Nabokov e Lawrence, gigantes da ficção, ganham volumes de não-ficção

Nabokov e Lawrence, gigantes da ficção, ganham volumes de não-ficção

Embora não tenham sido contemporâneos, Nabokov e Lawrence têm semelhanças interessantes

Dwight Gardner, The New York Times

16 de novembro de 2019 | 16h00

Vladimir Nabokov e D.H. Lawrence escreveram cada um deles um romance importante (Lolita, O Amante de Lady Chatterley), ambos foram banidos, depois aceitos e banidos novamente, antes de serem liberados.

Existem outras semelhanças. Ambos eram grandes viajantes, como se estivessem num perpétuo autoexílio e atraídos para os Estados Unidos. Nenhum dos dois gostava de ficção didática pesada. Eram sensualistas nas páginas, seus receptores sensoriais constantemente atacados pela beleza do mundo. Repeliram Freud. Cada um dos dois tinha um ego muito bem cuidado.

Ambos tinha críticas severas e persuasivas de feministas. Nas memórias de Jeanette Winterson, Por Que Ser Feliz Quando Se Pode Ser Normal? (2012), ela traçou seu despertar político nascente, lendo Nabokov quando jovem e pensando: “Ele odeia mulheres”. Kate Millet, em Política Sexual (1970), baixou o boom em torno da “pompa litúrgica” da escrita sexual de Lawrence. Sua reputação recebeu uma punção e nunca será totalmente reinflada.

As semelhanças param por aí. Lidas lado a lado, elas parecem conduzir a uma crítica mútua. O estilo de prosa de Nabokov era cool; induzia a pequenos tremores; ele apresentou pedras lapidadas e polidas. As frases de Lawrence eram como cólicas; elas queimavam quentes e frequentemente eram superaquecidas. As impurezas grudavam nos diamantes. Nabokov tinha padrões de excelência. Lawrence, graças a Deus, simplesmente os tinha elevados.

Eles provavelmente não teriam gostado da companhia um do outro. Nabokov veio da aristocracia e gostava de morar em hotéis bem equipados. Lawrence, cujo pai era um mineiro de carvão, era fundamentalmente um boêmio; quando se sentia confortável demais, tinha vontade de esmagar alguma coisa.

Eles eram quase contemporâneos - Nabokov nasceu em 1899, Lawrence em 1885 - mas Lawrence morreu aos 45 anos de tuberculose, e eles pareciam pertencer a épocas muito diferentes. É curioso imaginar que Lawrence, se não tivesse sido o azar, poderia ter vivido para ver Chuck Berry e o assassinato de Kennedy e talvez até para escrever sobre eles.

Dois novos livros trazem uma análise da prosa de não ficção desses escritores - ensaios, relatos de viagens, resenhas de livros etc. O livro de Nabokov, Think, Write, Speak: Uncollected Essays, Reviews, Interviews, and Letters to the Editor (Pense, escreva, fale: ensaios não coletados, resenhas, entrevistas e cartas ao editor, em tradução literal), é principalmente para colecionadores obsessivos.

Nabokov não gostava de perguntas e respostas. “Penso como um gênio, escrevo como um eminente autor e falo como uma criança”, escreveu ele. No entanto, dois terços de Think, Write, Speak é composto de entrevistas, mais de 80 delas, a maior parte realizadas após a publicação de Lolita. Suspeita-se que Nabokov, espionando este livro verborrágico de lá do Grande Além, deve sentir como se alguém tivesse desenterrado seus ossos, o enforcado e enterrado novamente.

Nabokov é Nabokov. Ele dispensa lampejos reluzentes. (“Meu sonho seria ter um lápis que sempre permanecesse afiado.”) Ele fala de seu gosto por borboletas, boxe, futebol e cochilos à tarde. Ele defende Lolita contra seus detratores morais. (“Humbert é um vilão.”) Mas os mesmos tópicos continuam surgindo, como se estivéssemos em um rodízio de sushi.

