Marcos Tristão/ Ag. O Globo
Marcos Tristão/ Ag. O Globo

Não no meu quintal

Urbanista critica moradores que se opõem a estação de metrô em Ipanema e diz que linha favorecendo a Barra não é prioridade

FELIPE WERNECK, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2012 | 02h08

"Árvore é desculpa", diz a professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ e vice-presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) no Rio, Fabiana Izaga. O comentário é sobre o argumento ambiental usado por um grupo de moradores que se opõe às obras para instalação de uma estação de metrô na Praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, na zona sul, promessa do governo para 2016.

O grupo, liderado pelo Projeto de Segurança de Ipanema, reuniu duas dezenas de pessoas munidas de colheres e panelas na praça em um protesto na semana passada. Os moradores juram que não são contra o metrô e garantem que querem apenas preservar a praça. "Acho essa discussão muito "nimb" (not in my backyard, não no meu quintal). Querem o benefício do transporte, mas não o transtorno da obra", acredita Fabiana, especialista em mobilidade urbana. Ela critica também a decisão do governo do Estado de expandir o metrô em direção à Barra e não para a zona norte, onde vive a maior parte da população. Leia a seguir trechos da entrevista.

Transtornos

"Falta amadurecimento para a vida em sociedade. O mix é que é bom. É natural reagirem, mas depois essas mesmas pessoas vão gostar de que o empregado possa usar o metrô, e o apartamento delas vai valorizar umas cinco vezes. É importante que as pessoas se coloquem, que a discussão evolua. Mas metrô é um benefício, elas estão sendo presenteadas. É como negar favela. Muitas pessoas não gostam de favela, mas preferem que o empregado more na Rocinha, na zona sul, e não em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

Higienópolis

"Achei muito bom o contramovimento que houve em São Paulo. Teve o movimento dos que não queriam o metrô. E depois o movimento das pessoas que tinham um pouco mais de noção de como é viver em sociedade e fizeram aquele churrasquinho.

Lucro

"O metrô está passando justamente na orla, de Ipanema até a Barra, porque vai ter demanda. Isso é muito interessante para o operador da linha, mas é péssimo para a cidade. Porque está tirando o transporte de quem mais precisa. Não é que seja ruim fazer essa linha, mas é uma questão de prioridade. Quem mora na orla pode pagar e vai se movimentar em outros horários além daquele de maior demanda. O operador da linha vai ter mais lucro.

Estratégia

"Existe uma estratégia, mas não é a melhor para a cidade. A prioridade deveria ser a área onde mora a maior parte da população. Na Barra ainda há muito terreno livre, de propriedade privada. Estão beneficiando quem, levando transporte de ótima qualidade para lá? Quem tem terreno livre, e não a cidade como um todo. Depois que passar Copa e Olimpíada, será que vamos ter uma economia que sustente novos investimentos? O momento certo para fazer o prioritário era agora. Foi o que Barcelona fez. Eles disseram: vamos investir onde a gente sabe que é difícil. Aqui é tudo meio esgarçado, não tem muito planejamento.

Zona norte

"O interesse privado está predominando nesses investimentos em direção à Barra. Senão, estariam investindo na zona norte (área mais pobre), em melhorar as estações e transformar os trens em metrô. A população não aguenta pegar os trens de subúrbio. O serviço é péssimo. Se o cidadão tem um pouco de dinheiro e um financiamento para comprar carro, ele paga R$ 250 por mês para viver com mais dignidade. A frota de trens no Rio tem mais de 60 anos. Tinha que pegar parte desse dinheiro e colocar na zona norte. São 2,5 milhões de pessoas. Seria mais importante que levar o metrô até a Barra, onde vivem 600 mil. O IAB tem uma posição clara. Defendemos o melhor para a cidade. Se há uma área onde mora a maior parte da população e que já tem infraestrutura, por que botar para o outro lado? É o bom senso. Mas existe o interesse imobiliário. A área do entorno do Parque Olímpico da Barra virou um grande canteiro de obras. Estão colocando nova infraestrutura no lugar errado. O projeto olímpico reforça a desagregação da cidade. Poderiam ter feito tudo na área do porto.

Trens

"A prioridade deveria ser transformar o serviço de trens e fazer uma rede com o metrô, interligando uma área que já tem infraestrutura e permitindo mais alternativas de mobilidade. Essa é a boa cidade. No Rio, a gente está refém do carro. E o metrô já está superlotado. Eles sabem que tem demanda e estão carregando mais a linha. As pessoas vão andar de metrô no Rio como sardinha em lata. Se hoje a demanda até Ipanema já está esgotada, imagina quando for até a Barra. É bem possível que já saia de lá cheio. O que pode melhorar é a operação, o intervalo hoje está em 5 minutos e pode chegar a menos de 2. Nos trens, a espera vai de 15 minutos a meia hora. Mesmo melhorando, o metrô vai chegar cheio na zona sul. Os operadores vão adorar, e os cidadãos vão ter um serviço péssimo. Nos trens, são levados como carne de açougue. Se podem, vão para o carro, porque o trem é degradante. É um modelo insustentável.

Modelo

"Nossas cidades cresceram em 40 anos o que cidades europeias demoraram 100. Foi muito rápido, com base no carro e sem planejamento. Até os anos 1940, o que guiou foi o trilho. Toda a zona sul foi aberta a partir do bonde. O primeiro túnel permitiu a incorporação de Copacabana. Nos anos 1960, muda-se para o vetor rodoviário. O Rio é fruto disso. O metrô replica o trajeto de ruas. Em Paris ou Londres, há uma rede que dá outras alternativas."      

 

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Ponto por ponto

FABIANA IZAGA - PROFESSORA DA FACULDADE E ARQUITETURA E URBANISMO DA UFRJ E VICE-PRESIDENTE DO IAB-RIO

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