'Não se pode culpar o mensageiro'

Nouriel Roubini, o pessimista, diz estar confiante na reunião do G-20

Flávia Tavares, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2009 | 22h14

Na semana em que se anunciou a maior queda do Produto Interno Bruto (PIB) desde 1996 (recuo de 3,6% no último trimestre de 2008) e, como reação, a redução da taxa básica dos juros ao menor nível desde 1986 (agora em 11,25%), o Sr. Catástrofe estava em solo brasileiro. Mas não vamos culpá-lo por nada. O fato de o economista turco-americano Nouriel Roubini, que carrega a pecha de ser um pessimista profissional, ter sido o único a acertar o tamanho da crise econômica que estava por vir não o faz responsável por ela, evidentemente. Roubini se torna, isso sim, uma voz a ser ouvida no que se refere a quanto esse caos vai durar. E foi disso que ele tratou por aqui. "Na melhor das hipóteses, a recuperação começa em 2010", cravou.

 

Roubini: 'Discussão não é mais ideológica, é sobre fazer a coisa certa'

Convidado a falar para empresários brasileiros, em São Paulo, Roubini pegou leve com o Brasil, dizendo que o País é uma "vítima acidental" da crise global, mas não se furtou a dar receitas do que mais deve ser feito para que a onda recessiva não se transforme em tsunami por aqui também. Já de volta aos Estados Unidos, onde leciona na Universidade de Nova York e dirige a consultoria RGE Monitor, o professor conversou com o Aliás e conseguiu até dar um sinal de confiança - otimismo, jamais. "A reunião do G-20, em abril, poderá traçar caminhos mais coordenados entre os países para que se chegue a soluções de longo prazo, saindo do caos atual", profetizou. Que os governantes o ouçam.

A volta do protecionismo

"É muito comum que se compare a crise atual com a Grande Depressão dos anos 30, mas o termo de comparação deve ser a década perdida do Japão nos anos 90. Essa crise é mais financeira do que a que levou à Grande Depressão, embora as consequências econômicas sejam igualmente severas, com o colapso de bancos e a queda nos números de emprego. No Japão, houve uma grave crise após o estouro da bolha imobiliária, e a estagnação durou muitos anos. Porém, um ponto semelhante da crise com a de 1930 é o protecionismo que essa insegurança causa. De fato, os aspectos protecionistas já começam a aparecer, mas não devem ser tão extremos como foram na época - e eles devem ser controlados, para que não sejam cometidos excessos.

A escalada e o contágio

"Começam a aparecer indícios de que o próximo setor a sofrer fortemente com a crise é o de cartões de crédito. Temos dito há tempos que, quando se tem uma recessão global, as perdas se espalham pelo subprime, hipotecas, cartões de crédito, financiamentos de automóveis, de imóveis, empréstimos e por todos os ativos que tenham sido securitizados. Num cenário recessivo, as pessoas perdem seus empregos e simplesmente param de pagar suas contas.

O plano de Obama

"Uma das críticas ao plano de estímulo de Obama é que ele tem sido muito gradualista, deveria ser mais drástico. Mas há muitos aspectos no plano que devem ser analisados. Um é o estímulo fiscal; outro tem a ver com as hipotecas e um terceiro é o que trata dos bancos. Temos de dar crédito ao fato de que em pouco tempo ele já anunciou três grandes planos. Cada um deles tem suas limitações, sem dúvida, mas a maior delas é na forma que ele escolheu para socorrer os bancos. Minha crítica entra aí: ele deveria simplesmente assumir o controle dos bancos insolventes.

Maçãs podres

"Há um temor comum de que, quando os bancos estatizados forem revendidos ao setor privado, os novos compradores cometam os mesmos erros e nos coloquem novamente em crise. Realmente, o mercado é sempre maluco, as pessoas não têm mais visão do que tinham há 30 anos e é por isso que a supervisão do sistema financeiro tem de ser eficiente. Mas, veja, em primeiro lugar, esses bancos estão funcionando, o governo não criará um banco do zero. Se eles estão insolventes, o governo assume temporariamente, resolve alguns dos problemas, separa os ativos bons dos podres, e vende de volta ao setor privado somente os ativos saudáveis. Certamente haverá alguém disposto a pagar um bom dinheiro por um banco 'limpo'. O importante é separar as maçãs podres e limpar o sistema, para não acabar acontecendo o que ocorreu no Japão, onde, por dez anos, a maioria dos bancos não podia fazer um empréstimo sequer.

