Na 'língua do inimigo'

Declínio no estudo do árabe em escolas israelenses pode prejudicar os esforços de coexistência entre árabes e judeus e até o serviço de informações de Israel. Mas essa tendência começa a mudar

THE CHRISTIAN SCIENCE MONITOR, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2012 | 03h07

BEN LYNFIELDA roupa informal do professor de árabe Essam Shihada - tênis e uma camiseta de Mickey Mouse - contrasta com a seriedade do que ele está tentando fazer: tornar simpático a alunos judeus israelenses o estudo da "língua do inimigo".

Depois de responder a perguntas de Shihada e de uns a outros sobre quantos irmãos eles têm e onde os pais trabalham, a turma de jovens israelenses está cantando entusiasticamente uma antiga canção folclórica árabe sobre a colheita de azeitona. "Deus, abençoai as oliveiras. As azeitonas de minha terra são especialmente deliciosas. Elas dão um ótimo azeite. Todo mundo quer comê-las", cantam em uníssono duas dezenas de crianças.

O canto é uma grande conquista numa terra onde o árabe e seus falantes são amiúde vistos com suspeita e o ensino da língua é amplamente visto como em declínio, com falta de professores qualificados e poucos estudantes que o escolhem para o exame de matrícula no curso secundário.

Apesar de o árabe ser uma língua israelense oficial ao lado do hebraico, a maioria dos israelenses não o fala ou fala e lê mal - situação que, segundo os críticos da política de educação pública, prejudica as perspectivas de coexistência com a considerável minoria árabe de Israel e pode prejudicar os esforços de coleta de informações de inteligência pelos militares.

Israel está só começando a lidar com o problema. A Academia de Ciências de Israel publicou recentemente um relatório detalhando as deficiências do ensino do árabe, concluindo, entre outras coisas, que fazer da língua um requisito para a matrícula é necessário para corrigir a situação. O relatório diz que somente alguns professores de árabe são falantes nativos.

"O ensino de árabe é feito principalmente em hebraico, mesmo em programas de formação de professores, e o resultado é que muitos professores árabes não sabem falar ou escrever em árabe", disse o relatório. "Essa situação é imprópria e anormal", diz Yaron Friedman, que leciona árabe no Instituto de Tecnologia de Haifa. "O que está sendo feito não basta", diz ele. E adverte que Israel está criando uma nova geração que se "distancia do Oriente Médio" tanto linguística como culturalmente.

O Ministério da Educação não quis responder diretamente às críticas, mas diz que o tema do ensino do árabe "está passando por desenvolvimentos constantes". O ministério acrescentou que está se esforçando para fazer da língua um requisito para a matrícula no futuro, mas não forneceu uma data.

Os militares, por sua vez, estão preocupados com o estado problemático do ensino do árabe, temendo que não venham a ter no futuro uma quantidade suficiente de agentes de inteligência. "Nos últimos anos, o Exército identificou um problema grave no nível da exposição de alunos ao árabe e vimos que, entre os que aprenderam, o nível de conhecimento não é alto, para dizer o mínimo", disse à Ynet News um agente de inteligência que lida com o ensino de árabe.

Apesar das críticas, a classe de Shihada faz parte de um ponto luminoso crescente no horizonte linguístico israelense. Conhecido como programa Ya Salam (literalmente, Salve a Paz), ele é um esforço significativo para aprimorar alunos árabes e introduzir alunos judeus na cultura árabe conduzido pelo Abraham Fund, com base nos EUA e Israel, em cooperação com o Ministério da Educação. O programa foi lançado em 15 escolas no norte de Israel, há sete anos, e é lecionado hoje em 200 escolas por todo o país, com carga de duas horas semanais na quinta e sexta séries.

Os dirigentes do fundo dizem que, com a melhoria da situação da língua árabe, a situação dos cidadão árabes - aos quais foi prometida igualdade, na declaração de independência de Israel, mas que enfrentam discriminação no uso da terra, empregos e outras áreas - também vai melhorar.

"Reconhecer e aceitar o outro é parte do programa", diz Dadi Komem, diretor de educação do fundo. "Além de ser apenas uma segunda língua regular, o árabe tem tido a conotação de ser uma língua inimiga. Em nosso ensino do árabe, partimos da abordagem 'conheça teu inimigo' para 'conheça teu vizinho que compartilha tua cidadania'."

A inovação mais arrojada é introduzir professores de árabe em escolas judaicas, mas é também expor alunos à língua numa idade mais baixa que era feito, e se apoiar no ensino simultâneo do árabe falado e do escrito, que eram tradicionalmente ensinados em separado. Menachem Milson, ex-reitor de ciências humanas da Universidade Hebraica que atuou no conselho da Academia de Ciências de Israel, elogia o Ya Salam: "Preparar professores de árabe para ensinar sua língua-mãe (a judeus israelenses) nunca foi tentado anteriormente em Israel e é uma coisa muito importante. Estou otimista com isso", diz Milson.

Mas, em Jerusalém, toda as escolas religiosas estatais se recusam a participar do programa Ya Salam porque não querem a entrada de árabes no corpo docente, diz Komem. O vice-prefeito de Jerusalém, David Hadari, do Partido Religioso Nacional, explica: "É correto ensinar árabe, mas é preciso professores que sejam apropriados à escola".

Na escola Yefe Nof e em outras de Jerusalém em que leciona, Shihada teve de superar as desconfianças iniciais dos alunos. Em uma das escolas, alguns alunos se recusaram a cantar uma canção que ele ensinou conclamando todos os diversos grupos no Líbano a coexistirem. "Eles me perguntaram, 'por que escolheu essa canção? Se eles se unirem, isso os deixará mais fortes contra os judeus'." O diretor da Yefe Nof, Ronit Shema, diz que o Ya Salam está sendo "um grande sucesso", apesar de algumas desconfianças iniciais. "No começo, psicologicamente, uma parte dos alunos tinha dificuldade de aprender. Mas Essam é um bom professor, os alunos aos poucos se ligaram, as barreiras caíram e eles começaram a gostar do que ele expressava."

Na classe, um aluno de quinta série disse que aprender a língua árabe o estava deixando com menos medo dos árabes. "Se você compreende o que eles estão dizendo, então sabe que eles não estão falando de você", diz ele. Na opinião de Shihada, o programa pode fazer diferença na promoção da coexistência. "O problema é maior do que uma aula de árabe numa escola. Mas talvez, se o programa se ampliar, receber mais horas e começar com os alunos numa idade mais baixa, ele possa ajudar a criar uma nova geração com outra mentalidade. Quem sabe." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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