Gabriela Portilho/The New York Times
Gabriela Portilho/The New York Times

'Não temos mais medo', diz primeira curadora indígena do Brasil

A educadora que cresceu no povo Ñandeva quer usar arte para construir ponte entre indígenas e demais brasileiros

Jill Langlois, The New York Times

22 de maio de 2020 | 14h47

O trabalho de Sandra Benites busca o que há em comum. Primeira curadora indígena do Brasil, a educadora de 45 anos que cresceu no povo guarani Ñandeva, na cidade de Porto Lindo, quer usar arte para construir uma ponte entre os brasileiros indígenas e os de outras origens.

Ela está procurando uma maneira de mostrar sua semelhança e quer representar muitos dos 305 grupos étnicos do país em Histórias Indígenas, uma exposição de arte indígena global que ficará em cartaz por um ano no Masp em 2021.

Esse fio compartilhado, disse ela, virá com exemplos de narrativa e com a profunda conexão que todos os brasileiros indígenas têm com sua terra.

“O que mais gosto é de olhar para a narrativa – todo mundo tem seu jeito de contar uma história”, disse Benites. Mas o que une os povos indígenas, acrescentou ela, “é a nossa visão de mundo e a maneira como ela se relaciona com o nosso território”. Como uma das várias curadoras de ‘Histórias Indígenas’, ela organizará uma exposição com esculturas, pinturas, fotografias, danças, músicas, performances e artes audiovisuais ligadas à terra.

Nos últimos meses, as terras indígenas do Brasil estiveram no centro de uma batalha entre o atual governo do presidente Jair Bolsonaro, e ativistas ambientais, muitos dos quais são indígenas. No final de 2019, enquanto os incêndios devastavam toda a Amazônia, no norte do país, as lideranças indígenas pediam o fim das décadas de desmatamento da floresta tropical e também dos violentos ataques a líderes que estavam tentando proteger suas terras. Mineiros, madeireiros, grileiros e fazendeiros ilegais se sentiram encorajados por um presidente que prometeu não dar “nem um centímetro” de terra aos povos indígenas, para que o território pudesse ser usado por atividades que ele considerava mais lucrativas para a economia do país.

Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) provaram que as suspeitas dos ambientalistas não eram infundadas. Seu banco de dados Deter mostrou que o desmatamento anual na Amazônia aumentara 85% em 2019, em comparação com o ano anterior. Em novembro, os números do projeto Prodes, que monitora o desmatamento na Amazônia brasileira, apontaram que o desmatamento em 2019 fora o mais alto em mais de uma década, com um aumento de 30% em relação a 2018.

Agora, Bolsonaro faz movimentos para legalizar atividades como mineração comercial e projetos de energia hidrelétrica em terras indígenas, uma das principais promessas de sua campanha eleitoral de 2018. No início de fevereiro, ele anunciou a intenção de apresentar um projeto de lei ao Congresso.

Para Benites, a luta pela proteção das terras indígenas é uma ferida aberta desde que o Brasil foi colonizado pelos portugueses, gerando séculos de prática para aprender a lidar com a situação atual. “É uma coisa que sempre aconteceu, mas costumava ser mais velada”, disse ela. “Agora foi completamente desmascarada”.

E acrescentou: “Estamos enfrentando tudo isso desde 1500, então não temos mais medo. Eu me lembro de todos os meus parentes dizendo: ‘Quanto mais somos atacados, mais criamos coragem’. Temos conhecimento e sabemos como reagir, e vamos reagir abrindo um diálogo com os outros”.

Nos dias de hoje, os indígenas brasileiros enfrentam outro imenso desafio, à medida que o coronavírus avança sobre suas comunidades. Na segunda-feira, a Secretaria Especial de Saúde Indígena confirmou 402 casos e 23 mortes pelo vírus.

Todos se lembraram dos europeus que trouxeram varíola e sarampo às comunidades indígenas na década de 1560 quando, no dia 17 de abril, um juiz emitiu uma ordem proibindo missionários evangélicos de aturarem no Vale do Javari, na Amazônia, região de maior concentração de tribos isoladas no mundo. Mas persiste a preocupação de que mineradores e madeireiros ilegais, que continuam trabalhando na região, espalhem o vírus pelo vale.

Benites, que mora no Rio de Janeiro, vem viajando para São Paulo várias vezes por mês para preparar as ‘Histórias Indígenas’, vendo a arte como um convite para a conversa, chamando pessoas de todas as origens para um debate mais franco sobre a história, a cultura e os direitos indígenas e a proteção do meio ambiente.

Mesmo que o MASP esteja de portas fechadas desde 17 de março e Benites esteja trabalhando de casa, ‘Histórias Indígenas’ ainda está programada para abrir no ano que vem.

Ela ainda não fez seleções específicas para a exposição, mas disse que quer incluir artistas que pintam sobre a cosmologia das culturas indígenas e seu simbolismo; artistas que fazem fotos sobre a conexão deles e de outras pessoas com a natureza; e também artistas que fazem do canto uma forma de resistência.

Benites está particularmente preocupada com os direitos das mulheres indígenas, as quais ela disse que ainda não tiveram a chance de se aprofundar em questões como autonomia e melhores condições de trabalho porque “as mulheres indígenas ainda estão lutando pela sobrevivência, pelo modo de vida indígena”.

Ela tem a avó, líder e parteira guarani Ñandeva, como inspiração. “Ela dizia, quando eu era pequena: você tem que aprender a abraçar o mundo, porque o mundo não vai abraçar você”, explicou Benites.

A inclusão de artistas mulheres na exposição lhes dará a oportunidade de “serem protagonistas de suas próprias vozes”, disse Benites. Ela quer incluir mulheres de várias etnias, como uma artista performática Guajajara, uma fotógrafa Karajá, uma pintora Huni Kuin e artistas audiovisuais guarani e Maxacali.

Antes de ser convidada para trabalhar no museu como curadora adjunta de arte brasileira, no ano passado, Benites era professora em escolas indígenas, as quais ensinam as mesmas matérias oferecidas em todas as escolas públicas, mas acrescentam aulas sobre culturas e línguas indígenas. Ela pensava, no entanto, que os livros de história e geografia não eram adequados. “Nós não nos vemos nesses livros”, disse ela, explicando sua decisão de fazer mestrado em educação intercultural indígena para poder abordar essa questão junto aos formuladores de políticas públicas.

Ela tinha pouca experiência de trabalho com artistas. Seu primeiro passo se deu em 2017, quando foi uma das quatro curadoras de uma exposição chamada Dja Guata Porã: Indígena do Rio de Janeiro, no Museu de Arte do Rio. A arte indígena apresentada nos museus muitas vezes é pesquisada e selecionada por curadores não indígenas e exibida com base apenas em sua visão, disse Benites. Com Dja Guata Porã, ela garantiu que o planejamento incluísse povos e artistas indígenas.

No mesmo ano, ela foi convidada para montar um seminário que apresentaria aos visitantes do museu a exposição de arte indígena de 2021, a qual ainda estava na fase dos preparativos. Foi então que veio o pedido para que ela continuasse trabalhando permanentemente.

“É um ponto de virada na história dos museus e instituições brasileiras”, disse Adriano Pedrosa, diretor artístico do Masp, sobre a contratação de Benites. “Vemos que agora muitas instituições estão percebendo a necessidade de levar a arte e a cultura indígenas para os museus de arte, não só para os museus etnográficos.

“Muitas vezes vemos as coisas como estrangeiros, como alguém de fora”, acrescentou ele, “então é fantástico ter alguém que vê as coisas como uma pessoa de dentro”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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