Na pele dos Menezes

Ativista dos direitos humanos, ela encarnou a luta por justiça no assassinato do brasileiro

Flávia Guerra, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2008 | 22h47

Que espécie de pessoa premia uma mulher condenada pelo assassinato de um homem? Que espécie de pessoa defende de acusados de ações terroristas até empregadas domésticas que processam um patrão como o rei da Arábia Saudita? Que tipo de mulher defende a família de um imigrante latino-americano em uma Europa que, ao mesmo tempo que se torna cada vez mais globalizada, fecha as portas aos visitantes indesejáveis? A mesma pessoa que atende pelo nome de Harriet Wistrich. A mesma que, na última sexta, de terno básico, sapatos confortáveis e ajeitando os cabelos ruivos curtíssimos, caminhava apressada para o metrô após sair de uma maratona de oito horas de mais uma jornada do inquérito público do caso Jean Charles de Menezes. Harriet é uma das advogadas da família do brasileiro e uma das principais "ferramentas" quando o assunto é montar o quebra-cabeça que é o assassinato de Jean Charles pela Scotland Yard, em 22 de julho de 2005. Enquanto Londres se agitava em mais um happy hour pré-fim de semana, Harriet ainda voltaria para o escritório. Ela ostenta seu brasão em Camden Town, um dos bairros mais emblemáticos do North London. Conhecido por ter no passado um grande número de desempregados, Camden se tornou lar de artistas, ativistas, modernos e politizados, que até hoje defendem o direito de preservar o Camden Market, o mercado de pulgas mais famoso da capital. Seguindo pela Northern Line, a mesma em que Jean Charles viajava no dia em que foi morto na estação de Stockwell, Harriet contou como, há três anos, diante de uma sociedade perplexa com um crime até hoje inexplicado, tomou o primeiro avião e, um dia depois, passou das linhas do metrô londrino para as estradas mineiras em direção à casa de seu Matozinhos Otone da Silva e d. Maria Otone de Menezes, pais do eletricista de 27 anos. Sem falar uma palavra de português, encarou a jornada disposta a explicar aos Menezes como funcionam as leis e a Justiça inglesas. "Havia uma histeria coletiva na época. A mídia enlouqueceu. A polícia inglesa tentou manipular. As autoridades brasileiras também estavam desfocadas. Gareth (Pierce, uma das sócias da equipe de advogados a que pertence) decidiu que eu deveria assumir o caso. E eu fui."Filha de dois corretores de imóveis de classe média, Harriet cresceu em Hampstead, bairro calmo e típico do norte de Londres. Diretora de documentários, entrou para o movimento político ainda jovem, disposta a capacitar mulheres a realizarem os próprios filmes. Cansada de ver advogados cuidarem mal e porcamente de casos de mulheres que haviam assassinado homens violentos, Harriet chegou à conclusão de que poderia ser muito mais relevante para a sociedade defendendo essas mesmas mulheres que pertencendo à mídia. Fã de novos desafios, ela decidiu virar advogada e partir literalmente para a briga. Em um mundo onde, para serem ouvidas, muitas mulheres têm que engrossar a voz, ouvir a fala mansa e suave de Harriet surpreende. É feminista de carteirinha. Ou melhor, de panfleto. Da bolsa-carteiro ela tirou o último, da mais nova campanha do Justice for Women (JFW), a ONG que fundou em 1991 com Julie Bindel, sua companheira de mais de duas décadas, e outras amigas, para lutar por um julgamento justo para mulheres que confessam ter matado os cônjuges que as maltratavam, espancavam e abusavam delas. "Não defendemos o homicídio sob hipótese alguma. O que queremos é igualdade de julgamento", explica, sempre preocupada com o seu blackberry. "Um homem mata sua mulher e pega só alguns anos. Uma mulher mata seu companheiro violento e pega prisão perpétua. Apesar de injusto, é o que mais acontece. Anne Ward (a mulher premiada por Harriet em 2001, quando a ONG completou dez anos) não foi premiada porque matou o homem que estuprou uma garota de sua família. Ela foi condenada e cumpria pena. O prêmio que demos a ela foi por seu ativismo em prol dos direitos de as mulheres serem julgadas sob as mesmas condições que os homens que cometem o mesmo crime." Na mesma linha de raciocínio, também condena o fato de que um cidadão, seja ele brasileiro ou não, homem ou mulher, seja sumariamente executado e não haja