Não existe um plano B para o Paquistão

Os EUA apostaram tudo em Musharraf, mesmo erro que fizeram com o xá do Irã

Gary Sick*, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2007 | 22h14

O que ocorre hoje no Paquistão lembra-me da época em que a revolução iraniana fermentava e eu era o assessor para assuntos do Irã no Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos.A principal razão para o fracasso da política americana na época da revolução iraniana foi o fato de que os Estados Unidos haviam depositado confiança e responsabilidade enormes na pessoa do xá do Irã. Ele - e não o Irã ou seu povo - era visto como a âncora da estratégia americana no Golfo Pérsico. Tudo dependia dele. Não havia plano B.Como conseqüência, a única resposta possível dos Estados Unidos à instabilidade iraniana, ruminada por um longo tempo, foi apoiar o xá. Isso foi fortalecido pela crença (ou ilusão) de que ele manteria a calma e combateria a crise crescente antes que fosse tarde demais. Quando ficou óbvio que isso não aconteceria, nada mais podia reverter a situação.Obviamente, isto é uma grande simplificação (para mais detalhes, vejam meu relato de 1985 sobre a revolução iraniana e a crise dos reféns, All Fall Down). Em retrospectiva, contudo, esta foi a essência do problema. Tínhamos apostado todas as nossas fichas no xá; não tínhamos alternativa visível. Assim, nossa política sempre tendeu a optar por mais do mesmo e não causar problemas que minassem o xá. Isso foi acompanhado de muita apreensão e ilusão.Essas políticas foram tão fracassadas que deram origem a intermináveis teorias de conspiração entre os membros da elite iraniana (muitos dos quais fugiram do país na esperança de que outros fossem defender seus interesses) segundo as quais o governo Carter, na verdade, estava decidido a substituir o xá pelo aiatolá Ruhollah Khomeini.Por mais absurdas que essas teorias tenham parecido para nós, que estávamos do lado de dentro, tratou-se de uma tentativa compreensível de associar os Estados Unidos, que eles consideravam onipotentes, a uma política de negligência e erro.Tudo isso me vem à mente quando acompanho a situação no Paquistão. Não sou especialista nesse país, mas vejo os Estados Unidos presos ao mesmo tipo de política que os atormentou no Irã. Apostamos tudo num homem - neste caso, Pervez Musharraf - e não temos nenhum plano de reserva, nenhuma estratégia alternativa para o caso de esta não funcionar.O Paquistão é muito mais perigoso do que o Irã era na época. Se o país fosse dominado por sunitas radicais de uma facção taleban islâmica radical não seria tão difícil imaginar os perigos, mesmo para quem não fosse especialista.O Paquistão é um Estado nuclear. Suponho que a tomada do poder por sunitas radicais seria vista como uma ameaça iminente pela Índia, também nuclear. Sei que o episódio seria visto dessa maneira pelo Irã. E seria bem possível o Irã abandonar seu atual desenvolvimento nuclear lento, retirar-se do Tratado de Não-Proliferação, se necessário, e tratar de obter a bomba o mais rapidamente possível. Isso provocaria outras ondas de proliferação e possíveis reações militares.O Paquistão já é um centro de treinamento do terrorismo internacional. Isso apenas aumentaria. Certamente, um Paquistão islâmico radical daria à Al-Qaeda e ao Taleban um enorme impulso em suas operações no Afeganistão e além. O Paquistão se transformaria no tipo de ameaça terrorista-nuclear iminente que atribuímos falsamente a Saddam Hussein.Um dos obstáculos que nos impediram de enfrentar a revolução iraniana num estágio inicial - independentemente de o confronto ter ou não algum efeito significativo - foi que ninguém apresentou boas idéias sobre o que fazer. Certamente, não tenho nenhum plano mágico para o Paquistão.Mesmo assim, acredito que evitar a situação ou escondê-la debaixo do tapete, na esperança de que ela melhore sozinha, é ainda pior do que admitir honestamente que não temos solução para o problema.O pior nem sempre acontece, mas, nesta região, não precisamos procurar muito para encontrar exemplos. Os paralelos me preocupam. *Gary Sick é pesquisador da Universidade de Colúmbia. Serviu no Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos sob os presidentes Ford, Carter e Reagan e foi o principal assessor da Casa Branca para o Irã durante a revolução iraniana e a crise dos refénsSEXTA, 9 DE NOVEMBROUm presidente sob pressão O presidente paquistanês, Pervez Musharraf, impediu protesto contra estado de emergência decretado dia 3 e pôs a ex-primeira-ministra Benazir Bhutto em prisão domiciliar. Os EUA pressionaram e ela foi libertada. Novas eleições foram marcadas para fevereiro.

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