Nacionalismo no sangue

Infiltração cultural não minará ideologia norte-coreana, calcula americano. ‘Apoio ao regime tem sido incondicional’

Lúcia Guimarães - O Estado de S. Paulo

29 de maio de 2010 | 07h53

Propaganda oficial. Em um belo cartaz, ditador Kim Il-sung (1912-1994) acena aos norte-coreanos

 

Nessa semana passaram a bater com mais frequência à porta de Brian Reynolds Myers, professor de estudos internacionais de Universidade Dongseo, em Busan, bela cidade da costa da Coreia do Sul. Quem ficar intrigado com o nome ocidental do mestre deve saber que não há nada convencional no passado desse ex-funcionário da Mercedes-Benz chinesa, filho de um capelão da base militar de Fort Dix, em New Jersey, que fala africâner, coreano, mandarim, russo e alemão.

 

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No seu currículo multifacetado destaca-se The Cleanest Race: How North Koreans See Themselves - And Why it Matters (A Raça mais Limpa: Como os Norte-Coreanos se Veem - e Por Que isso Tem Importância), livro que Myers lançou em fevereiro e certamente motivou a maior procura por suas ideias nos últimos dias. Ali ele explica não só a longevidade do regime etnonacionalista fundado por Kim Il-sung, morto em 1994, como a iminente crise de legitimidade que deve levar seu filho Kim Jong-il a recorrer a novas provocações militares diante de seu catastrófico fracasso em recuperar a economia. Em dois meses, a previsão de Myers se realizou na forma do torpedo que afundou a corveta Cheonan, provocando a morte de 46 sul-coreanos e o anúncio de rompimento de pactos de segurança entre Norte e Sul já tão pouco amistosos.

 

Myers é colaborador da revista Atlantic Monthly e também autor de A Reader's Manifesto (2002) (Um Manifesto do Leitor), controvertido protesto contra o que considera a ofuscação da literatura contemporânea. Sua atenção à linguagem virou um dos trunfos de The Cleanest Race. O livro é rico em análises do que Myers chama de O Texto, a narrativa da propaganda oficial norte-coreana. A tese do autor é a de que a visão de mundo da Coreia do Norte, longe de caber no molde do stalinismo confucionista, pode ser definida com simplicidade: "O povo é uma criança pura, que não pode passar sem o líder. E o líder é uma mãe, com seu seio indispensável".

 

Como está a atmosfera na Coreia do Sul depois que o presidente Lee Myung-bak culpou a Coreia do Norte por afundar o navio Cheonan com um torpedo?

 

É um clima que deve surpreender o público brasileiro ou americano. Sabe que há pouca indignação pública provocada pelo ataque ao Cheonan? Para isso é preciso entender que o nacionalismo sul-coreano é um nacionalismo de sangue, e não de Estado. O orgulho nacional não depende de uma ligação com a República da Coreia. Mas, se o ataque vem de fora da península, aí é outra coisa. Há oito anos, quando dois soldados da base americana atropelaram duas meninas de 14 anos, milhares de pessoas saíram às ruas espontaneamente para protestar. Os coreanos do Sul não atribuem intenções diabólicas aos coreanos do Norte. O afundamento do navio é, para eles, um incidente lamentável no contexto da igualmente lamentável tensão entre os dois países. Os protestos da quinta-feira, por exemplo, foram insignificantes se comparados, por exemplo, às manifestações passionais contra a importação de carne, em 2008, por causa do temor da doença da vaca louca. É verdade que a esquerda sul-coreana culpa o presidente Lee por cancelar a "sunshine policy", de aproximação com o Norte, que durou de 1998 a 2008. A direita fica agitada porque a moeda despenca e a bolsa sofre. Ser conservador, na Coreia do Sul, é ser pró-business. Mas 20% dos sul-coreanos nem acreditam que o navio foi afundado pelo Norte porque os governos da ditadura aqui, entre 1961 e 1988, culpavam o Norte por tudo, de modo que os mais velhos desconfiam.

 

Em seu livro você diz que o sentimento anti-americano na Coreia do Sul convive com o temor de que as tropas americanas se retirem do país.

 

Sim, mas eu diria que o sentimento anti-americano tem retrocedido, mais ainda num momento como este, com o incidente do torpedo. Veja bem, a presença dos EUA aqui não é para proteger o capitalismo do comunismo. É para proteger os nacionalistas moderados do Sul dos nacionalistas radicais do Norte. No momento em que cresce a pressão americana contra a Coreia do Norte, cresce o nacionalismo no Sul. Seria sensato o governo americano deixar o governo de Seul tomar a liderança nesta crise e expressar apoio ao presidente Lee.

 

Você também afirma que há o hábito de culpar cada governo americano que acaba de sair pelas dificuldades com Pyongyang. Como vê o comportamento de Obama e Hillary depois do "eixo do mal" da retórica de George W. Bush?

 

Barack Obama chegou convencido de que os problemas com a Coreia do Norte haviam sido agravados por Bush. Ele e Clinton esperavam uma distensão. Pois o governo de Kim Jong-il nem esperou Washington entabular um começo de diálogo e fez o teste nuclear subterrâneo em maio do ano passado. O teste provocou enorme desilusão em Washington.

 

Até onde iriam os EUA para evitar um conflito armado entre o Norte e o Sul?

 

Os EUA fariam tudo, dentro do possível, para evitar uma guerra. Mas, se começar um combate entre as Coreias próximo à Linha de Limite do Norte, por exemplo, os americanos não podem impedir o confronto.