Crise de modelos

"Falei recentemente sobre a falência do modelo anglo-saxão e isso gerou polêmica. Acredito muito na economia de mercado, que esse é o melhor modelo econômico possível. O governo deve ser responsável por fornecer educação, saúde, bens públicos, por assim dizer, e regular os mercados em uma medida adequada, não mais do que isso. Mas o modelo americano, especificamente, demonstrou problemas graves, especialmente no aspecto da regulação. Então, minha crítica não é ao capitalismo nem à economia de mercado, mas a uma versão particular disso. O bom sinal é que já há um reconhecimento dos erros na atual administração. O governo está intervindo na economia, tentando encontrar o equilíbrio entre nem muita nem pouca interferência. A discussão não é mais ideológica, é sobre fazer a coisa certa. Por exemplo, a estatização temporária de bancos foi uma experiência bem-sucedida em vários países e há lições a serem aprendidas sobre o que funciona ou não. O que já ficou claro é que a atual abordagem do problema nos EUA não tem funcionado.

Encontro decisivo

"O presidente Obama tem convocado outros países, especialmente da Europa, a tomar medidas conjuntas para combater a crise. Concordo que uma coordenação global nesse esforço seja urgente. Parece que a reunião do G-20 em Londres, no começo de abril, vai seguir esse caminho. Será uma ocasião para se discutir o que pode ser feito para melhorar o sistema no longo prazo, mas também medidas urgentes para deter o caos e a crise instalada. E cada país terá de se comprometer em agir para ajudar seu sistema bancário, etc. Acho que será uma oportunidade também para pensar em como proteger um pouco os mercados emergentes, que são as vítimas acidentais desse imbróglio todo. O plano do secretário Timothy Geithner, de triplicar o crédito oferecido aos mercados emergentes, é uma boa ideia. Muitos desses países estão enfrentando problemas graves, alguns por serem vítimas, outros por conta das próprias políticas. Os países mais ricos têm de ajudá-los, senão a crise ficará ainda pior para eles próprios.

Os caminhos para o Brasil

"O Brasil, uma dessas vítimas acidentais, anunciou uma queda brusca do PIB do quarto trimestre de 2008. Em seguida, reduziu a taxa de juros numa tentativa de amenizar os efeitos da crise. Mas a inflação parece sob controle e o Banco Central tem espaço para cortar ainda mais os juros - aliás, isso seria prudente e apropriado. Além disso, seria importante que o governo lançasse algum tipo de plano de estímulo fiscal, elevasse o gasto público e levasse adiante reformas estruturais. O ano será difícil, mas os fundamentos da economia estão fortes e o País poderá sair da tempestade de forma não tão traumática.

O antídoto da inanição

"Minhas previsões eram tachadas de pessimistas e catastróficas, mas se mostraram realistas. O cenário está pior do que o que eu havia previsto, na verdade. Ninguém pode culpar o mensageiro. O pessimismo não leva à inação, pelo contrário. Podemos lembrar que por muitos meses os governos tiveram uma postura de negação do tamanho do problema, dizendo que ele não era tão grave, que tudo estava sob controle, que era possível esperar um pouco mais para o mercado se curar. Era isso que os impedia de agir. Agora que a realidade está mais clara, isso tem motivado os governantes a se recompor e tomar as medidas necessárias rapidamente. Antes, havia inação, negação e complacência. Atualmente, tenta-se fazer algo. Nosso trabalho tem sido, portanto, muito construtivo e propositivo."

QUARTA, 11 DE MARÇO

Um alerta de peso

Em visita a São Paulo, para uma plateia de 300 empresários, o economista Nouriel Roubini, professor da Universidade de Nova York, declarou que as medidas anticrise estão sendo tomadas muito lentamente e, assim, a recuperação não começará antes de 2010.

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