Não era bem assim

Brasilianista se surpreendeu ao descobrir que, nos bastidores, d. Eugenio criticou o regime militar e atuou como um dos pioneiros da Igreja progressista nos anos 50

Kenneth Serbin, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2012 | 03h10

Meu primeiro contato com o mundo de d. Eugenio, a Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, ocorreu em 1986, quando visitei os arquivos da instituição na antiga catedral, a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, no centro do Rio. Ao subir a frágil escada de madeira que levava ao acervo, encontrei o arquivista Aloysio de Oliveira Martins Filho varrendo o chão.

Conforme Aloysio e eu formamos uma forte amizade, senti-me muitas vezes chocado diante das condições precárias e do baixo salário aos quais ele e o outro arquivista eram submetidos em seu trabalho, mesmo depois da transferência do arquivo para o porão da atual catedral.

Negro, Aloysio se queixava do racismo de alguns padres cariocas. De fato, em 1988, quando a CNBB escolheu a Fraternidade e o Negro como tema de sua Campanha da Fraternidade, d. Eugênio optou por uma campanha paralela enfatizando as origens multiétnicas do Brasil. Não demorei a ter uma visão crítica da arquidiocese e do seu líder.

Em 1988, no início da minha pesquisa para o doutorado em história do Brasil, mudei-me para um apartamento na Glória próximo ao edifício João Paulo II, prédio que era a cúria arquidiocesana. Estudando na biblioteca da arquidiocese, no Palácio São Joaquim, o prédio ao lado, tive a sensação de ser observado por d. Eugenio enquanto mergulhava no passado distinto e controvertido da Igreja.

O poder do cardeal era intimidador. De d. Mauro Morelli e do clero radical da Baixada Fluminense ouvia histórias da imposição hierárquica de d. Eugenio e a linha cada vez mais dura sustentada por ele e pelo Vaticano contra a Teologia da Libertação. Os ativistas de esquerda ecoavam sentimentos semelhantes sobre d. Eugenio. Na avaliação deles, ele tinha apoiado a ditadura e ajudava João Paulo II a devolver a Igreja ao catolicismo tradicional. Em todas as frentes, d. Eugenio parecia apoiar o antigo Brasil paternalista.

Comovido pela Teologia da Libertação e envolvido com os brasileiros na luta por uma sociedade mais justa e democrática, adotei a visão simplista que a esquerda apresentava a respeito de d. Eugenio. Mas, posteriormente, comecei a compreender que a biografia dele era muito mais complexa, exigindo exame cuidadoso. Essa abordagem incluía dar ouvidos à sua versão dessa história.

Em setembro de 1989, num avião que ia de Porto Alegre ao Rio, vi d. Eugenio sentado sozinho. Eu voltava à minha base carioca. Queria me preparar para uma viagem ao Recife, onde explodira a notícia do fechamento pelo Vaticano de um seminário e uma escola teológica fundados por d. Hélder Câmara, o líder da Igreja progressista.

Minha expectativa era a de que d. Eugenio se recusasse a falar comigo a respeito desse tema sensível. Para minha surpresa, depois de me apresentar e explicar que estava pesquisando os seminários, ele não protestou.

Com sinceridade, contou que tinha desempenhado papel importante na investigação das instituições do Recife. Explicou que o Vaticano agira de forma correta por causa da ênfase exagerada que as escolas recifenses atribuíam à sociologia (em lugar da doutrina tradicional), do fato de as residências dos estudantes serem nos bairros locais e não nos intramuros do seminário, e do uso de ex-padres como instrutores. Sem arrependimento, confirmou seu papel no retorno à tradição. Mas, contrastando com sua imagem pública, também se mostrou acessível.

Então, em 1993, fiquei pasmo com uma revelação totalmente inesperada. Ao descobrir documentos do Exército relatando reuniões secretas entre o regime e os bispos nos anos de chumbo, li como d. Eugenio e outros "conservadores" batiam de frente com os militares ao lado de "progressistas" como d. Paulo Evaristo Arns, d. Ivo Lorscheiter e Candido Mendes. Também descobri que, nos bastidores, ele defendeu os direitos humanos, criticou o governo e atuou como um dos pioneiros da Igreja progressista nos anos 50.

Abrindo exceção à sua regra contra entrevistas, em 1995 d. Eugenio me recebeu no escritório. Foi cordial, riu várias vezes. Respondeu a todas as perguntas, menos àquela envolvia suas conversas com Paulo VI sobre o regime, que disse serem confidenciais.

As surpresas não pararam por aí. D. Eugenio, o rei dos bastidores, e d. Paulo, o mais corajoso dos bispos que confrontaram o regime publicamente, consideravam-se amigos. Em 1996, d. Paulo deixou claro quanto uma opinião enviesada poderia distorcer a avaliação do trabalho de d. Eugenio. "Dizem que d. Eugênio é mais conservador, que sou mais progressista", afirmou. "Isso tudo é conversa. Nós temos outra maneira de proceder, mas sempre a mesma finalidade."

Tais palavras devem servir como nota cautelar - mas também como incentivo - ao autor que assumir o autêntico desafio de escrever a biografia de d. Eugenio, ajudando assim a retratar de maneira mais plena o Brasil moderno em todas as suas contradições e nuances. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

KENNETH SERBIN É AUTOR DE DIÁLOGOS NA SOMBRA: BISPOS, MILITARES, TORTURA E JUSTIÇA SOCIAL NA DITADURA (COMPANHIA DAS LETRAS)

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