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Não será fácil a Erdogan domesticar a arte contemporânea

O presidente turco se queixa de que não consegue marcar presença na cultura, mas o fato é que os artistas sofrem perseguição em seu regime

The Economist, O Estado de S. Paulo

25 Agosto 2018 | 16h00

O presidente turco sempre se queixa de que o único segmento da vida nacional em que seu governo conservador não conseguiu marcar presença é o da cultura e arte. No início do ano, na antiga Basílica de Santa Sofia – um templo cristão bizantino transformado em mesquita pelos otomanos e depois em museu pelos fundadores da moderna Turquia –, Recep Tayyip Erdogan defendeu uma arte que lembre o passado religioso e imperial da Turquia tanto quanto as ambições do país à modernidade.

Por muitos anos, disse o presidente, a arte na Turquia vem sendo “refém de uma mentalidade mais ocidental que oriental, que se choca com os valores da nação e ignora a rica herança de nossos ancestrais”. Erdogan prometeu que o establishment secular, que ele ajudou a depor durante a última década, não vai mais monopolizar a cultura turca nem esnobar artistas que apoiem seu governo. O discurso casou com a ocasião – o lançamento de uma exposição em Istambul dedicada à arte e ao artesanato otomano e islâmico. Os trabalhos expostos vão da caligrafia à cerâmica e a quadros em miniatura, com algumas peças criativas e outras pavorosamente kitsch – tudo devidamente extirpado de qualquer conteúdo político. O lema da exibição, que parecia referir-se ao espírito religioso, nacionalista e excludente do governo, era: “Você também tem sua arte”.

Na Istambul contemporânea, poucos anos parecem equivaler a uma vida. Há apenas uma década, a cidade vinha se tornando rapidamente a favorita da arte mundial. As vendas de obras explodiam, galerias surgiam da noite para o dia e artistas e colecionadores estrangeiros afluíam à cidade. Vários museus de arte particulares foram inaugurados. O governo de Erdogan, que conquistara o apoio de liberais turcos com a promessa de reformas democráticas e a abertura de diálogo para a entrada da Turquia na União Europeia, parecia satisfeito. Artistas começaram a encarar e desafiar, com renovada confiança, tabus e problemas sociais e históricos, entre eles a difícil situação das minorias religiosas e étnicas. 

A primeira Bienal de Istambul, em 1987, teve 10 mil visitantes. Na de 2013, o público superou 330 mil pessoas. Nem a gradual erosão da democracia nos anos iniciais de Erdogan fez refluir a onda. Donos de galerias como Haldun Dostoglu, veterano da cena artística local, não acreditavam no que viam. “Estavam acontecendo coisas que nunca imaginei’, disse ele. “A Tate Modern batia a minha porta. Istambul se tornara um imã para a Europa.” 

A situação começou a desandar no verão de 2013. Protestos contra mudanças urbanas descontroladas transformaram-se em grandes manifestações contra o governo, que reagiu com violência. Erdogan acusou potências estrangeiras de orquestrarem sua derrubada. O caos aumentou, reforçado por um escândalo de corrupção e uma série de atentados terroristas. Uma tentativa de golpe em 2016 resultou em 250 mortes e foi seguida de dezenas de milhares e prisões, expurgos em massa e o surgimento de uma retórica nacionalista. A imagem de Istambul ficou fortemente abalada. O público das galerias despencou, segundo Dostoglu. 

O dinheiro começou a secar. Segundo uma pesquisa, 12 mil milionários, entre eles vários grandes colecionadores de arte, deixaram recentemente a Turquia. A moeda turca, a lira, perdeu 40% do valor em relação ao dólar desde o início do ano, o que forçou outros milionários a apertar o cinco. As vendas de arte caíram e galerias tiveram e fechar as portas. Em perspectiva, artistas promissores debandaram para o exterior, especialmente para Berlim, que se tornou um novo e próspero cenário de arte turca. Os artistas e intelectuais que ficaram têm de se sujeitar aos caprichos e riscos do autoritarismo. 

O fogo do presidente e de seus ministros está concentrado nos artistas mais críticos, especialmente os que tomaram parte nos protestos de 2013. Ali Kazma, um videoartista que explorava as relações entre trabalho, cultura e corpo humano, representou a Turquia na Bienal de Veneza de 2013. “Para o Estado”, disse ele, “qualquer artista mais progressista, independente e simpático à cultura ocidental é suspeito.”

Artistas foram presos. Zehra Dogan, pintora curda, foi condenada a três anos de prisão por um quadro que mostra uma cidade destruída em choques entre forças turcas e insurgentes curdos. O quadro, no qual Dogan transformou veículos militares em escorpiões, foi considerado propaganda terrorista. Osman Kavala, conhecido empreendedor e patrocinador de arte, foi preso após uma violenta campanha contra ele na mídia pró-governo, passando dez meses na cadeia. Obras de arte também foram visadas. Um prédio público de Istambul removeu de uma escultura a palavra “Kostantiniyye” (Constantinopla, antigo nome cristão da cidade) após protestos de um grupo islâmico. 

As prisões, mais o estado de emergência declarado após a tentativa de golpe, conseguiram aterrorizar. Artistas se sentiram forçados a redobrar a cautela, assim como galerias e colecionadores. Em consequência, muitas das obras de arte de hoje na Turquia são mais decorativas que provocativas. “Você vai a uma grande exposição e é como se nada estivesse acontecendo no país”, disse Sena, artista feminista independente. Um dono de galeria disse que está receoso de mostrar numa feira próxima uma obra mostrando uma mulher nua. “Cinco anos atrás, eu não teria nenhum problema em criticar Erdogan, o Exército ou a polícia”, disse Hazan Ozguer Top, um jovem que faz arte em vídeo. “Agora tenho de pensar duas, três vezes, pois o preço a pagar pode ser alto.”

Entretanto, ainda há razões para otimismo. Artistas que ganharam nome durante o boom do início dos anos 2000, como Kazama, Taner Ceylan e Banu Cennetoglu, despontaram no cenário internacional. Algumas das mais ricas famílias turcas continuam patrocinando a arte no país. O número de jovens colecionadores está crescendo e o público doméstico vai às exposições. A onda de censura e propaganda nacionalista vem tendo menos impacto na arte contemporânea que no jornalismo e na cultura popular. Continuam aparecendo obras provocativas e de conteúdo político. Top, cujos trabalhos recentes incluem um vídeo mostrando camelôs vendendo bandeiras turcas em comícios políticos e os empresários que fabricam essas bandeiras, afinal, não se deixou intimidar, assim como outros artistas como ele. 

“O mundo da arte é um espaço muito mais livre se comparado a outras áreas de expressão”, acredita Beral Madra, conhecido crítico e curador. Uma razão é que as artes visuais na Turquia sempre dependeram menos de patrocínio público que de financiamento privado. Outra razão é que, sendo as artes mais difusas e tendo menos impacto imediato, são mais difíceis de censurar que jornais, televisão e cinema. Assim, domesticar o cenário artístico pode ser mais difícil do que Erdogan pensa. 

* Tradução de Roberto Muniz 

 

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