nenhum culpado por isso. "É curioso como o caso do Jean chegou até nós. Comecei na vida pública como ativista. E deixei de ser para me tornar advogada. Quando fomos procuradas pelos amigos e pela família do Jean, foi como se um ciclo se fechasse. Hoje, sei exatamente o que move os campaigners. E posso fazer melhor a ponte entre eles e a Justiça", reflete a advogada, enquanto tenta proteger os olhos azuis, herança da ascendência polonesa, do raro sol de fim de tarde no outono londrino, já sentada no banco de um parque a poucos metros do Brit Oval, a arena de críquete onde se realiza o inquérito do caso Jean Charles. Quando fala em campaigners, ela quer dizer os membros do Justice4Jean, movimento promovido por amigos e familiares do brasileiro. Atualizado diariamente, o site da "campanha" traz a agenda de tudo que diz respeito ao inquérito sobre o caso e já conta com 800 membros no facebook (a versão européia do orkut). "É importante ter a Harriet nos defendendo", declarou um dos membros do movimento, que preferiu não se identificar. "Ela é respeitada e conhecida. Apesar de não participar das atividades, o fato de estar sempre em evidência e tratando do caso na mídia é crucial para o sucesso da campanha." Em plena semana de retomada do caso, quando o inquérito, que deve terminar às vésperas do Natal, trará pela primeira vez para depor testemunhas que estavam no mesmo vagão em que viajava Jean Charles, e sob o risco de demissão do chefe da Scotland Yard, Ian Blair, impera a regra do "em boca fechada não entra mosca". "Fomos orientados a não falar com a imprensa. O que podemos dizer é que temos uma ótima relação com a Harriet", disse um membro da família de Jean Charles. Voltando à Justice for Women, Harriet explica que a ONG nasceu de forma casual, como um movimento de luta para libertar Sara Thornton, a americana que matou o marido alcoólatra e violento a facadas em 1989. Sara foi condenada à prisão perpétua e, 18 meses depois, seu pedido de revisão de pena foi recusado. Na mesma semana da recusa, outro assassino, Joseph McGrail, conseguiu a liberdade após ter matado a mulher alcoólatra. Sara fez greve de fome e angariou a simpatia dos grupos feministas, entre eles a JFW."Em 1995, veio à tona o caso de Emma Humpreys, uma das pessoas cuja história de vida me inspirou profundamente", diz Harriet. Emma foi réu confessa. Sofreu abusos desde a infância e, com apenas 17 anos, matou seu algoz. Tornou-se viciada na prisão e, mesmo livre, morreu de overdose dos medicamentos que tomava. "É por isso que nosso prêmio leva seu nome", conta essa filha de dois ativistas políticos, que lutaram pelos direitos trabalhistas na Camden Town dos anos 70. "Não foi por acaso que me tornei quem sou. Em minha casa, sempre tivemos liberdade para ser o que queríamos ser. Nunca tive problemas por ser lésbica."Como bem diz Julie em suas crônicas do The Guardian, a família Wistrich é algo de que dá orgulho fazer parte. No entanto, apesar de ter sua vida exposta nas páginas do jornal, Harriet não é tão eloqüente quando a conversa passa para a esfera privada. "Minha família sempre foi muito aberta e liberal. Sempre respeitaram tanto as minhas escolhas quanto as do meu irmão. Era mais difícil quando o assunto se tornava público. Mas o mundo mudou muito desde que eu e Julie nos conhecemos, nos anos 80." Ainda assim, Daniel, o irmão, judeu ortodoxo, foi proibido por seu rabino de comparecer à união civil de Harriet com Julie. É fácil dizer que sua vida daria um filme. Mesmo assim, não há uma Harriet no documentário Leave to Remain, que acaba de ser rodado no Brasil, com direção de Henrique Goldman e com Selton Mello no papel principal. Mas outros dois filmes (docudramas feitos para a TV inglesa) devem estrear no final do ano. Nestes, que primam por destacar o crime e o julgamento, certamente Harriet vai ter papel principal. Enquanto isso, na vida real, ela encontra tempo para cuidar de outros casos, principalmente de violência contra mulheres e racismo, e sonha com férias. Adoraria passá-las no Brasil, que achou tão diferente e tão próximo. "A dor dos pais de Jean era genuinamente parecida com a de qualquer pai que perde um filho." Mas gostaria de conhecer de fato o País. "É uma sociedade muito diversa e interessante, não?"

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