'Na hora de governar, Lula sabe como agradar à elite'

O ex-presidente analisa seu sucessor, aposta que Lula voltará em 2014 e lança um olhar preocupado sobre 2008

Laura Greenhalgh e Fred Melo Paiva, O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2008 | 21h39

Ao telefone, o ex-presidente faz comentários breves, mas algo sugere que "a coisa" está feia. Despedindo-se do interlocutor, informa aos entrevistadores. "Era o Luiz Carlos Mendonça de Barros (ex-presidente do BNDES e ex-ministro). Preocupado com os Estados Unidos..." Ajeitando-se à cabeceira da mesa de reuniões no instituto que leva seu nome, em São Paulo, não se furta a dizer que acertou no diagnóstico que fizera há pouco tempo para um grupo de economistas do PSDB. "Na volta de uma reunião com o pessoal do Citibank, onde estive com o Bill Clinton e o Felipe González, disse que a situação não era boa nos Estados Unidos. O Luiz Carlos achava que estava tudo uma maravilha. Não está. Em Providence, cidade americana do tamanho de Bauru, vi o anúncio no jornal: um mapa com bandeirinhas mostrando as 800 casas que iam a leilão. Oitocentas! Ora, se isso não é recessão, é o quê?"   Veja também: Continuação da entrevista: 'Uma estratégia: Kassab, Alckmin e Serra' É assim que Fernando Henrique Cardoso, 76 anos, batiza o clima de incerteza que ronda a economia norte-americana. E mesmo achando que o Brasil melhorou em vários aspectos, não descarta que 2008 seja um ano turbulento, difícil, "inclusive do ponto de vista energético". Faz analogias atmosféricas: "Os ventos foram muito favoráveis a nós nos últimos tempos. Mas tem brisa aí que não é boa". Lá vem FHC jogando no "quanto pior, melhor?" Não, garante o grão-tucano, que se diz fora do combate político-eleitoral, mas a quem se atribuem insondáveis poderes de manipulação. "Ah, como se fosse fácil...", ironiza. Nesta entrevista exclusiva ao Aliás, Fernando Henrique aceita passar em revista o Brasil e o mundo. Do embate vitorioso contra a prorrogação da CPMF à voracidade da China nos mercados globais, passando pelos candidatos à Casa Branca e os desafios da democracia, foram quatro horas de conversa, ao longo das quais não perdeu a oportunidade de lembrar os feitos de seus dois mandatos. "O Lula pode estrebuchar, mas o que está acontecendo ao Brasil não veio por acaso", diz, sapecando uma ironia a mais. "Espero que ele, ao entregar o poder, diga ?nunca tantos brasileiros viveram num País como este?. E é verdade, porque não pára de nascer gente..." Critica o sucessor, mas, em termos ideológicos, acha que Lula está mais perto de FHC do que do PT. Define José Dirceu como um político realista. Bush, um autômato. Chávez, mais audacioso que Fidel. E não deixa de passar recados para o "PSDB com juízo": assumir a tarefa de propor uma revolução na educação nos próximos anos e considerar, desde já, a possibilidade de fechar com Gilberto Kassab, na campanha para a Prefeitura de São Paulo. "Isso seria pensar estrategicamente", diz o político treinado na sociologia. "E eu só penso assim." O governo estuda criar uma nova CPMF com alíquota menor. E a oposição reage. Como avalia a derrota de dezembro?O governo não fez a negociação que deveria. Por arrogância. E no final bateu o desespero. Se, de início, tivessem dado metade do que ofereceram depois, a oposição teria aceito. Durante meu governo, houve um ano (1998) em que o Congresso não aprovou a prorrogação da CPMF. Então votamos de novo no ano seguinte e passou. Por uma interpretação tributária qualquer, fomos obrigados a cumprir uma quarentena. No período sem a contribuição, também aumentamos o IOF. A diferença é que, desta vez, Lula não tomou uma posição negociadora. Nem o líder de seu governo sabia do pacote de aumento dos impostos. Além disso, os governistas perderam a palavra. Disseram que não iam fazer e fizeram. Em um país normal, o ministro da Fazenda teria pedido demissão. Primeiro, é repreendido em público pelo presidente. Depois se faz exatamente o que ele disse que era para ser feito. O que é isso?O sr. é criticado por fazer oposição dura demais ao governo...Li uma notinha na imprensa dizendo que, depois de velho, virei incendiário. E que usei o argumento da diferença