resposta a uma guerra. Seu Monumento aos Veteranos do Vietnã, em Washington, de 1982, é uma parede de granito preto lembrando uma guerra “estrangeira” que se tornou uma guerra interna e dividiu a nação.

Sua nova instalação, Floresta Fantasma, em exibição no Madison Square Park em Manhattan, até 14 de novembro, é comemorativa também. Um monumento que chega aos céus contra uma guerra em curso direcionada contra tudo o que chamamos de natureza.

Seria “direcionada contra” uma frase direta demais? Algumas pessoas simplesmente não sabem que a mudança climática provocada pelos humanos é real. Outros subestimam sua gravidade. Mas outros - como um recente presidente dos Estados Unidos - descartaram-na como ficção. De outras maneiras similares ignoramos ou minimizamos a Guerra do Vietnã em suas fases iniciais até os protestos realmente se tornarem ruidosos, as imagens do massacre de My Lai vazarem e os garotos que encontrávamos nas festas da escola voltassem para a casa dentro de sacos fúnebres.

Agora, como naquela época, a ignorância e a negação são difíceis de sustentar. As temperaturas estão aumentando, as praias inundando, as matas estão secando. Espécies inteiras - quadrúpedes, aladas, enraizadas - repentinamente são perdidas e a lista de vítimas vem crescendo. Mas, nos Estados Unidos, os protestos públicos contra o colapso climático ainda são esporádicos e mornos, por isso cada gesto de resistência é crucial, como é o caso de Floresta Fantasma.

Encomendado pela curadoria do Madison Square Park, a exposição é basicamente um pedaço reconstituído da natureza danificada. Da costeira Pine Barrens de Nova Jersey, Lin trouxe para Manhattan 40 cedros brancos adultos do Atlântico, cada um com 12 metros de altura, e os plantou no centro de uma área arborizada do parque. No contexto daquela suntuosidade arbórea eles constituem um espetáculo estranho porque não têm folhas e estão claramente mortos ou morrendo.

Foram retirados de um habitat infiltrado por água salgada, resultado da mudança climática. A água salgada é um veneno para as árvores, faz com que apodreçam por dentro. Doentes, os cedros agora no parque foram tirados do seu ambiente original para dar lugar a uma tentativa de regeneração.

Embora Lin seja arquiteta de formação - ela recentemente projetou a Neilson Library no Smith College em Northampton, Massachusetts - suas obras mais memoráveis são esculturas e ela tem se baseado no mundo natural como meio e tema. Em 2009, no Storm King Art Center, cerca de 96 quilômetros ao norte de Manhattan, ela criou a partir de terra compactada e grama um cenário de colinas protuberantes, as formas inspiradas pelas ondas do oceano e as montanhas em torno do Hudson Valley.

“Minha afinidade sempre foi com o esculpir a terra”, escreveu ela em seu livro autobiográfico Boundaries, publicado em 2000. “Este impulso marcou toda a minha obra”.

Desde que o livro foi lançado, o foco na sobrevivência planetária cresceu dramaticamente. A justiça climática, intercalando com outras iniciativas de justiça social, está, na Europa com certeza, na linha de frente dos movimentos ativistas no século 21.

Se Floresta Fantasma não é, tecnicamente, uma arte ativista, sua imagem clara da perda terrestre é motivada pela mesma urgência que a resistência pela justiça climática.

Mas bastam alguns minutos, quando você está no parque, para a imagem provocar emoção. De uma certa distância, os cedros se misturam no contexto arbóreo maior. Mas então os contrastes de tonalidades começam a surgir: os troncos das árvores vivas do parque são de cores marrom e preto; os dos cedros são de um cinza esbranquiçado. (Esta diferença ficou imediatamente perceptível quando a instalação foi aberta em maio, antes de as árvores do parque estarem repletas de folhas e isso provavelmente deve ocorrer novamente quando chegar o outono).

Outro contraste: ao olhar para cima quando de pé sob as árvores do parque, você vê uma profusão de folhas, densa o suficiente para se proteger da chuva; olhe quando estiver de pé sob os cedros e verá o céu aberto. Seja qual for a folhagem que tinham outrora, ela desapareceu há muito tempo e seus galhos parecem ter sido raspados. Apenas alguns permanecem, como finos braços se projetando para fora.

Sem dúvida, Lin considera a Floresta Fantasma um símbolo dos danos profundos sofridos pelas árvores. Mas outra imagem surge também: da sociabilidade, de uma comunidade de personalidades, uma congregação de espíritos.

Para produzir isto, ela coreografou cuidadosamente a colocação dos cedros, alinhados em fileiras como colunas de uma catedral. Mas muitos estão em agrupamentos assimétricos, o equivalente a um grupo conversando, do tipo que encontramos em festas e em reuniões de vizinhos, e como as florestas no seu habitat realmente se formam, com o fim de se comunicarem através de suas superfícies e o compartilhamento dos nutrientes através de suas raízes.

Além disto, o projeto vem com o que Lin chama de “componentes de defesa”. Ela plantou sementes de  árvores por cinco bairros para compensar o carbono usado quando transportou os cedros para Manhattan. E mantém um banco de dados on-line, What is Missing? (O que está sendo perdido?), que monitora o desaparecimento de plantas e espécies animais (ela diz que seu website, whatismissing.org é o “último memorial).

Mas o que é mais comovente e, por essa razão, mais politicamente eficaz nessa exposição, é a maneira como personaliza seu objeto. Sem sentimentalismos nem metáforas, ela apresenta as árvores como seres vivos, respirando, seres morrendo e companheiros cármicos que são aqueles que observo, com amor, da minha janela no Bronx e que John Ashbery celebrou nessas frases de um dos seus primeiros poemas, Some Trees (Algumas árvores):

These are amazing: each (Elas são incríveis: cada uma)

Joining a neighbor, as though speech (Se conectando com o vizinho, como se o diálogo)

Were a still performance. (Fosse uma representação fixa.)

Arranging by chance (Organizada ao acaso)

To meet as far this morning (Para se encontrarem nesta manhã)

From the world as agreeing (Longe do mundo como se em concordância)

With it, you and I (Com ele, com você e comigo)

Are suddenly what the trees try (É de repente o que as árvores tentam)

To tell us we are: (Nos dizer o que somos:)

That their merely being there (Que simplesmente estar ali)

Means something; that soon (Tem algum significado; que logo)

We may touch, love, explain. (Nós podemos tocar, amar, explicar.)

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Este artigo foi publicado originalmente no The New York Times

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