Nada será como antes, amanhã

A história contrafactual propõe o exercício do “e se?”. E se Napoleão não tivesse invadido Portugal? E se Hitler tivesse morrido em 1944?

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

26 Dezembro 2015 | 16h00

Em tempos de incertezas, o presente se apega ao passado e nos refugiamos no saudosismo. Ou então se apega ao pretérito imperfeito e ao futuro do pretérito – e mergulhamos num passado que não desperta saudade porque não se concretizou, num pretérito fantasioso, idealizado como um sonho, uma quimera, o mais das vezes, como um pesadelo. Em tempos de incertezas, sublimar o que poderia ter acontecido às vezes nos consola, outras nos aflige, mas ao menos nos distrai irresponsavelmente, animando discussões e dando trela ao que há pouco mais de uma década ganhou o rótulo de história contrafactual.

E se Napoleão não tivesse invadido Portugal e forçado a vinda da Corte de D. João VI para o Brasil? E se Lincoln tivesse desistido de ir ao teatro naquela noite? E se o arquiduque não tivesse sido assassinado em Sarajevo? E se Hitler tivesse morrido naquele atentado de julho de 1944?

Os vitorianos transformaram especulações desse tipo em jogos de salão, passatempo que alguns ficcionistas (H.G. Wells, o mais notório) saberiam explorar literariamente (A Máquina do Tempo) e historiadores contemporâneos acrescentaram ao repertório extracurricular de diversas universidades, deixando perplexos, quando não apopléticos, E.P. Thompson, Eric Hobsbawm, Richard Evans e outros profissionais do ramo. Thompson desqualificou a história contrafactual como “merda ahistórica”, um exercício de fantasia prejudicial às percepções do que realmente aconteceu, e Evans baixou-lhe o sarrafo no ano passado, quando o centenário da Primeira Guerra Mundial entupiu o mercado editorial e seminários acadêmicos com um vasto sortimento de “what ifs?”, o nome sintético (“e se?”) que no gênero colou.

Sobretudo por negar o determinismo histórico e trafegar na contramão do marxismo, a contrafactualidade ganhou a pecha de diletantismo intelectual de direita. Verdade que seus mais destacados praticantes e propagandistas, com destaque para o britânico Niall Ferguson, costumam partir de pressupostos conservadores, fulcrados em ações individuais, com muita morte e guerras no meio do caminho. O que teria acontecido à Rússia se Lenin tivesse levado um tiro na Estação Finlândia? E ao Reino Unido se Margaret Thatcher tivesse morrido naquele atentado a bomba em Brighton?

Quanto mais próximas do que realmente aconteceu, mais plausíveis as especulações, alegam os defensores da história contrafactual e suas irmãs, a história virtual e a história alternativa. “Na medida em que nos ajudam a pensar mais amplamente sobre o período enfocado, a refletir melhor sobre a natureza contingente da história e nos oferecem uma nova perspectiva da realidade atual, seu valor pedagógico me parece indiscutível”, argumenta Jeremy Black, autor de Other Pasts, Different Presents, Alternative Futures.

Como atravessamos um longo período de incertezas, a história contrafactual ressurgiu com ímpeto redobrado, nos dois últimos anos, ao mundo acadêmico, ao mercado editorial, ao imaginário televisivo, à internet e até às páginas mais frívolas da mídia impressa. “Se pudesse voltar no tempo e tivesse a chance de matar Hitler ainda bebê, você o mataria?”, perguntou a revista dominical do New York Times a um monte de personalidades. Jeb Bush, irmão de George W. e um possível candidato do Partido Republicano à Casa Branca, nem piscou: “Sim! Claro”. Foi um dos 42% que não desperdiçariam a oportunidade de cortar o mal pela raiz, no melhor estilo Ricardo 3º. Os restantes 58% se dividiram entre contrários (por razões morais), indecisos e céticos quanto à utilidade do infanticídio proposto. “Outro líder igual ou pior do que ele fatalmente emergiria naquele contexto”, disse um dos céticos.

Há quase 20 anos o ator britânico Stephen Fry imaginou uma maneira mais radical de se evitar que o casal Alois e Klara Hitler pusesse no mundo seu malévolo rebento. No romance Making History, um estudante de Cambridge entrava numa máquina do tempo, desembarcava no interior da Áustria e despejava frascos e mais frascos de anticoncepcional no poço em que Klara colhia água potável, condenando o casal Hitler a não ter filhos. Adolf não nasce, mas em seu lugar, nos anos 1930, surge um Führer mais sanguinário e sortudo, Rudolf Gloder, que de posse de armas nucleares subjuga a União Soviética e encara os EUA.

Hitler sempre foi o mais assíduo protagonista da história contrafactual e de narrativas distópicas, nas quais em geral sai vencedor, ocupando a Inglaterra (situação explorada ficcionalmente por Kingsley Amis em Russian Hide-and-Seek), dominando o mundo, destituído de poder mas confortavelmente refugiado numa ilha dos Mares do Sul. O clássico do gênero ainda é O Homem do Castelo Alto, romance de Philip K. Dick recém-adaptado à TV numa badalada produção da Amazon.com. Vitoriosas contra os aliados, as forças do Eixo dividem os EUA ao meio, ficando o leste com o Reich alemão e o oeste com o Japão. Roosevelt? Morre num atentado em 1933. Hitler também acaba morrendo, pouco depois da guerra, de sífilis, mas seu sucessor, Martin Bormann, não desmereceu o antigo patrão.

Sobre a obsessão da cultura pop pela figura do Führer e o interesse crescente por alternativas históricas, o prof. Gavriel D. Rosenfeld não só já escreveu um alentado estudo como mantém um blog, The Counterfacttual History Review, com as últimas novidades da história especulativa. Novidade é o que não falta. Eis aqui duas que recolhi na semana passada:

1) Se o grande mufti de Jerusalém não tivesse se encontrado com Hitler, em novembro de 1941, o Holocausto não teria ocorrido, disse o premiê israelense Benjamin Netanyahu;

2) Os judeus só conheceram o Holocausto porque não estavam bem armados, palpitou Ben Carson, outro Republicano de olho na Casa Branca e também nas boas graças da indústria armamentista.

Nossa história contrafactual, estrelada por Vargas (não se mata), Prestes (não apoia a Intentona) e Tancredo (não morre), tem agora como protagonista o deputado Eduardo Cunha. Se você pudesse voltar no tempo...bem, deixa pra lá.

SÉRGIO AUGUSTO JORNALISTA E AUTOR DE NOVE LIVROS, ENTRE OS QUAIS E FORAM TODOS PARA PARIS (CASA DA PALAVRA)

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