Imagem Sérgio Augusto
Colunista
Sérgio Augusto
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Não sem provas

Se a telessérie 'The Newsroom' fosse falar da Síria, seria cautelosa ao abordar autoria de ataque químico

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2013 | 02h18

Aconteceu, virou notícia no News Night. A morte de Bin Laden, o Tea Party, Ocupem Wall Street, a Primavera Árabe, a campanha presidencial de 2012 - nenhum acontecimento relevante escapa ao pauteiro Aaron Sorkin. É isso que faz de The Newsroom (HBO, segundas-feiras, 22h) a telessérie sobre os bastidores do telejornalismo mais excitante desde Lou Grant (1977-82). Com uma vantagem sobre aquela e as demais: seu universo paralelo vive na cola do noticiário, grudado no real e no presente. As notícias nunca são fictícias no imaginário de The Newsroom. Nem quando assim parecem.

Quando despreza as enfadonhas futricas amorosas de seus personagens e extrai toda sua tensão dramática da azáfama diária na ACN (o canal a cabo que produz News Night, o telejornal ancorado por Will McAvoy), a série deslancha. Como deslanchou no episódio da última segunda-feira, do início ao fim eletrizado por um escândalo envolvendo o uso de gás letal no Oriente Médio.

Não, não foi na Síria. Sorkin, criador e roteirista da série, marca em cima a atualidade, mas o alegado uso de armas químicas por Bashar Assad contra os rebeldes sírios que há meses intentam derrubá-lo ainda não entrou na pauta do News Night. A série acaba de alcançar a invasão da missão diplomática dos Estados Unidos em Benghazi, na Líbia, em setembro de 2012.

O News Night, aliás, tinha tudo para dar a notícia da invasão em primeira mão, mas decidiu segurá-la. Explica-se a cautela: não podia arriscar-se a outro furo furado (a Operação Gênova), motivo de um processo, ainda em andamento, contra a emissora.

A Operação Gênova (na qual o Pentágono teria usado fósforo branco contra o Taleban no Paquistão) foi a única notícia inventada por Sorkin até agora. Mas com base num episódio real: a Operação Tailwind, cascata perfilhada pela CNN em 1998 atribuindo aos americanos o emprego de gás sarin numa ação militar no sudeste do Laos, em 1970. Cabeças rolaram na emissora, inclusive a de seu mais festejado repórter, Peter Arnett.

Nunca ficou esclarecido que "outro tipo de arma química", não letal, fora utilizado na Operação Tailwind. A CNN, contudo, aprendeu uma lição, agora aprendida pela equipe da ACN, afinal salva da degola pela presidente do canal (Jane Fonda, ótima), que ainda por cima incentivou a moçada a não baixar a guarda, a seguir em frente com suas reportagens investigativas e suas denúncias. Sorkin tem uma visão romântica, mas não ingênua, do jornalismo e uma postura política francamente liberal. Aguardemos a abordagem que, daqui a algum tempo, fará da atual crise na Síria.

Por ora, podemos apenas imaginar as reuniões de pauta e edição do News Night, com Will, Mackenzie, Charlie e o resto da equipe trocando ideias, farpas e teorias sobre os verdadeiros responsáveis pelo uso de sarin na guerra civil síria e a procedência das ameaças feitas por Obama.

"Precisamos de provas concretas de que foram mesmo as forças de Assad, e não os rebeldes, que cometeram aquelas atrocidades", exigirá de seus comandados o diretor de telejornalismo da ACN, Charlie Skinner. "E se elas não aparecerem logo?", perguntará Mackenzie, diretora do News Night. "Pouco importa. Obama já prometeu que irá em frente mesmo sem apoio dos britânicos e da ONU", dirá Jim Harper, assistente de Mackenzie. "E a França, até pra fazer média com a Casa Branca, mergulhou de cabeça na teoria do 'intervencionismo humanitário', defendida pelo Obama", dirá Charlie, que não será o único da emissora a sentir-se de volta a 2003, quando Bush, no dorso de uma lorota (a existência de armas de destruição em massa em poder de Saddam Hussein), invadiu o Iraque.

Nesse ponto, Will intervirá na conversa: "Esqueçam, por ora, as semelhanças que possam existir entre o que inventamos para invadir o Iraque e o que agora invocamos para justificar um ataque à Síria. As armas de destruição em massa não existiam, os milhares de sírios mortos por gás sarin são um fato comprovado. E enquanto inspetores insuspeitos não apontarem o verdadeiro culpado pelo genocídio, recomendo que nosso telejornal discuta o conceito de 'intervencionismo humanitário', uma desculpa esperta inventada pelo Clinton para bombardear a Sérvia e intervir em Kosovo, com as tropas da Otan, e ouça o máximo de especialistas em direito internacional, guerras, Oriente Médio, que for possível".

Especialistas independentes - atrás dos quais irão Jim, Maggie e Neal - poderão questionar as intenções humanitárias de Clinton e Obama, e tachá-las de mero artifício retórico para combater regimes que incomodam e desafiam o império americano e perturbam seus interesses nos sete mares. Antes de demonizar Saddam, o governo americano não só fez vista grossa para as armas químicas utilizadas pelo Iraque contra iranianos e curdos, como as forneceu ao ditador iraquiano. Na segunda-feira, a revista Foreign Policy pôs por terra a versão de que o Pentágono desconhecia as intenções de Saddam de agredir os iranianos com gás tóxico.

Kosovo, o parâmetro moral e estratégico para o ataque à Síria, foi uma aventura ilegal e um fiasco em termos de "bombardeio cirúrgico", concluiu o alentado memorando de uma das maiores autoridades britânicas em direito internacional, Ian Brownie, divulgado há 13 anos e essa semana ressuscitado pela jornalista Diane Johnstone. Brownie provou que a ocupação do Kosovo foi planejada com sete meses de antecedência, em agosto de 1998, e em sete semanas de bombardeio, pelo menos 1.200 civis morreram e 4.500 ficaram feridos. O que se previra durar 48 ou 72 horas, arrastou-se por 78 dias.

Muitos rebeldes sírios não apoiam o plano de ataque a Assad prometido por Obama. Desconfiam de sua eficácia, sobretudo a médio e longo prazo. O Oriente Médio não é para amadores.

Tudo o que sabemos sobre:
Sérgio Augusto

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.