de educação com relação ao Lula. Mentira. Não virei incendiário, nem mostrei diferença de educação alguma. Eles é que estavam me discriminando. O que disse naquele discurso (durante o 3º Congresso Nacional do PSDB, em novembro) foi o seguinte: "Olha, não é ruim ser doutor". Mas não estava acusando aqueles que não o são. Ao contrário, era uma defesa. Só que inverteram. No caso da CPMF, era visível que a sociedade não queria mais. Minha argumentação junto ao PSDB foi uma só: a questão agora é política e existe um momento em que temos de dizer que não estamos de acordo. A derrota mostrou um governo excessivamente seguro de si?O governo está... Não posso falar em francês porque vão dizer que sou pedante... Está cheio de si. No termo antigo, gabola. Agora tomaram outra decisão, que não sei se é verdade: vão atender a base, preservando emendas individuais. Estão deixando claro, de novo, que há uma relação espúria. Não é o melhor caminho. Houve uma época em que o Lula disse: "Agora vamos fazer um entendimento com a oposição". Daí discutiram se iriam, ou não, me chamar para uma conversa. Eles se pegam sempre na coisa menor. Me chamar pra quê? Pra tomar café? CRISE DE EFICIÊNCIA A que atribui esse tipo de hesitação do governo?Há algum tempo falta à política no Brasil uma dimensão de grandeza. Qual é o projeto do PT? O PSDB tinha um e eu fiz. Não fiz tudo, mas fiz. Falávamos em estabilizar a economia, consolidar um novo modelo de relacionamento entre o Estado e o mercado, mexer na área social, integrar o Brasil à economia global. Mais ou menos, é o que foi feito no meu período e o que continua sendo feito agora. Mas o quadro é outro. Em cada conjuntura é preciso olhar adiante. O governo atual nunca fez uma proposta ao País. Nunca procurou a oposição para dizer "olha, o problema é esse, vamos nos juntar nisso, naquilo, nas questões de Estado". Em 2008 o Brasil vai enfrentar uma situação mais difícil que nos outros anos. Não será um ano fácil, nem econômica nem energeticamente. E o problema maior não será falta de recurso. Qual será o problema, então?A crise de eficiência, isso é o que vejo. Quando a questão fiscal é dramática, todo o mundo só olha para o dinheiro. Mas quando se tem o dinheiro, por que não se faz? É mais difícil preparar o Estado para ser competente em termos de gestão do que para arrecadar recursos. O fato é que temos de aproveitar enquanto os ventos sopram a favor. Porque os ventos mudam. Não estou dizendo que mudaram. Mas tem brisa que não é boa, e isso me dá uma certa angústia. O Brasil tem todas as condições para se tornar um país mais decente. Está integrado no sistema econômico mundial, tem democracia, tem instituições. O problema das contas externas sumiu, a inflação acabou - mais ou menos, não? -, o sufoco fiscal melhorou. Está na hora de consolidarmos um país melhor. Mas o que estou vendo é muita rotina e muita bazófia. COM QUE VOTO? Por onde atacar, agora?É preciso mexer no sistema eleitoral, e essa para mim é a reforma principal. Voto em lista é um problema, por causa da burocracia partidária. Alguns querem o voto distrital; outros, o voto distrital misto. Há mil formas. Mas temos de buscar alguma coisa que restabeleça algum elo entre as instituições e o eleitor. Hoje ele vota para presidente, o presidente chega lá, encontra um Congresso despedaçado pelo sistema de voto, então vai entrar na barganha. No meu tempo já era assim. O governo não tinha maioria, fazia aliança com quem quer que fosse e entregava algumas posições a esse partido. No governo Lula, porém, ficou claro que foram outros os métodos usados. Todo o mundo sabe. Não houve nem a ficção de que aconteceu ali um apoio político. Houve uma adesão por razões pecuniárias. Por esse motivo, o voto nunca esteve tão carente dessa reforma como agora. O problema maior não está no financiamento das campanhas?