Na mira dos extremistas do Islã

Ao fugir da Holanda, a somali Ayaan Hirsi Ali se tornou talvez a 1ª refugiada da Europa Ocidental desde o Holocausto

Salman Rushdie e Sam Harris*, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2007 | 22h24

Enquanto você lê isto, Ayaan Hirsi Ali está acomodada numa casa protegida, com homens armados guardando sua porta. Ela é uma das mais equilibradas, inteligentes e compassivas defensoras das liberdades de expressão e de consciência existentes hoje, e por isso é desprezada em comunidades muçulmanas pelo mundo todo.Os detalhes de sua história já foram amplamente divulgados, mas vale repeti-los, pois eles ilustram quanto estamos despreparados para lidar com a ameaça do extremismo muçulmano no Ocidente.Ayaan fugiu inicialmente para a Holanda como uma refugiada da Somália em 1992, depois de não se submeter a um casamento forçado com um homem que não conhecia. Uma vez na Holanda, escondida de sua família, ela começou a trabalhar como faxineira. Mas essa faxineira falava somali, árabe, amharic, swahili, inglês e estava rapidamente aprendendo holandês. Por isso logo encontrou trabalho como intérprete para outras refugiadas somalis, muitas, como ela, fugidas do Islã. Essas mulheres haviam sido abusadas, mutiladas, não recebiam cuidados médicos e educação apropriada e eram forçadas a vidas de sujeição sexual e procriação compulsória. Depois de freqüentar a Universidade de Leyden, onde estudou ciência política e filosofia, Ayaan começou a se expressar publicamente sobre a repressão às mulheres no Islã - e logo em seguida começou a receber ameaças de morte de muçulmanos locais. A situação de sua segurança acabou ficando tão terrível que ela se mudou para os Estados Unidos, em 2002. Entretanto, foi logo contatada por Gerrit Zalm, então vice-primeiro-ministro da Holanda, que insistiu para que concorresse ao Parlamento holandês. Quando Ayaan expressou suas preocupações com a segurança, Zalm lhe garantiu que ela receberia proteção diplomática onde e quando precisasse. Ela retornou à Holanda com essa garantia, conquistou uma cadeira no Parlamento e se tornou uma defensora incansável das mulheres, da sociedade civil e da razão.O restante de sua história é bem conhecido. Em 2004, Ayaan colaborou com Theo van Gogh no filme Submission (Submissão), que examinava em detalhes a relação entre a lei islâmica e o sofrimento de milhões de mulheres sob o regime do Islã. A reação da comunidade muçulmana foi nada menos que psicopática, e confirmou tanto a necessidade do trabalho de Ayaan como a racionalidade de seus temores. Theo van Gogh, tendo dispensado guarda-costas para si, foi assassinado a tiros e quase decapitado numa rua de Amsterdã. Uma carta ameaçando Ayaan foi fincada em seu peito com uma faca de açougueiro.Ayaan foi imediatamente obrigada a se esconder e se mudar de casa protegida a casa protegida, às vezes mais de uma vez por dia, durante meses. Suas preocupações com a segurança a afastaram, enfim, definitivamente da Holanda. Ela voltou para os EUA e o governo holandês vem pagando por sua proteção - isto é, até anunciar, na semana retrasada, que não a protegeria mais fora da Holanda, com isso alardeando a vulnerabilidade dela para o mundo.É importante notar que Ayaan Hirsi Ali pode ser a primeira refugiada da Europa Ocidental desde o Holocausto. Como tal, ela é um testemunho único e indispensável tanto da força como da fraqueza do Ocidente - do esplendor de uma sociedade aberta e da energia incansável de seus antagonistas. Ayaan conhece os desafios que enfrentamos em nossa luta para conter a misoginia e o fanatismo religioso do mundo muçulmano, e convive cada dia com as conseqüências de nosso fracasso. Não existe ninguém em melhor posição para nos lembrar que ser tolerante com a intolerância é covardia. Tendo recapitulado o Iluminismo para si em alguns breves anos, Ayaan esmiuçou cada centímetro do caminho que leva ao deserto moral e intelectual que é o Islã tradicional. Ela escreveu dois livros luminosos descrevendo sua jornada, o mais recente deles, Infiel** (Companhia das Letras), best-seller mundial. É difícil exagerar sua coragem. Como escreveu Christopher Caldwell no New York Times, "Voltaire não se arriscou, com suas manifestações, a fazer 1 bilhão de inimigos que reconhecessem seu rosto e pudessem, via internet, partilhar informações imediatamente com pessoas que aspiravam a assassiná-lo".O Parlamento holandês esteve debatendo o caso de Ayaan na semana passada. Tal como está, a decisão do governo de protegê-la somente dentro das fronteiras da Holanda é genuinamente perversa. Embora os holandeses tenham reclamado do custo de proteger Ayaan nos Estados Unidos, lhes custaria de fato muito mais caro protegê-la na Holanda, já que ali ela corre muito mais riscos.Existe ainda a questão das promessas quebradas. Ayaan foi persuadida a concorrer ao Parlamento e a se tornar a porta-voz mais visível e ameaçada dos direitos de mulheres muçulmanas em todo o mundo, na compreensão de que receberia segurança enquanto precisasse dela. Gerrit Zalm, tanto em sua condição de vice-primeiro-ministro como de ministro das Finanças, prometeu-lhe essa segurança. O mais vergonhoso é que Jan Peter Balkenende, o primeiro-ministro holandês, recomendou que Ayaan simplesmente deixasse a Holanda, recusando-se a lhe assegurar até mesmo uma semana de proteção fora do país durante a qual ela poderia levantar recursos para contratar seguranças por conta própria. Será isso uma tentativa covarde de aplacar os fanáticos muçulmanos locais? Um aviso a outros dissidentes holandeses para não criarem problemas falando com excessiva franqueza sobre o Islã? Ou pura negligência?O governo holandês deveria admitir que ocorreu um escândalo e retomar sua obrigação de oferecer a Ayaan a proteção que lhe foi prometida.Não há nenhuma outra pessoa viva mais merecedora das liberdades de expressão e de consciência que consideramos garantidas no Ocidente, nem existe tampouco alguém fazendo um esforço mais corajoso para defendê-las.

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