 

E como se comporta a China agora?

 

A China é a chave da solução do problema. A opinião pública chinesa parece avalizar a Coreia do Sul nesta crise, o que me surpreendeu. Não se pode pressionar ou subornar Pyongyang para cometer suicídio político. E é ingênuo esperar que a China de repente comece a exercer esse tipo de pressão. Vale lembrar que, na Guerra da Coreia, quando o Norte dependia muito mais da China, nem assim os chineses conseguiram exercer influência sobre os norte-coreanos. É claro que a China não quer uma explosão de caos na sua fronteira. O que defendo é os EUA e a Coreia do Sul manterem pressão constante sobre o gigante asiático para fechar a torneira da ajuda ao Norte. Pyongyang vai continuar com a provocação porque o militarismo é o cerne da sobrevivência do regime, é o que alimenta atualmente o nacionalismo. Não há nenhum regime comparável no mundo. Até os iranianos, hoje na berlinda, têm uma política social doméstica e o Islã unificador. A Coreia do Norte tirou a palavra comunismo de sua Constituição no ano passado e o regime não assume responsabilidade pelo desastre econômico. Se seu inimigo reside apenas fora do país, é preciso continuar cutucando o inimigo.

 

E se a China ceder e retirar a ajuda econômica?

 

A Coreia do Norte está no meio de uma campanha de propaganda interna segundo a qual o país vai adquirir o status de "força e prosperidade" até 2012. Os ditadores, de maneira geral, não são bobos o bastante para colocar uma data fixa na prosperidade. Promessa datada faz crescer a pressão interna num país com a mais fracassada economia do mundo, uma ruína irrecuperável. Mesmo se a China não fizesse nada, só o contexto atual me sugere que a Coreia do Norte poderia recorrer a uma manobra agressiva para distrair a população. Veja que terminei o livro fazendo essa previsão antes do ataque ao Cheonan. Temos, infelizmente para a Coreia do Sul, uma situação de "se correr o bicho pega, se ficar o bicho come". Seul não pode ficar de braços cruzados enquanto seus navios são torpedeados. Ao reagir, como fez o presidente Lee, dá um golpe no prestígio de Pyongyang. A maior ameaça à Coreia do Norte é a afluência da Coreia do Sul. A narrativa oficial é a de que o Sul, transformado em fantoche dos ianques, sonha com a reunificação e morre de medo do Norte. O grande problema é quando os norte-coreanos compreenderem que, numa reunificação, eles não teriam a menor chance - iam limpar o banheiro dos ricos do Sul. Homens de 1.50 m de altura, por causa da subnutrição, não conseguiriam nem casar com as sul-coreanas, e a mistura com outras raças está fora de questão.

 

Qual seria, no curto prazo, essa manobra mais agressiva?

 

Um regime cuja fonte de apoio popular é a força militar não tem escolha senão tentar punir o presidente Lee por desafiar o Norte. Quero lembrar um fato que não foi bem noticiado pela imprensa ocidental. Não é coincidência o fato de que um dos últimos incidentes de agressão ocorreu em junho de 2002, durante a Copa do Mundo. A Coreia do Norte matou seis marinheiros sul-coreanos, numa batalha no mar, perto de Yeonpyeong. A Copa se tornou um problema para a Coreia do Norte porque é um dos raros momentos em que os sul-coreanos explodem em grandes demonstrações de orgulho pela sua república, fazendo a ligação do seu nacionalismo com o Estado. Lembre que a partida eliminatória para a próxima Copa entre as duas Coreias foi transferida para Xangai, em março de 2008, porque o Norte não deixaria os sul-coreanos desfraldarem sua bandeira e cantarem o hino nacional em Pyongyang. No mês que vem será a primeira vez que as duas Coreias participam de uma Copa. Suponho que os militares sul-coreanos vão ficar especialmente alertas durante os jogos, pelo menos na primeira rodada, quando ambos os times estiverem na competição.

 

Você considera ingenuidade a impressão no Ocidente de que os norte-coreanos, por passarem tanta privação material, gostariam de ser liberados e, expostos à cultura estrangeira, começariam a resistir ao regime?

 

O engano começa quando se compara a Coreia do Norte a um antigo país comunista do tempo da Guerra Fria. A comparação mais apropriada é com a Alemanha nazista. É claro que não estou nem de longe pensando nas atrocidades cometidas pelos alemães. A ideologia na Coreia do Norte não inclui domínio de outros povos. Os norte-coreanos usam sua pobreza como medalha de honra, que representa a derrota do inimigo ianque. A comparação com os últimos dias do Terceiro Reich cabe na tenacidade com que o povo apoia o regime, a despeito da adversidade. O nacionalismo é mais sedutor. Ele dá a qualquer pessoa no país, seja o motorista de ônibus ou o burocrata, um papel na missão racial sagrada de reunir as Coreias. E isso ajuda a explicar a longevidade do regime. As estatísticas não são precisas, mas calcula-se que 50% dos norte-coreanos que saem voltam. Quando retornam, eles são punidos sem rigor, há colônias penais sem cercas. Mas os profissionais mais graduados e os religiosos, esses são severamente punidos. Eu cresci na África do Sul do apartheid e lembro que alguns dos mais virulentos racistas da minha turma na escola secundária ouviam discos do Bob Marley e do Michael Jackson. É uma ilusão também esperar que a infiltração cultural possa minar o regime norte-coreano.

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