É muito mais do que isso. É o sistema eleitoral como um todo. Se o governo tivesse aproveitado a crise e chamado todos à mesa, não para discutir a coisa menor, mas para falar daquilo que está acabando com tudo... mas, não chamou. AGÊNCIAS E O ATO DE NOMEAR Lula perde oportunidades de fazer avançar as instituições?O Brasil perde oportunidades! Vou dar um exemplo: o governo não gostava do sistema de agências reguladoras. O presidente disse mais de uma vez que eu tinha terceirizado o governo, o que mostra que ele não entendeu do que se tratava. Na prática, não pôde mudar porque viu que isso era necessário no mundo de hoje. Em lugar de aperfeiçoar, fez o pior: começou a nomear politicamente. A Anac foi o desastre maior. Mas não é o único. Agora, com a descoberta do petróleo abaixo da camada de sal, há uma nova oportunidade de fazer um avanço institucional. No entanto, começa uma nova discussão subterrânea. Uns dizem que é preciso mudar a Lei do Petróleo, outros dizem que não. E ninguém sabe qual é a proposta. Não se trata o assunto como questão nacional, apenas como problema de governo e de partido.Prevalece o interesse partidário?Ou o interesse privado. O interesse público quase não conta. Além disso, o presidente diz coisas desconexas, não se entende bem em que direção ele quer levar o País.O PSDB também não tem feito discursos conflitantes?Mas o PSDB não está no governo, não cabe a ele dizer com força o que quer. Não estou me colocando na posição de líder do PSDB, que não sou. Estou falando o que penso, e todos sabem que freqüentemente tenho opiniões contrastantes com setores do partido. Até porque acho que o PSDB também tem de ter posições mais claras. Aliás, tanto a intelectualidade quanto os líderes políticos têm sido pouco eficientes em sensibilizar a opinião geral com algumas idéias. APAGÃO, A REPRISE Corre-se o risco de outro apagão?Se há uma crítica que deve ser feita ao meu governo é que não tomamos uma decisão no que diz respeito à energia hidrelétrica. Privatizamos a distribuição, mas não a geração, que acabou ficando emperrada. Entre privatizar ou não essa parte, deixou de haver investimento forte, tanto estatal quanto privado. Não sou técnico para saber se há novo risco de apagão. Mas lembro de ter ido ao Nordeste apertar um botão depois que cumprimos a última etapa de construção da Usina de Xingó. Na ocasião, dissemos: "Nunca mais vai haver problema de energia no Nordeste". Só que não é verdade, porque o rio depende da chuva. Foi o motivo de toda aquela crise. Agora começamos a ter dificuldades pela mesma razão. De novo, não há energia o suficiente no Nordeste. Mas há a vantagem de termos montado, depois da crise, um sistema de substituição das hidrelétricas por termoelétricas.O que acha do Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC?Fizemos o Avança Brasil, que era isso - um sistema de prioridades para obras, articulado com o Orçamento. Mudaram o nome e retomaram o programa. Está certo, só que perderam cinco anos. E, como não propõem nada novo, não querem admitir que estão dando continuidade. Ora, na continuidade também é preciso inovar, e não há nada de errado nisso.O sr. não vê nenhum avanço no governo atual?O governo Lula fez uma porção de coisas. Avançou no financiamento da casa própria. Mas isso começou lá atrás, e com dificuldade votamos o tema, porque o PT se opunha. Quando fizemos a reforma da Caixa Econômica Federal, diziam que estávamos acabando com a instituição. Estávamos afastando o clientelismo e dando uma certa racionalidade. Hoje a CEF funciona. Espero que o Lula, no último dia de governo, possa dizer: "Nunca tantos brasileiros viveram num País como o de hoje". Claro, até porque nasce mais gente, nasce, nasce...O País tem melhorado, não?Mais do que isso: o Brasil mudou de patamar. Porque nos integramos à economia global, aprendemos a competir. Isso não existia. Mas, por outro lado, o Congresso até hoje não aprova acordos de investimentos, porque acha que isso é manobra do imperialismo. Só que agora somos nós que temos investimentos fora. Quando temos uma mudança de paradigma tão forte - essa mudança não é nossa, o mundo é que mudou -, implica também mudar as cabeças. E como apanhamos para mudá-las...Que avaliação faz hoje da cabeça política de Lula?Ficou tradicional, o que é pena. Não sou puritano, mas, meu Deus do céu, se estou na política, é porque quero inovar. A salvação do Lula é que agora entrou por outro caminho: quer inaugurar. É eleitoral, mas pelo menos inaugura.

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