Aqui está a melhor passagem de Think, Write, Speak que, se eu fosse uma pessoa com tatuagem, pensaria em fazer propaganda dela no meu antebraço:

“De certo modo, todos nós estamos nos dirigindo para a morte desde a história mais recente de nosso nascimento até as pedras planas do cemitério e deslumbrados com uma imortal Alice no país das maravilhas com os padrões da parede de passagem. Essa capacidade de se maravilhar com insignificâncias, independentemente do perigo iminente, desses apartes do espírito, dessas notas de rodapé no volume da vida, são as formas mais elevadas de consciência, e estão nesse estado mental especulativo infantil, tão distante do senso comum e de sua lógica, que sabemos que o mundo é bom.”

Só faz sentido que a coleção de Lawrence, The Bad Side of Books: Selected Essays (O lado ruim dos livros: ensaios selecionados, em tradução literal), seja o volume mais forte. (Por US$ 19,95, também é a melhor pechincha.) Seu editor, Geoff Dyer, escolheu seu favorito da não-ficção de Lawrence, não dependendo apenas de trabalhos inéditos.

A maior parte desse material era nova para mim, e eu gostei muito deste livro. Seu ensaio de 1925, Reflections on the Death of a Porcupine (Reflexões sobre a morte de um porco-espinho, em tradução literal) - o animal morreu depois que Lawrence, que não gostava de armas, atirou -, merece uma antologia bem mais vasta.

Seu ensaio de 1921-22, Memoir of Maurice Magnus (Memórias de Maurice Magnus), é talvez o melhor retrato de um sanguessuga que eu já li. O grande amigo de Lawrence, até certo ponto, continuou pedindo dinheiro até Lawrence não aguentar mais. O leitor acaba admirando a capacidade desse escritor de ser cruel, de ser um disciplinador na palavra escrita. Sobre seu amigo ingrato, que finalmente se suicida, Lawrence escreve: “Eu poderia, dando metade do meu dinheiro, ter salvo sua vida. Eu tinha escolhido não salvar a vida dele. Agora, depois de um ano, mantenho com minha escolha. Eu ainda não conseguiria salvar a vida dele.

Em seu ensaio de 1924, A Letter From Germany, Lawrence é estranhamente presciente sobre o temperamento instável da Europa. Ele não menciona Hitler. No entanto, ele escreve: “Algo aconteceu. Aconteceu algo que ainda não ocorreu. O velho feitiço do velho mundo se rompeu, e o velho espírito eriçado e selvagem se estabeleceu”.

Em Art and Morality, um ensaio de 1925, Lawrence prediz essencialmente a selfie. Falando das novas câmeras da Kodak, ele escreve: "Para todo homem, para toda mulher, o universo é apenas um cenário para a pequena foto absoluta de si mesmo, de si mesma".

Seus escritos sobre a natureza devastadora da sífilis são arrasadores e um tanto tolos. “Você pode brincar com a palavra ‘varíola’”, ele escreveu. “Você não pode brincar com a palavra ‘sífilis’”. Ler a escrita de Lawrence sobre sexo, em geral, deixa você desconfiado de que ele andava por aí com constantes lacerações nos joelhos por praticar sexo sobre tapetes.

The Bad Side of Books termina com a lembrança de Rebecca West de Lawrence, publicada logo após sua morte em 1930. Lawrence teria admirado sua recusa em decair no panegírico.

West diverte-se com Lawrence e o transforma em um esboço de Monty Python, lembrando como ele era conhecido por chegar a uma nova cidade, correr para o hotel “e imediatamente se sentar e martelar artigos sobre o local, descrevendo veemente e exaustivamente ao descrever o temperamento do povo.”

O que é realmente engraçado é que ele possuía a enzima que lhe permitia converter o que estava no ar para o que voava de seus dedos. As excursões com prazo marcado de Lawrence quase sempre atingem seu marco. / Tradução de Claudia Bozzo

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